Pesquisadora? Profissão CORAGEM!
Renata Barcellos (BarcellArtes)
Existem diversas pesquisadoras corajosas ao longo da história que arriscaram a própria saúde, segurança ou reputação para expandir o conhecimento humano. As mulheres cientistas sempre foram resilientes e, além de estudarem e criarem invenções impressionantes, ainda precisam lutar diariamente contra o machismo. As dificuldades não impediram que elas continuassem lutando para produzir conhecimentos e apoiar outras mulheres a fazerem o mesmo. Portanto, são destemidas pela luta e trabalho árduo em prol das diferentes áreas da ciência. A seguir, três exemplos emblemáticos de cientistas que demonstraram extrema coragem em suas descobertas:
Hipátia de Alexandria (360–415 d.C.)
De todas as cientistas das ciências exatas, pode-se dizer que Hipátia de Alexandria é a matemática mais antiga do mundo. Seu local de nascimento é datado por volta de 351 e 370 d.C, em Alexandria, no Egito. Ela era tão extraordinária que teve sua vida dedicada à Filosofia, Matemática e Astronomia. Isso a levou a ser professora na Academia de Alexandria. Apesar de ter feito grandes estudos, como o mapeamento dos astros e suas movimentações, a sua obra foi perdida. E o pior foi torturada e assassinada por extremistas religiosos que viam seus estudos como ameaças.
Mary Shelley (1797 - 1851)
Com apenas 18 anos, desafiou as convenções literárias de sua época ao escrever uma história sombria de horror e ficção científica, competindo de igual para igual com grandes nomes masculinos do Romantismo.
Mary Anning (1799 – 1847)
Foi uma das maiores pioneiras da paleontologia do século XIX, mundialmente reconhecida como uma das mais corajosas e obstinadas caçadoras de fósseis da história. Vivendo em Lyme Regis, na Inglaterra, ela desafiava diariamente os perigos de desmoronamentos nas falésias instáveis da região para desenterrar criaturas que mudaram a forma como a humanidade compreendia a história da Terra. Apesar de enfrentar a pobreza Extrema e a exclusão da comunidade científica por ser mulher, seu trabalho autodidata revolucionou a ciência. Foi uma das primeiras a identificar que certas pedras estranhas eram, na verdade, fezes fossilizadas (coprólitos), o que permitiu desvendar a cadeia alimentar dos animais do passado. Por ser mulher em uma época dominada por homens e pertencer a uma classe social desfavorecida, Mary Anning não podia fazer parte da Sociedade Geológica de Londres. Cientistas e pesquisadores ricos compravam suas descobertas e publicavam artigos científicos sobre elas sem sequer citar o nome de Mary. Hoje, instituições como o Natural History Museum de Londres celebram seu legado histórico e sua inestimável contribuição para o avanço das teorias evolutivas e geológicas.
Lise Meitner (1878–1968)
Física austríaca que ajudou a descobrir a fissão nuclear. Na Alemanha, na década de 1930, Meitner liderou as pesquisas que resultaram na divisão do núcleo do átomo de Urânio. Sendo judia, ela teve que fugir às pressas do regime nazista para salvar sua vida. Mesmo no exílio, continuou orientando seu parceiro de laboratório, Otto Hahn, por cartas, fornecendo a explicação teórica exata para a fissão. Este publicou a descoberta omitindo o nome de Meitner. O obscurantismo político e o preconceito de gênero fizeram com que apenas Otto Hahn recebesse o Prêmio Nobel de Química, em 1944.
Nettie Stevens (1861–1912)
Bióloga e geneticista norte-americana. No início do século XX, Stevens descobriu que o sexo biológico dos seres vivos é determinado por uma combinação de cromossomos, identificando os cromossomos X e Y. Na época, a ciência se recusava a aceitar que uma mulher pudesse desvendar um mistério biológico tão profundo. Seus créditos foram sistematicamente transferidos para o influente biólogo Thomas Hunt Morgan, seu orientador, perpetuando a ideia de que a descoberta pertencia ao ecossistema masculino da instituição.
Chien-Shiung Wu (1912–1997)
Física experimental chinesa, conhecida como a "Primeira Dama da Física". Mudou-se para os Estados Unidos e conduziu o complexo "Experimento de Wu" em 1956. Ela provou empiricamente que a Lei da Conservação da Paridade falhava no nível subatômico, derrubando um dogma que a física considerava inabalável. Embora o seu experimento tenha sido a engrenagem transformadora da física quântica, o Prêmio Nobel de Física de 1957 foi entregue exclusivamente aos seus colegas teóricos homens (Tsung-Dao Lee e Chen-Ning Yang). Estes apenas propuseram a ideia teórica de que a paridade poderia falhar.
Carolina Maria de Jesus (1914 - 1977)
Moradora da favela do Canindé em São Paulo, trabalhava como catadora de papel e escrevia em cadernos resgatados do lixo. Ela ousou documentar a realidade nua e crua da periferia em uma época em que essas vozes eram completamente silenciadas. Em sua obra Quarto de Despejo (1960) revelou ao mundo a "radiografia da fome". Descobriu e provou que a miséria não anula a sensibilidade poética e que a literatura das margens é uma das ferramentas políticas mais potentes para expor a desigualdade social.
Rosalind Franklin (1920 – 1958)
A cientista foi pioneira em pesquisas de biologia molecular e a responsável por ter descoberto a estrutura molecular do DNA. Foi ela quem conduziu o estudo que observou o formato helicoidal do DNA. Dessa forma, ganhou Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina junto de outros dois bioquímicos em 1962. Apesar de sofrer com o machismo de seus colegas, Rosalind é o grande nome que descobriu a dupla hélice do DNA.
No Brasil, historiadoras enfrentaram a ditadura militar e o racismo estrutural para reescrever o passado do país:
Maria Beatriz Nascimento (1942–1995): historiadora sergipana que redefiniu o conceito de "Quilombo". Ela descobriu e provou que os quilombos não eram apenas locais de fuga de escravizados no passado, mas sim sistemas complexos de resistência, cultura e continuidade da identidade negra que permanecem vivos nas favelas e comunidades atuais. Sua coragem intelectual a tornou uma das maiores vozes do feminismo negro e da história da diáspora africana.
Maria Odila Leite da Silva Dias: revolucionou a historiografia colonial com a obra A Interiorização da Metrópole. Ela provou como o cotidiano das mulheres pobres e das escravizadas sustentava a economia de subsistência no Brasil Colônia, algo totalmente ignorado pelos historiadores homens da época.
Lilia Moritz Schwarcz: uma das principais pesquisadoras atuais sobre a antropologia da violência, raça e autoritarismo no Brasil. Com obras corajosas como As Barbas do Imperador, ela desconstrói mitos sobre a "democracia racial" e expõe as raízes da desigualdade brasileira.
O mais recente caso de obscurantismo foi contra uma das principais pesquisadoras atuais sobre a escravidão e o cotidiano colonial com foco na complexidade social, na vida privada e na diversidade das relações, distanciando-se de visões simplistas: Mary del Priore. Isso por reexaminar a formação do povo brasileiro fora de visões identitárias rígidas no livro Histórias das Mestiçagens no Brasil, organizado por ela e por Gian Melo. A obra trata a mestiçagem como um fenômeno histórico, político e cultural. Os autores explicam que a mistura de povos no Brasil teve violência e imposição de poder. Por causa dessas constatações a partir de pesquisa, a historiadora passou a ser alvo de xingamentos e ameaças de violência física. Chegou a tal ponto que ela teve de ser escoltada por seguranças na sessão de autógrafos na Bienal do Livro de São Paulo. Segundo a historiadora, “Talvez seja essa a coragem de que meu confrade falava. Não a coragem de escrever sobre mestiçagem, pois historiadores não deveriam precisar de coragem para estudar um fato histórico. A coragem necessária hoje parece ser outra e muito mais elementar: defender o direito de pesquisar, discordar, argumentar e conhecer o passado sem medo. Quando historiadores precisam de proteção para lançar um livro e um estudante precisa de proteção para expressar uma ideia, não são apenas eles que estão ameaçados. É a própria História que começa a sangrar”.
Depois de uma breve referência há algumas pesquisadoras nas diversas áreas do conhecimento serem perseguidas por suas descobertas, excluídas por serem mulheres, em 2026, infelizmente, estamos vivendo o cancelamento, a tentativa de silenciamento, sobretudo com relação à mulher. Ainda, na contemporaneidade, é inadmissível precisar ter CORAGEM para expor as descobertas. O último caso foi o da Mary del Priore, trata-se de uma historiadora com longa trajetória em pesquisas. Recebeu mais de 20 prêmios nacionais e internacionais ao longo de sua carreira como Prêmio Jabuti, Prêmio Casa Grande & Senzala: Outorgado pela Fundação Joaquim Nabuco, que ela venceu duas vezes. Prêmio Fundação Biblioteca Nacional...
O mais estarrecedor é constatar o silêncio de universidades e de historiadores diante dos ataques e o controle ideológico na pesquisa histórica. Eu mesma enviei mensagem a historiadores para comentarem o fato. NINGUÉM me respondeu. Apenas um, em um grupo de pesquisa do qual faço parte declarou ter comentado nas turmas o assunto assim como eu o fiz em todas as minhas assim que li sobre o absurdo. Não podemos nos calar!!! É preciso se posicionar!!! Pesquisas são FATOS e não OPINIÕES. Abaixo o cancelamento, o silenciamento!!! Pesquisadoras, continuem resilientes!!! Somos CORAGEM!!!
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