Socorro Guterres, colunista da Plataforma Nacional do Facetubes.
Homero é considerado o grande fundador da literatura ocidental, pois atribui-se a ele a autoria de duas obras monumentais da Grécia antiga: a Íliada e a Odisseia, célebres poemas épicos; embora não se saiba exatamente quem foi esse lendário autor, o que constitui um dos maiores mistérios da literatura.
Como não há documentos de sua época, muitos historiadores acreditam que ele viveu no século VIII a.C. e a ilha de Chios, na Grécia, é uma das sete cidades que reivindicam o título de terra natal de Homero. Chios é a quinta maior ilha da Grécia, localizada no mar Egeu setentrional, a oito quilômetros de distância da costa da Turquia e famosa por suas vilas medievais no sul. Há algum tempo estive em uma delas, Pyrgi, a qual se destaca pelas fachadas das casas decoradas em preto e branco em padrões geométricos (técnica xysta ), ruas estreitas, arcos e muralhas.
Cheguei nessa região através de uma balsa turística proveniente da Turquia e logo me veio a mente se essas localidades dos mastiques, resina aromática nativa da terra, seriam, realmente, o berço de Homero. Nesse lugar tão pacato agora, escrevi reflexões sobre a Ilíada , poema de guerras, com suas inúmeras descrições de lutas, e prometi a quem por ventura tenha me acompanhado nessa leitura heroica, que embarcaríamos posteriormente nas aventuras da Odisseia, com seus múltiplos personagens fabulosos e que muitas vezes nos traz um ambiente doméstico e cotidiano, a diferenciar-se da Ilíada . Nesse intento recorri ao pensamento de Fernando Pessoa, no seu heterônimo Ricardo Reis: "Deve haver no mais pequeno poema de um poeta, qualquer coisa por onde se note que existiu Homero"; enfática mensagem ao diálogo constante com a tradição clássica.
É preciso lembrar que a poesia homérica de herança oral ainda suscita dúvidas quanto a ser proveniente de uma geração de cantores ao longo de séculos ou que seja uma escrita unitária desse grego a quem o costume antigo descreve como cego, ainda que não haja registros históricos que confirmem essa condição; e esse mito poderia ter um paralelo com Tirésias, famoso profeta cego de Tebas, o qual enxergava verdades que os mortais de olhos abertos não conseguiam ver. Assim se reforçaria a ideia que Homero não precisaria dos olhos físicos para contemplar o passado, deuses ou heróis; pois enxergava por meio da memória e da inspiração das musas. Desse modo, o "poeta dos poetas" dispôs na Odisseia 12.000 versos hexâmetros em 24 cantos da obra, que se inicia dez anos após a guerra de Troia, na qual Odisseu lutara ao lado dos gregos, e na volta para casa (para o seu Reino de Ítaca) sofre grandes atribulações.
O relato é feito de forma indireta e em retrospectiva pelo próprio herói aos Feácios, povo mítico grego que habitava a ilha de Esquéria. E são eles, hábeis marinheiros, que conduzem Ulisses de volta a Ítaca.
A Odisseia (assim como a Ilíada ) estaria exatamente no limite entre a tradição oral e a linguagem escrita: inicialmente os poemas seriam memorizados por cantores ou aedos (dos quais Homero é o exemplo mais famoso) e posteriormente fixados por escrito no momento em que o alfabeto grego se expandia. A herança oral está muito presente nos epítetos e repetições descritivas, como "o astucioso Ulisses", "Atena de olhos esverdeados", "Penélope sensata", dentre outros.
Homero está atualmente nos cinemas, com a Odisseia em superprodução do diretor Christopher Nolan, com grande licença poética. Mas antes de assistir as filmagens, vamos relembrar brevemente a narrativa épica, em alguns dos cantos mais marcantes do nosso aedo Homero.
A história começa em media res ; sem apresentar o herói Odisseu (ou Ulisses, na tradução latina), com invocação à Musa e assembleia dos deuses no Olimpo, que decidem se é hora de Odisseu voltar para casa. Em Ítaca, seu filho Telêmaco, com a ajuda da deusa Atena sai em busca de notícias do pai nos cantos inicias conhecidos como "A Telemaquia", que foca na jornada do filho de Odisseu. No canto V, Odisseu sai da ilha de Calipso, onde ficou retido por sete anos, e no VI canto ocorre a chegada à terra dos Feácios, que mostra o lado mais humano e vulnerável do herói.
Os cantos IX a XII são para mim a melhor parte, em que a narrativa principal passa a ser contada em primeira pessoa, e o herói relata ao rei dos Feácios, Alcino, tudo o que viveu desde o fim da guerra de Troia até chegar à ilha de Calipso, com episódios mirabolantes, como o confronto com o cíclope Polifemo; a ilha dos Lotófagos; o encontro com a feiticeira Circe; a descida aos ventos de Éolo, a descida ao Reino dos Mortos; o encontro com o profeta Tirésias e o encontro com as sereias. Além do terror de escapar do monstro Cilas e do redemoinho Caríbdis. No canto XXII está o clímax da obra, em que Odisseu disfarçado de mendigo revela a sua verdadeira identidade; vinga-se e massacra os 108 pretendentes de sua esposa, que há anos importunam a virtuosa Penélope, já que o julgam morto.
Obras magistrais requerem mais que simples comentários, requerem apreciação atenta e reflexão perspicaz. Afinal quem foi Homero e quem é Ulisses (Odisseu)? Ainda na graduação em Letras, na disciplina de Literatura Clássica me foi apresentada essa questão. Respondi que Ulisses somos todos nós, em nossas próprias jornadas e desafios e no aprendizado espiritual que nos torna possível voltar para casa.
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