Editoria de Literatura, Arte e Música — Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln /// Informações: Luis Mário Oliveira
É um fato histórico sim, porque o Maranhão assiste ao nascimento de um grito organizado e forte de sua classe artística, que começa pela música e amplia sua pauta para outras áreas da cultura. A iniciativa surgiu a partir da mobilização do músico Chiquinho França, com a criação de um grupo de WhatsApp -"Juntos Pela Nossa Música". Em pouco tempo, o espaço virtual reuniu mais de 200 músicos, artistas, cantores, poetas e apoiadores, segundo os registros apresentados à Plataforma Nacional do Facetubes.
O primeiro encontro presencial ocorreu em 23 de setembro de 2026, no "Grill São Luís Rei de França", em São Luís. A característica que diferencia a mobilização está definida pelos próprios participantes: não existe um líder central. Existem colaboradores. A expressão que circula entre eles resume essa estrutura coletiva: “Agora sim, NÓS!”
Vale historizar isso também: essa mobilização maranhense encontra antecedentes importantes dentro e fora do País:
BRASIL - Em 1987, músicos de gravação do Rio de Janeiro aprovaram greve por tempo indeterminado contra empresas multinacionais do disco. Foram 82 dias de paralisação, de 1º de janeiro a 23 de março, segundo a história documental do Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado do Rio de Janeiro.
A entidade atuou - depois disso - na maioria das negociação de contratos, tabelas de cachês e direitos profissionais. Pesquisa da Plataforma Nacional do Facetubes, em arquivos sindicais, confirma a importância dessas estruturas na organização do mercado de trabalho musical brasileiro, marcado historicamente pela atividade autônoma, intermitência e necessidade permanente de negociação coletiva.
EEUU - Um dos episódios de maior dimensão ocorreu nos Estados Unidos, entre 1942 e 1944, quando a American Federation of Musicians determinou a suspensão das gravações comerciais de seus integrantes em meio à disputa com grandes gravadoras por remuneração decorrente da utilização das gravações. O movimento afetou diretamente a atividade de algumas das maiores formações musicais do período. Nomes como Duke Ellington, Benny Goodman, Count Basie e Tommy Dorsey estavam entre os artistas alcançados pelo bloqueio das sessões comerciais. Gravadoras como Decca e Capitol chegaram a acordos em 1943; RCA Victor e Columbia encerraram a resistência no ano seguinte. A paralisação tornou-se um dos marcos da luta organizada de músicos pela remuneração do trabalho reproduzido pela indústria fonográfica.
Esse novo grito dos músicos maranhenses registra também, pontos centrais: a participação dos artistas maranhenses na cadeia econômica da cultura, principalmente em eventos realizados com recursos públicos. e especialmente, ainda, em apresentações em escolas estaduais e municipais, mostrando às crianças o valor da música feita no Maranhão. Assim, muitas propostas foram ventiladas nessa primeira grande reunião. Inclusive, o estudo de um percentual mínimo para remuneração de artistas locais tomando como referência o maior cachê pago no mesmo evento. Também, a definição de presença mínima de artistas maranhenses nas programações financiadas pelo poder público, o levantamento da legislação existente e a formulação de instrumentos jurídicos capazes de sustentar futuras reivindicações. A proposta discutida inicialmente trabalha com uma referência de até 10% do maior cachê contratado, critério ainda sujeito a avaliação técnica e jurídica. Trata-se, nesta fase, de proposta do movimento, não de norma em vigor.
Outro eixo colocado na mesa é a transparência. Os participantes defendem que editais, leis de incentivo e outras formas de financiamento cultural adotem critérios públicos de avaliação e distribuição, com análise baseada no mérito dos projetos e tratamento isonômico entre proponentes. O grupo também reivindica contratos compatíveis com a atividade profissional, condições adequadas para apresentações e recuperação dos equipamentos culturais. A preocupação alcança teatros, centros culturais e espaços de bairro apontados pelos artistas como necessitados de manutenção. A discussão parte de uma realidade conhecida entre trabalhadores da música: qualquer show ou uma simples apresentação pública envolve instrumento, equipamento, transporte, ensaio, produção e uma cadeia de profissionais que não pode ser reduzida apenas ao tempo em que o artista permanece no palco.
A organização profissional aparece como outra frente. A reunião decidiu estimular a filiação de músicos ao sindicato da categoria, ampliar a representação coletiva e encaminhar as propostas para análise jurídica antes de qualquer iniciativa legislativa. Inclusive, na pauta, proposta de projeto de lei para exame técnico e adequação constitucional sobre os assuntos pertinentes, o que vai garantir apoio Legislativo a essas bem-vindas ações. A própria história profissional dos músicos brasileiros mostra a importância desse tipo de organização. A Ordem dos Músicos do Brasil foi criada pela Lei Federal nº 3.857, de 1960, no processo de regulamentação da profissão, enquanto pesquisas sobre o mercado musical no Rio de Janeiro mostram que sindicatos exerceram papel direto na formalização de contratos, definição de remuneração e defesa das condições de trabalho.
Só uma coisa muda - e para melhor - nesse cenário nacional e internacional. Em São Luís, o movimento começa reunindo, antes de personalizar. Mesmo que os nomes de Chiquinho França e César Roberto apareçam como ponto de partida da articulação,Chiquinho mesmo foi explícito em afirmar: "(...) aqui não temos líder. Todos tem que buscar na força coletiva, um remédio - mesmo amargo - para nos tirar desse marasmo negativo que vive a música maranhense. Assim, nesta luta, todos têm responsabilidades".
Outra opinião: "A ata da reunião deixa claro que o grupo não pretende impedir a contratação de artistas nacionais ou de outros Estados. O que reivindica é participação mais ampla da produção maranhense nos eventos sustentados por dinheiro público, relações profissionais de trabalho, critérios conhecidos para utilização dos recursos e condições para que a economia gerada pela cultura também permaneça no Maranhão", complementa Luís Mário Oliveira, que integrou uma forte mesa diretora da reunião composta por grandes nomes da MPB-MA Gerude, Célia Leite, Régis Furtado, Nan Souza ( um dos grandes incentivadores da cultura do Maranhão, desde sua investida em importante cargo público) e João Bentivi, intelectual, músico e fundador da Academia Atheniense de Letras e Artes.
Enfim, ainda é cedo para medir os resultados institucionais dessa mobilização. Contudo, seu primeiro grande resultado já pode ser medido pela capacidade de reunir mais de duas centenas de profissionais (em grupo virtual), em torno de uma pauta comum, construir uma reunião presencial, produzir ata, definir encaminhamentos jurídicos, estimular organização sindical e estabelecer uma estratégia pública de comunicação. Vale dizer, ainda, que pela diversidade das áreas reunidas e pelo modelo declarado de organização, sem liderança individual, o movimento iniciado em setembro de 2026 estabelece um registro próprio na história recente da cultura maranhense. A frase surgida entre seus participantes talvez seja sua síntese mais precisa: “Agora sim, NÓS!”
Editoria de Literatura, Arte e Música — Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln
Leia mais em: (www.facetubes.com.br).
Fontes: Ata da Reunião dos Artistas Maranhenses, São Luís, 23 de setembro de 2026; relato dos participantes encaminhado à Plataforma Nacional do Facetubes; Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado do Rio de Janeiro — acervo histórico; Ordem dos Músicos do Brasil — histórico institucional; Luciana Requião/UFF, Músicos do Rio de Janeiro e o mercado de trabalho formalizado na década de 1970; University of Maryland Libraries — The Recording Ban of 1942; American Federation of Musicians.
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