Plataforma Nacional do Facetubes — Editoria de Pesquisa e Extensão
Revisão documental orientada por pesquisas de especialistas em Estudos Clássicos, História da Tradução e acervos do Império brasileiro.
As matérias pertinentes divulgados pelo Brasil – muitas delas – afirmam algumas coisas que precisam realmente de comprovação. Exemplo: dizer que o imperador “teve sua própria versão” pode sugerir a existência de uma tradução integral, concluída e disponível.
As pesquisas consultadas pela editoria confirmam, no entretanto, que o trabalho de tradução registrado nos diários, não apresentam uma edição completa da Odisseia assinada por D. Pedro II. Isso porque, entre as traduções do monarca, efetivamente publicadas, o poema homérico não aparece.
Um estudo de Romeu Porto Daros, especialista em História do Brasil pela Universidade do Extremo Sul Catarinense/UNESC (1986), e baseado na transcrição dos diários organizada pelo Museu Imperial, localizou referências à tradução desde 13 de julho de 1887 até 2 de janeiro de 1891. O trabalho atravessou, portanto, mais de três anos e meio, avançando além de 1890. Isto é, Pedro II continuou lendo e traduzindo Homero depois da deposição da monarquia e de sua partida para a Europa.
A prova está em saber que, mesmo longe do Brasil, Pedro II continuou trabalhando no texto grego, algumas vezes acompanhado pelo professor Fritz Seybold - renomado orientalista e filólogo alemão que atuou como tutor e companheiro de estudos de D. Pedro II. Isso está nas diferentes anotações do monarca.
Assim, nem só Homero, mas D. Pedro II também realizou sobre outras traduções que demonstraram sua preocupação com a forma, a métrica, a sonoridade e a proximidade com os textos de origem.
Vale dizer que a extensão dessas outras traduções – além de Odisseia - passa (segundo as pesquisas) pela Divina Comédia. Nessa, Pedro II verteu episódios dos cantos V e XXXIII do Inferno, relacionados a Francesca da Rimini e ao conde Ugolino. Mas, não traduziu integralmente a obra de Dante.
De As mil e uma noites, os manuscritos conhecidos preservam 84 noites, da 36ª à 120ª, traduzidas diretamente de uma edição árabe associada a Maximilian Habicht. E mais uma vez, o trabalho permaneceu incompleto. Já a atividade bíblica também foi mais complexa. Há registros de traduções de partes do Antigo Testamento do hebraico para o latim, entre elas trechos de Neemias, Isaías, Jeremias, Jó, Lamentações e o Cântico dos Cânticos.
Pedro II ainda trabalhou com os Atos dos Apóstolos e realizou exercícios envolvendo o hebraico, o grego e o inglês. Dizem que ele era fluente em muitos idiomas. Sobre isso, um estudo da Universidade Federal de Santa Catarina distingue as línguas que Pedro II falava das que conseguia ler: alemão, italiano, espanhol, francês, latim, hebraico e o idioma denominado nas fontes como “tupi-guarani” aparecem entre as línguas faladas; grego, árabe, sânscrito e provençal aparecem entre as línguas de leitura.
Há citações ainda de que ele falava o inglês entre os idiomas estudados e registram depoimentos contemporâneos que lhe atribuíam até 14 línguas. Contudo, é recomenda moderação, pois estudar, ler, traduzir e falar fluentemente são capacidades diferentes.
Quanto ao “tupi-guarani” que estudiosos atribuem D. Pedro II dominar, os estudos são imprecisos. Isso porque o Tupi-Guarani designa uma família linguística, não uma única língua. Tupi antigo, guarani e outras línguas pertencentes a essa família possuem estruturas e histórias próprias. Fontes do século XIX utilizavam a expressão de maneira mais ampla, razão pela qual ela aparece em estudos biográficos sobre Pedro II.
Vale lembrar, ainda, que a Odisseia constitui “uma das obras fundacionais de toda a civilização ocidental”, expressão essa geralmente usadas por filósofos como Erich Auerbach ou Martin Bernal). Mas pertencem ao campo interpretativo.
Porém, o poema de Homero (aedos/rapsodos), ocupa posição central na educação grega, na história da literatura europeia e na formação de modelos narrativos como a viagem, o retorno, o reconhecimento, a astúcia e a busca pelo lar.
O que concluir, então? A história confirmada pelos documentos dispensa amplificações. Dom Pedro II utilizava a tradução como método de aprendizagem, investigação literária e contato com outras culturas. Durante mais de três anos, trabalhou sobre Homero, comparou versões e manteve essa atividade depois de perder o trono e deixar o país.
Destarte, a conclusão documentada e segura seria que a editoria de pesquisa teve acesso leva a concluir com o seguinte: entre 1887 e 1891, Pedro II dedicou-se à tradução da Odisseia diretamente do grego, confrontando seu trabalho com versões alemãs, francesas e brasileiras; uma tradução integral preservada e pronta para publicação não está demonstrada pelas fontes consultadas. Isto é, pode realmente não existir, apesar dos fragmentos poéticos já comprovadamente traduzidos.
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Fontes consultadas: diários de Dom Pedro II, organizados por Begonha Bediaga para o Museu Imperial; estudos de Romeu Porto Daros, Rosane de Souza, Sergio Romanelli e Noêmia Guimarães Soares, vinculados à Universidade Federal de Santa Catarina; pesquisa de Ricardo Neves dos Santos sobre Pedro II e a tradução dos clássicos gregos; materiais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo sobre Homero e as línguas da família Tupi-Guarani.
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