Plataforma Nacional do Facetubes — Editoria de Arte e Cultura
São Paulo recebe, a partir de 7 de agosto, uma das principais exposições internacionais do calendário artístico brasileiro de 2026. Miró: Mestre das Formas, instalada no Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Alvares Penteado, reúne pinturas, esculturas, gravuras, litografias, tapeçarias, fotografias e filmes relacionados à trajetória de Joan Miró. A mostra permanece aberta até 12 de outubro e ocupa aproximadamente 1.200 metros quadrados do MAB FAAP, no bairro de Higienópolis.
A divulgação inicial da exposição informa mais de 100 trabalhos, enquanto o site oficial atualizado especifica 140 obras originais, dezenas delas inéditas no Brasil e algumas nunca apresentadas anteriormente no Hemisfério Sul. O conjunto inclui peças provenientes da Fundació Joan Miró, em Barcelona, da Fundació Miró Mallorca, do Museu de Arte Contemporânea de Mallorca e de coleções particulares europeias. A curadoria é do espanhol Jordi J. Clavero, que organizou o percurso em cinco núcleos temáticos destinados a acompanhar as transformações do artista ao longo de mais de seis décadas.
Nascido em Barcelona, em 1893, Miró mudou-se para Paris em 1920 e aproximou-se dos artistas e escritores que formariam o núcleo do Surrealismo. Sua produção, porém, nunca permaneceu inteiramente subordinada ao movimento. Elementos do fauvismo, do cubismo, da abstração e do automatismo aparecem em sua obra, mas são reorganizados em uma linguagem própria, formada por estrelas, luas, pássaros, mulheres, olhos, linhas negras e figuras que oscilam entre o humano, o animal e o imaginário.
A aparência simples dessas formas levou parte do público a associar Miró ao desenho infantil. A leitura é insuficiente. Estudos do Museu de Arte Moderna de Nova York mostram que o artista trabalhava de maneira ordenada e metódica, utilizando cadernos, projetos prévios e séries cuidadosamente planejadas. A espontaneidade percebida na superfície era sustentada por decisões técnicas, pesquisa de materiais e domínio da composição. O gesto livre não significava ausência de construção.
Essa dimensão ajuda a compreender o título Mestre das Formas. Miró não empregava círculos, linhas e manchas como simples ornamentos. Desenvolveu um vocabulário visual em que os sinais produzem associações sem impor uma interpretação única. Mesmo quando suas imagens parecem inteiramente abstratas, permanecem ligadas à realidade, à memória, à paisagem catalã, ao corpo, à sexualidade, à natureza e aos acontecimentos políticos de seu tempo.
A relação com a poesia também foi decisiva. Em Paris, Miró conviveu com escritores e declarou que os poetas o interessavam mais do que os pintores que conhecera. Em determinadas obras, palavras, imagens e espaços vazios passam a operar como partes de um mesmo poema visual. Não se trata de ilustrar versos, mas de levar à pintura procedimentos próprios da poesia: condensação, ritmo, ambiguidade, silêncio e associação inesperada de elementos.
As cores intensas e as figuras aparentemente lúdicas tampouco devem esconder o conteúdo histórico de parte de sua produção. Miró atravessou a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Mundial e a ditadura de Francisco Franco. Em trabalhos produzidos durante os anos 1930, figuras agitadas, monstros, cabeças deformadas e contrastes entre vermelho e negro expressam medo, violência e instabilidade. A linguagem de sinais que o tornou reconhecido internacionalmente também foi uma forma de reagir às pressões políticas e à perda da liberdade.
A exposição permite observar ainda a variedade material de Miró. O artista não se limitou à pintura sobre tela. Trabalhou com cerâmica, escultura, colagem, gravura, objetos encontrados e tapeçaria. Ao mudar de suporte, alterava também a relação com a superfície, o volume e a matéria. O que permanece é a busca por uma imagem capaz de reunir o concreto e o imaginário, a figuração e a abstração, a ordem e a ruptura.
A presença de um conjunto dessa amplitude no Brasil tem importância cultural que ultrapassa o prestígio do nome de Miró. Exposições internacionais desse porte permitem confrontar reproduções amplamente conhecidas com a escala, a textura e a materialidade dos trabalhos originais. Diante da obra, o visitante percebe que a linha não é apenas contorno, que a cor possui densidade e que o vazio participa ativamente da composição.
Miró: Mestre das Formas será apresentada de terça-feira a domingo, das 9h às 20h, com última entrada às 19h. O MAB FAAP está localizado na Rua Alagoas, 903, em Higienópolis, São Paulo. A classificação é livre, o espaço possui acessibilidade e oferece audiodescrição. Os ingressos são vendidos com horário marcado; a divulgação inicial informa valores a partir de R$ 50.
Miró não construiu um universo distante da realidade. Transformou a realidade em signos para examiná-la por outros caminhos. Sob as cores primárias, as estrelas e as criaturas flutuantes, há um artista atento à liberdade, à violência histórica, à poesia e aos limites da representação. A exposição brasileira oferece a oportunidade de compreender que a simplicidade aparente de sua obra foi resultado de uma das pesquisas formais mais persistentes da arte do século XX.
Fontes consultadas: Forbes Brasil; site oficial da exposição Miró: Mestre das Formas; Museu de Arte Brasileira da FAAP; Fundació Joan Miró; Museum of Modern Art de Nova York e Tate.
Colunistas FT De Joema Carvalho, “ A LENDA DA AURORA BOREAL”
Colunistas FT Socorro Guterres: “O retorno de Ulisses”. exclusivo para o Facetubes
EDUCAÇÃO Bravo! Autoras defendem presença permanente da literatura maranhense nas bibliotecas escolares
A QUESTÃO MACHISTA Será que somos machistas ao falar “todos”, para uma plateia visivelmente mista?
DIA DO HOMEM O Dia do Homem (15.07) - poderia ser considerado 'Dia de Thiago de Mello'
Livros & Livros Seja sincero: você sabe realmente ler um livro? Quantos leu ano passado? Mín. 14° Máx. 28°
Mín. 15° Máx. 23°
Tempo nubladoMín. 14° Máx. 25°
Parcialmente nublado
ACADEMIA POÉTICA BRASILEIRA Programa de estreia em rede internacional: USA, América Latina e Caribe, com Chiquinho França
Coronel Carlos Furtado “Os Muros que ensinam a Sonhar”, por Cel. CARLOS FURTADO
Coluna de RUY PALHANO Dr. Ruy Palhano: “Implicações biológicas e psicossociais do choro humano”
Renata Barcellos “Feiras literárias”, por Renata Barcellos (BarcellArtes)