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No princípio era o Verbo: QUAIS AS PALAVRAS DE SUA INFÂNCIA?

Antigamente se tinha palavra.

11/12/2020 às 12h17
Por: Mhario Lincoln Fonte: Edmilson Sanches
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Edmilson Sanches. Convidado Especial
Edmilson Sanches. Convidado Especial

No princípio era o Verbo...

QUAIS AS PALAVRAS DE SUA INFÂNCIA?

EDMILSON SANCHES.

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Antigamente se tinha palavra. 

Por exemplo: a casa tinha PEITORIL... POTES na BILHEIRA suando de água fria, com COPOS DE ALUMÍNIO logo ali em cima, perto da CONCHA de tirar a água ... Não esquecer a CRISTALEIRA... CÔMODA... Também o JIRAU, sobre o qual, depois de lavadas, panelas, papeiros escorriam, brilhando, TININDO de ARIADO (areado) com a oblonga BUCHA, esponja vegetal com areia e sabão (marcas PINTADINHO ou MARISCADINHO)... 

Penduradas ou colocadas por ali, a COITÉ ou CUIA, a CABAÇA e a CUJUBA... A beleza e funcionalidade do artesanato com palha estavam presentes no CHAPÉU DE PALHA, no COFO, PANEIRO, ESTEIRA, MENSABA, ABANO... Para a noite, na casa do pobre, a LAMPARINA; do remediado, o CANDEEIRO; do rico, o PETROMAX, para o qual se compravam e no qual se colocavam e se acendiam CAMISINHAS (o fogo que recebem as atuais camisinhas é outro...). Nesses utensílios de iluminação, o combustível era o querosene de marca JACARÉ, em cujas latas se via, em alto relevo, o desenho do perigoso réptil.

No quintal, o pinto PELEBREU... o PILÃO, onde, com a MÃO DE PILÃO, se PILAVA arroz em casca... pés de MANGA e MANGUITA, PITOMBA, URUCUM, ATA, UMBU, SIRIGUELA... E mais o CANTEIRO elevado  -- nem sempre ficava em um canto --, onde mãe Carlinda e tias Luíza e Isabel, com as MÃOS BOAS que tinham, plantavam flores e ervas como COENTRO, CEBOLINHA, ALFACE, vendidas ou compradas em MOLHOS para tempero... Na parte final do quintal, plantavam-se MAXIXE, QUIABO, PEPINO, MELANCIA, TAQUEIRA (uma variedade de abóbora, pequena, achatada e durinha)... VINAGREIRA (para o delicioso CUXÁ ou, menino danado, que não ENJEITAVA nada, para ser comida ESCOTEIRA (sem acompanhamento, no máximo pitadas de sal)... E não esquecer as medicinais e odorosas ERVA-CIDREIRA, HORTELÃ, BOLDO e os malcheirosos mas medicamentosos MASTRUZ e FEDEGOSO... Também o MELÃO-DE-SÃO-CAETANO... As “GARRAFADAS” (beberagens tidas como remédios) da mamãe recebiam o possivelmente onomatopaico nome de GOROROBA.

II

O rio passando logo ali, adiante, quase um prolongamento do quintal, ofertava-nos PIAUS (de coco e de vara), MANDUBÉS e MANDIS (inclusive o dourado, sonho de consumo...), PIABAS e FUTRICAS ou FUTRIQUINHAS (peixes miudinhos, filhotes, geralmente fritados sem serem “limpos”, “tratados”, abertos). Também os CASCUDOS (entre eles o SETE LÉGUAS) e VIOLAS e CRUVINAS (corvinas), muitas das vezes retirados à mão de dentro de LOCAS em LAJEDOS, com cuidado com os ESPORÕES. Ainda os CARÁS, os ANOJADOS (anujás) e os ANIQUINS (peixe bem pequeno, de corpo arredondado e duro; nada a ver com os tubarões de nome ANEQUIM). Não esquecer os MUÇUNS e seu natural instinto de, após ser fisgado pelo anzol, recolher-se valente e fortemente em sua loca, de onde, com um só fôlego de menino destemido, eu tinha de retirá-lo rapidamente ( visguento e liso que é) para jogá-lo dentro da CANOA... e não se perder o ANZOL DE CHUMBADA. Anzóis não eram necessários quando se pescava de TAPAGEM, pequena barragem feita de cipós, galhos, folhas, troncos etc., da qual se ia esvaziando a água e retirando os peixes e, aqui acolá, umas tartarugas pequenas e castanhas a que chamávamos CANGAPARA (nada a ver com um tipo

de barata d’água de mesmo nome e coloração).

original do texto.

O rio com seu leito onde se encontrava, líquido e certo, o que comer, também nos presenteava com suas margens, onde a mão humana preparava VAZANTES repletas de hortaliças e verduras e ervas, entre elas o delicioso JOÃO-GOMES.

Falando em delícia, para estimular na hora do DE COMER, a mãe fazia CAPITÃO (porção de comida, geralmente arroz, carne e farinha, em forma de bolinho, amassado com a mão e “servido” às vezes “fazendo AVIÃOZINHO”)... MOCOTÓ também era chamado MOQUE ou MOCOTOZADA. Uma roupa ou um objeto velho, um quarto ou outro cômodo desarrumado, o nome era MUQUIÇO. Ninguém pronunciava “sembereba”: carregávamos mesmo em XAMBEREBA ou XEMBEREBA. E o BOBÓ? Feito de abóbora, é o que os dicionários chamam de “quibebe”. 

III

Mulheres tinham CORPETE... ANÁGUA... Também, elegantes, vestiam TUBINHO... Meninos calçavam calçados tipo KI-CHUTE... CONGA... sandálias JAPONESAS, em cujo BILOTO (a base circular que fixa o CABRESTO), se ele quebrava, se enfiava transversalmente um arame, um prego ou um GRAMPO de cabelo de mulher, para, com ruído e tudo, continuar-se usando o par daquelas peças do vestuário... O velho avô Manoel (“papai velho”) usava mesmo eram PRACATAS, sandálias de couro, alpercatas, alpargatas. 

Alguns tinham ou pegavam PAPEIRA (caxumba, parotidite)...  ESTALICIDO (estalicídio; coriza)... BICHO-DE-PÉ... FRIEIRA... IMPALUDISMO... QUEBRANTO, este quase sempre provocado por MAU-OLHADO (aquela vizinha invejosa, se fazendo de gentil, que vinha visitar uma criança recém-nascida e mal entrava na casa os PÉS DE PLANTA já se contorciam e murchavam... A criança, depois de ninada por ela, mais tarde estava doentinha. Energia negativa pura e sem mistura.)

IV

Carro velho, para nós do interior, naqueles idos, era LERÉU. O cigarro feito ali a vista, pacientemente, pelo velho avô, era PORRONCA (teria vindo de “pau ronca”, já que, quando se prenuncia uma briga, também se diz, e igualmente por metagoge, que “o pau vai cantar”?). BORROCA era parte da expressão “cara de borroca”, com que se apelidava o jovem de rosto cheio de marcas de espinha, acne. PICHITE (ou PIXITE) também era parte da locução “nem pixite”, ou seja, nada, nem aí. Um murro forte também se dizia SUDENGA. PITUÍBA era pequeno; bem PITUIBINHA, bem pequenininho. 

V

GODE ou DE GODES era o mesmo que grátis, de graça). “ESTROMPADO” era o que estava desgastado pelo uso e “AFOLOZADO”, o que estava alargado ou frouxo. “Nariz de FOLOTE” ou “nariz de CHABOQUE” eram apelidos dados a quem tinha grandes as cavidades nasais. NINGA (originária de “ninguém”) era parte da expressão “SEU NINGA”, que dizia da inexistência de viva alma em determinado local. BUÇANHA era “nome feio” e dizia respeito aos genitais, às “partes pudendas” da mulher. E quem pegou MARIA-QUENQUÉM? Aquele inseto, espécie de mutuca, cavava um buraquinho no chão, entrava e, ao sair, ia direto... para uma caixa de FOFE (fósforo), de onde só saía amarrada por uma “linha de costura” e voava, à maneira de pipa (para nós, papagaio). 

VI

Se algo ou alguém fedia muito, estava EMPESTEADO. Estar com FOBA era dar uma de valentão. Fazer MUNGANGO era fazer trejeitos, às vezes “mangando” (zombando) de alguém. MUZINGA ou MUZENGA eram interjeições de insatisfação, raiva.

CARAMBOLO era um lagarto cinzento, que, em tronco de árvores, balançava a cabeça parecendo dizer sim. TIJUBINA era outro tipo de lagarto, de cor verde, um alvo escorregadio das BALADEIRAS (estilingues). BALADEIRA também era sinônimo de rede e, quando esta era muito velha, muito “sambada”, chamava-se de TIPUFA (com certeza, também de origem onomatapaica, à maneira de “tibungo”, pulo nágua). Confusão era CASCARIA e quem a procurava era um CASQUEIRO. 

VI

Nenhum garoto gostava de comprar a cabeça de porco e trazê-la à vista de todos. À cabeça suína se dava o nome de SANFONA e quem a levasse à mão certamente ouviria gozações do tipo: “Onde vai ser a festa?”. Falando em festa, tirar meleca do nariz era conhecido como “limpar o salão (para fazer um baile)”. Se um garoto gozador dizia “Hoje vai ter festa?”, a resposta vinha na ponta da língua: “Mas veado não entra”. Se o gozador, desarmado, ameaçasse com “Vou contar pro papai”, recebia o contravapor: “Corno também não”.

VII

Estar ENCRIQUILHADO era estar todo transido ou INTIRIÇADO (inteiriçado) de frio ou, em outra aspecto, estar encurvado pela velhice. Ser ESCRINCHA (com certeza, veio de “escroto”) era ser bom no que fazia. A propósito, existia também a locução SER ESCROTO, cujo sentido alternava de significados: tanto podia significar ser reles, ruim, ordinário, como, antipodamente, ser o bom, o tal. ESBANDALHADO era o mesmo que ESCANGALHADO, isto é, quebrado, imprestável, sem conserto ou necessitando dele. 

FOQUITE (deve vir de “foco”) era a lâmpada pequenininha, mas quando, com raiva ou desprezo, o garoto dizia “Vai dar teu foquite” ele apenas estava “mandando aos infernos”, à PQP; não significava necessariamente uma recomendação para cometer (opa!) uma atividade homossexual passiva. “Dar a PILORA” era dar (ou ter) um ataque. PIMBADA era o mesmo que “cópula”; portanto, dar uma PIMBADA era “fazer aquilo”, fazer sexo, dar uma LAPIMBOCHADA (esta também significava, sem conotação sexual, dar uma cacetada, uma paulada). ACOLOIAR era estar de conluio com outro, certamente para “fazer o mal” contra alguém. E “dar PITACO” ainda hoje é sugerir, dar uma “SUGESTA”, geralmente sem permissão. 

IX

Quando se punha muita farinha no arroz ou no caldo e essa mistura “endurecia”, a gente dizia que virara (tornara-se) um PANDURU. O relho (chicote) era chamado, apropriadamente, CASCA-DE-VACA (afinal, o relho era de couro e o couro vinha do boi, ou da vaca; tirava-se o couro desses animais para, numa surra, taca, pisa, “tirar o couro” de outros — os garotos traquinas). Quando alguém se “equilibrava”, melhorava “de condição” na vida, estava APULUMADO (aprumado). 

X

As “entradas” feitas durante o corte do cabelo recebiam o nome de CAMINHO-DE-RATO. Barbeiro que fizesse isso nunca mais veria o cliente de novo, era BARBEIRO mesmo (sem qualidade, inábil em seu ofício). Briga ainda hoje se chama ARRANCA-RABO. Mulher “da vida” era tachada de FUAMPA (as dezenas de nomes que essas heroínas levam, ante a violência e burrice masculinas...). Coisa sem valor era FUBUCA (micha). Encher o TIMBI era comer muito, encher a pança. BARRUFAR era paquerar alguém. Se a “azaração” desse certo e terminasse em namoro e o casal estivesse agarradinho, dizia-se que fulano estava ali, ENCANGADO com sicrana (ou a versa encangada com o vice).

Essa, uma pequena parte do dicionário da infância. Muitas dessas palavras não estão nos dicionários “oficiais”, ricos de tantos outros termos que praticamente ninguém sabe, ninguém disse, ninguém viu nem ouviu.

Como observou Raul Seixas em uma de suas músicas: “Ao meu lado um dicionário com palavras que sei que nunca vou usar”...

 

EDMILSON SANCHES.

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