Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes
Países vêm revendo o uso de celulares, computadores e materiais exclusivamente digitais na educação. A mudança não representa abandono da tecnologia.
O que se observa é uma busca por equilíbrio entre recursos digitais e práticas analógicas. Na Suécia, esse movimento é explícito: o governo anunciou investimentos em livros didáticos e afirmou que parte do “tempo de tela” deveria ser convertida em “tempo de leitura”. Escolas voltaram a ampliar livros impressos, leitura silenciosa e escrita manual.
A Noruega segue direção semelhante. Em 2024, o governo destinou 300 milhões de coroas norueguesas para livros didáticos impressos, recurso estimado para adquirir mais de um milhão de exemplares, defendendo oficialmente melhor equilíbrio entre “livro e tela”. Na Dinamarca, o Ministério da Educação recomendou escolas sem celulares, computadores guardados quando não forem necessários à aula e espaço deliberado para a aprendizagem analógica. A própria autoridade dinamarquesa reconhece que as consequências de longo prazo da exposição de crianças e adolescentes às telas ainda não estão suficientemente documentadas, razão pela qual suas recomendações adotam um princípio de precaução.
França, Finlândia e Itália apresentam medidas próprias. A França generalizou em seus collèges públicos, a partir do ano letivo de 2025-2026, o programa “Portable en pause”, destinado a retirar efetivamente celulares e dispositivos conectados dos estudantes durante a jornada escolar, além de limitar comunicações digitais escolares à noite e nos fins de semana. Na Finlândia, a legislação passou a restringir desde agosto de 2025 celulares e outros dispositivos móveis durante as aulas, salvo autorização para finalidade pedagógica; o retorno ao papel, porém, não constitui uma política nacional uniforme: a cidade de Riihimäki, por exemplo, substituiu materiais digitais por livros impressos em matemática e idiomas depois de avaliar a experiência dos estudantes. Na Itália, a orientação ministerial proibiu celulares nas etapas iniciais de ensino, inclusive para finalidade didática, e estimulou novamente o diário escolar escrito à mão.
A ciência permite compreender parte dessa revisão, sem transformar o debate numa guerra entre papel e tecnologia. Uma meta-análise publicada na Educational Research Review encontrou vantagem geral da leitura em papel sobre a leitura em tela na compreensão de textos, especialmente em determinadas condições de tempo e gênero textual. Estudos experimentais sobre alfabetização também indicam que escrever letras à mão pode favorecer processos relacionados ao reconhecimento das formas e à aquisição inicial da leitura. Pesquisa com crianças pré-leitoras mostrou ativação de regiões associadas ao circuito da leitura depois da produção manuscrita de letras, resultado que não apareceu da mesma maneira depois de simplesmente digitá-las. Um estudo publicado em 2025 encontrou ainda maior precisão na aprendizagem de letras e pseudopalavras entre crianças que haviam praticado a escrita manual do que entre aquelas treinadas por teclado.
Também é necessário corrigir uma afirmação do texto que acompanha o card: não há base científica suficiente para dizer que as telas, por natureza, “não servem para a formação de pessoas” ou que uma geração inteira esteja necessariamente perdendo raciocínio lógico e vocabulário por causa delas. O problema documentado é sobretudo o uso excessivo, dispersivo ou pedagogicamente inadequado. No PISA 2022, cerca de 30% dos estudantes disseram distrair-se com dispositivos digitais em muitas ou todas as aulas de matemática; aqueles que relataram distração frequente tiveram desempenho inferior, mesmo após ajustes estatísticos. O mesmo levantamento mostrou um dado essencial ao debate: o uso moderado e dirigido de tecnologia para aprendizagem pode estar associado a resultados positivos. A UNESCO, por sua vez, adverte que ainda há pouca evidência robusta sobre o valor adicional de muitas tecnologias educacionais e recomenda que a tecnologia esteja subordinada aos objetivos pedagógicos, não o contrário.
A questão, portanto, não é retornar nostalgicamente a uma escola anterior ao computador. É recuperar atividades que exigem atenção prolongada, leitura integral, memória, coordenação motora fina, elaboração do pensamento e convivência presencial, usando o digital onde ele realmente amplia o aprendizado. Livro, caderno, lápis, professor e computador não precisam disputar território. A experiência europeia indica outro caminho: interromper a digitalização automática de qualquer atividade escolar e perguntar primeiro qual instrumento é mais adequado à aprendizagem. Para ilustrar a matéria, uma opção gratuita é a fotografia “Hand-writing-exam-classroom.jpg”, de Alison Wood, disponível no Wikimedia Commons em alta resolução (3.072 × 2.048 px), sob licença Creative Commons CC BY 3.0 — adequada para mostrar um estudante escrevendo manualmente em sala de aula.
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