Editoria-Geral, da Plataforma Nacional do Facetubes
Shakespeare atravessou séculos, oceanos e idiomas. Agora, desembarca em São Luís falando a língua poética do Nordeste. Nesta quarta-feira, 19, chega pela primeira vez à capital maranhense o espetáculo “Romeu e Julieta, cordel de Ariano Suassuna”, solo escrito, dirigido e interpretado por Aramis Trindade. A montagem terá apresentações gratuitas nos dias 19 e 20, além de sessão destinada a estudantes e professores da rede pública e oficina de produção teatral no dia 21.
A força do trabalho está justamente no encontro improvável que Ariano transformava em natural: o clássico universal e a tradição popular nordestina. A tragédia dos amantes de Verona é recriada em 98 sextilhas, incorporando a métrica, a oralidade e a musicalidade do cordel. O espetáculo foi concebido por Aramis a partir de uma experiência artística iniciada com Suassuna ainda em 1997 e recebeu a supervisão do próprio escritor durante sua criação. Em cena desde 2012, aproxima-se das 200 apresentações realizadas pelo país.
A montagem vai além da simples adaptação de Shakespeare. Depois da narrativa, Aramis incorpora a figura de Ariano numa espécie de aula-espetáculo, discutindo cultura popular, cultura erudita e os princípios do Movimento Armorial. A trilha sonora original, composta por Zé da Flauta, inspira-se nessa estética, enquanto a concepção visual e cenográfica é assinada por Manuel Dantas Suassuna, filho do escritor. O resultado transforma palco, poesia oral, música e memória cultural numa mesma experiência.
A chegada do espetáculo ao Maranhão ganha significado adicional porque antecede o centenário de nascimento de Ariano Suassuna, em 2027. Mais do que homenagear um dos principais dramaturgos brasileiros, a montagem reafirma uma tese que atravessou sua obra: uma criação profundamente vinculada ao Nordeste pode alcançar dimensão universal sem abandonar sua origem. Em São Luís, cidade de forte tradição oral, literária e popular, Shakespeare encontra o cordel não como curiosidade folclórica, mas como outra possibilidade de permanência do clássico.
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