ORQUÍDEA SANTOS, editora-geral.
Inspirada na experiência vivida ao lado da mãe, Flor de Lys, fala de Alzheimer, depressão, perda de referências e da necessidade de acolher quem atravessa doenças que atingem a memória, o raciocínio e a percepção de si.
“Alzheimer”, de Mhario Lincoln, nasce de uma experiência familiar marcada pelo cuidado. A canção é uma homenagem a Flor de Lys, sua mãe, acolhida carinhosamente pela família durante o avanço da doença. O texto não transforma essa trajetória em lamento. Parte da convivência para falar de uma necessidade concreta: permanecer ao lado de quem começa a perder referências, palavras, caminhos e fragmentos da própria memória. O centro da composição está menos na doença e mais na presença humana diante dela.
A letra preserva esse sentido desde os primeiros versos. Não diga ‘pare de chorar estabelece uma posição diante do sofrimento: escutar antes de corrigir, compreender antes de julgar. Quando a voz pede “Fica comigo quando a minha voz falhar”, a canção alcança também outras condições que interferem na organização do pensamento, no equilíbrio emocional e na capacidade de comunicar o que se sente. A depressão ocupa esse mesmo território de atenção. Quemj sofre, nem sempre tem a coragem de explicar a própria dor. O acolhimento começa quando a família e os amigos deixam de exigir explicações e passam a oferecer presença.
Outro ponto da composição está na ideia do “labirinto”. A imagem aparece como representação de uma mente que procura uma saída enquanto perde referências conhecidas. Nesse espaço, a mão estendida, a voz familiar e o reconhecimento pelo nome ganham outra dimensão. O cuidado pode estar em repetir uma informação, ouvir a mesma história, acompanhar um silêncio ou apenas permanecer perto. A canção trata esse gesto como parte daquilo que ainda pode ser preservado quando a memória começa a falhar.
“Alzheimer” também fala sobre a responsabilidade de quem permanece lúcido diante da fragilidade do outro. Rejeição, impaciência, abandono e incompreensão podem aprofundar o sofrimento de quem já enfrenta uma condição que altera sua relação com o mundo. A letra propõe outro caminho: nenhuma dor precisa se explicar, pra te dar guarida. O verso concentra uma ideia singular nessa composição. Antes de compreender completamente a doença, é possível compreender a pessoa.
No encerramento, a música reduz tudo a quatro gestos: não mandar parar de chorar, dizer o nome, ficar ao lado e esperar que aquela pessoa consiga novamente se escutar. É nesse ponto que a homenagem a Flor de Lys se transforma em mensagem coletiva. “Alzheimer” fala às famílias que acompanham alguém com perda de memória, depressão ou outras doenças que comprometem a percepção, a comunicação e o raciocínio. A canção lembra que, quando muitas coisas deixam de fazer sentido, o acolhimento ainda pode fazer.
ALZHEIMER
Letra e composição: Mhario Lincoln
Obra depositada AMAR/SOMBRÁS
Não diga “pare de chorar” diante do meu pranto;
há anos minha voz sustenta o que desaba.
Preciso que você se sente aqui no canto
e escute minha frase, que nunca acaba.
Nunca chame de pequeno. Não!
O medo me invade por dentro.
Há momentos em que ninguém vai entender.
Na hora que todas as portas se fecharem
e nem os adultos conseguem mais sair.
Exatamente aí, que entra a compreensão.
Se eu te mostrar a casa inteira,
o quarto interditado, as marcas que escondi
Mesmo assim, você consegue ficar ao meu lado?
sem me questionar, sem me fazer fugir?
Fica comigo quando a minha voz falhar,
quando eu perder o rumo das coisas que sinto.
Põe tua mão onde eu ainda possa alcançar;
me ajuda poder abrir, as portas deste labirinto.
Diz que está aqui, que permanece ao meu lado,
mesmo se a noite atravessar nossa manhã.
Quero caber no teu abraço, ninho feito de lã,
quero sentir a tua voz, me lembra do passado.
Não ponha sobre a minha dor mais uma despedida;
já fiz da própria pele uma eterna confissão.
Se a lágrima insistir, escuta e enxuga
teu corpo junto ao meu, devolve meu chão.
êi, êia áhhhh e se tudo mudar...
Quando for você que não encontrar saída,
eu deixo o mundo lá fora, e vou viver tua vida
nenhuma dor precisa se explicar, pra te dar guarida.
Fica comigo quando a minha voz falhar,
quando eu perder o rumo das coisas que sinto.
Põe tua mão onde eu ainda posso alcançar;
me ajuda poder abrir, as portas deste labirinto.
Diz que está aqui, que permanece ao meu lado,
mesmo se a noite atravessar nossa manhã.
Quero caber no teu abraço, ninho feito de lã,
quero sentir a tua voz, esquece o passado.
Não diga “pare de chorar”.
Diga meu nome.
Fique ao meu lado…
até eu poder me escutar.
VÍDEO-BÔNUS
@obra depositada AMAR/SOMBRÁS
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