Claudio Pavão Santana
Há aqueles que partem e há aqueles que dizem adeus.
À primeira vista, as duas expressões parecem equivalentes. Não são. Há quem desapareça sem deixar vestígios além da saudade doméstica. Outros partem apenas do convívio físico, porque permanecem vivos na lembrança daqueles que tiveram o privilégio de compartilhar sua caminhada. Não dizem adeus. Apenas seguem adiante, levando consigo uma história que o tempo não consegue apagar.
Foi com esse sentimento que fui surpreendido pela notícia da morte do confrade e colega Roque Pires Macatrão.
Ao encontrar-me casualmente com a confreira Clores Holanda, foi ela quem, com indisfarçável pesar, comunicou-me o falecimento do confrade.
Conquanto soubesse de sua comorbidade, a notícia alcançou-me em um momento particularmente delicado. Havia perdido dois irmãos no espaço de apenas um ano. Ainda buscava compreender a extensão dessas ausências quando fui alcançado por mais essa dolorosa partida. Confesso que fiquei profundamente atônito.
Ainda tentando me acostumar com esse quadro, recebi a notícia da morte dessa figura que tanto significou para mim em vida e que, estou certo, continuará presente na memória de todos quantos com ele conviveram.
Foi Roque quem me convidou para integrar, como membro fundador, a Academia Ludovicense de Letras. Devo-lhe essa distinção, que sempre recebi como uma demonstração de confiança e amizade.
Fomos confrades da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, mas nossa convivência vinha de muito antes, dos tempos da Ordem dos Advogados do Brasil.
Nas lides da advocacia estivemos, por vezes, em posições opostas; em outras, lado a lado. Em qualquer circunstância, porém, jamais deixou de dispensar-me respeito, atenção e consideração.
Na OAB tivemos divergências, como é próprio das instituições democráticas. Discordamos respeitosamente em alguns momentos, mas hoje me parece evidente que concordamos muito mais do que divergimos. A própria história o demonstra pelas realizações que ajudaram a construir uma nova realidade institucional entregue às novas gerações da advocacia maranhense.
Aos mais jovens, que não tiveram a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, vale registrar alguns traços de sua trajetória.
Roque Pires Macatrão nasceu na cidade de Brejo, em 13 de novembro de 1935.
Fez o curso primário no Grupo Escolar Cândido Mendes e, posteriormente, no Seminário Santo Antônio. Cursou o ginásio no Colégio Ateneu Teixeira Mendes, concluiu o Curso Clássico no Liceu Maranhense e iniciou seus estudos jurídicos na Faculdade de Direito de São Luís. Transferido para o Estado do Pará em razão das funções que exercia no Banco de Crédito da Amazônia S.A., concluiu a graduação na Faculdade de Direito de Belém do Pará.
Roque possuía um talento raro: reunir pessoas em torno de causas comuns. Poucos tiveram participação tão intensa na criação, organização e fortalecimento de entidades culturais, jurídicas e associativas. Sua presença era agregadora por natureza.
Também exerceu diversos cargos públicos, entre eles o de Secretário de Estado, sempre com a discrição de quem compreendia que a função pública não é espaço para vaidades, mas oportunidade de servir. Da passagem por esses cargos deixou como marcas permanentes a eficiência, a sobriedade e o compromisso com o interesse público.
Sua produção intelectual foi igualmente expressiva. Escreveu obras literárias em diferentes gêneros e deixou importantes contribuições ao pensamento jurídico.
Todavia, é em seu livro “Eu, Advogado” que talvez melhor se revele sua dimensão humana. Ali se encontra um amplo repositório de memórias, experiências, reflexões e episódios da vida profissional e pessoal, permitindo ao leitor conhecer não apenas o advogado, o homem público ou o escritor, mas sobretudo o ser humano.
E é exatamente por isso que me permito dizer que Roque não foi. Roque é. Há pessoas cuja existência não se encerra com a morte porque continuam presentes na memória, na obra construída, nas instituições que ajudaram a erguer e na influência que exerceram sobre inúmeras gerações.
Há aqueles que dizem adeus. Despedem-se e, pouco a pouco, desaparecem das lembranças, permanecendo apenas na intimidade dos seus.
Há, entretanto, aqueles que apenas partem.
Partem porque deixaram um legado. Porque continuam sendo lembrados sempre que uma instituição conta sua história, sempre que um livro é aberto, sempre que uma lembrança desperta a gratidão daqueles que tiveram a felicidade de conhecê-los.
Que o menino de Brejo — como a si mesmo se definiu em “Carta ao Pai” — siga em paz.
Nós, que permanecemos por mais algum tempo deste lado da existência, registramos nosso profundo pesar. Mas registramos, sobretudo, a honra de termos convivido com um homem cuja vida transformou sua partida em permanência.
Há pessoas que dizem adeus.
Outras apenas partem.
80 ANOS “Oitenta anos e a Maré da Esperança”. Natalino Salgado Filho.
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