Editoria de Literatura, arte e Música da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln
"O resultado não é uma versificação da teoria. É uma escrita que trabalha justamente onde a teoria encontra seus limites".
Começando 'do começo': a relação entre psicanálise e literatura nasceu praticamente junto com a própria psicanálise. Sigmund Freud percebeu cedo que escritores e poetas haviam chegado, pela criação, a regiões da experiência humana que o discurso científico ainda tentava nomear.
Em "Escritores Criativos e Devaneios" (Der Dichter und das Phantasieren, de 1908, ele relacionou fantasia, desejo e criação literária. Décadas depois, Jacques Lacan avançou nessa aproximação ao sustentar que o artista não deveria ser reduzido a objeto de diagnóstico.
Em sua leitura de Marguerite Duras, chegou a reconhecer que o escritor pode antecipar, pela obra, aquilo que a psicanálise tenta formular conceitualmente. Estudos posteriores preservaram essa direção: literatura e psicanálise não mantêm uma relação de ilustração, e sim de atravessamento recíproco.
Esse encontro produziu algumas das experiências decisivas da arte moderna. O surrealismo de André Breton apropriou-se das ideias freudianas sobre sonho, associação, desejo e inconsciente para desenvolver procedimentos como a escrita automática. O Manifesto do Surrealismo, publicado em 1924, tornou essa influência explícita e ajudou a projetá-la sobre literatura, pintura, fotografia e cinema. O Museu de Arte Moderna de Nova York registra justamente essa origem psicanalítica do movimento e sua tentativa de alcançar mecanismos involuntários da mente.
No Brasil, um ponto de comparação particularmente fértil encontra-se em Manoel de Barros. Pesquisas acadêmicas já aproximaram sua poesia dos conceitos de Freud e Lacan, especialmente a incompletude, o vazio, o desejo e o objeto a. Livro sobre Nada, publicado originalmente em 1996, oferece um exemplo preciso: o poeta trabalha com aquilo que sobra, aquilo que perdeu utilidade, aquilo que aparentemente não merece o centro da linguagem. Estudos dedicados especificamente ao livro identificam nessa operação um campo de diálogo entre inconsciente, linguagem e criação.
No exterior, Marguerite Duras ocupa posição ainda mais diretamente ligada ao pensamento lacaniano. Em 1965, Lacan dedicou um texto a Le Ravissement de Lol V. Stein, romance publicado no ano anterior. Sua leitura não consistiu em diagnosticar a autora ou a personagem. Ele identificou na escrita de Duras uma elaboração literária capaz de tocar questões como desejo, olhar, ausência, gozo e objeto a.
Em formulação que se tornou referência nesse debate, Lacan reconheceu em Duras um saber produzido pela própria literatura, independente da teoria psicanalítica. É nesse território que se situa Psicanálise e artifício poético, sexto livro de Tereza Braúna Moreira Lima, escritora maranhense e estudiosa da psicanálise há cerca de três décadas.
Seu projeto se torna relevante quando evita transformar o poema em glossário lacaniano. Tereza não escreve versos para explicar Lacan. Ela desloca para a linguagem poética algumas questões centrais da experiência analítica.
“Observem: na linguagem de Tereza, o inconsciente surge na quebra; o desejo, na falta; o gozo, no corpo; a letra, no limite da palavra; a morte, como presença capaz de reorganizar a vida. Esse procedimento dá unidade ao livro e revela domínio do campo conceitual sem submeter a poesia à terminologia clínica.” — Disse o jornalista Mhario Lincoln ao sugerir esta resenha.
Um dos momentos mais precisos aparece em “Objeto a”:
“A palavra não deu conta
Fica a sobra extraviada
Enlaçada pela letra
Litoral de boca e fala”
Aqui está um núcleo propriamente lacaniano. A palavra não deu conta introduz a insuficiência estrutural da linguagem: existe algo que não consegue ser inteiramente simbolizado.
A sobra extraviada aproxima-se, numa leitura possível, da lógica do objeto a, não como objeto concreto, e sim como resto produzido pela própria constituição do sujeito e causa do desejo.
A expressão litoral de boca e fala ganha peso particular. Lacan emprega precisamente a imagem do litoral para pensar a letra como borda entre saber e gozo, dois campos que não se deixam fundir. Estudos sobre esse texto retomam a letra como aquilo que desenha a borda de um furo no saber.
O poema “Gozo” segue por outro caminho corporal:
“No bojo de tudo há o verme
Que antecipa a putrefação
Na crosta encarnada há o verbo
Que prevê a ressurreição”
O contraste entre “verme” e “verbo” é mais do que recurso sonoro. O corpo aparece submetido à decomposição e, simultaneamente, a palavra surge como possibilidade de permanência e recomposição. Há aqui uma tensão filosófica antiga entre finitude e continuidade, matéria e sentido. A poesia não resolve essa oposição. Ela a mantém aberta. Quando Tereza escreve que “o fruto da vida / se atira ao gozo descabido” e que “um arrepio cortante / invade as vísceras”, desloca o gozo do plano abstrato para o corpo. Em Lacan, gozo não corresponde simplesmente a prazer. Pode comportar excesso, tensão, sofrimento e ultrapassagem da medida reguladora do prazer. O adjetivo “descabido” e a invasão das vísceras captam literariamente essa condição.
Em “Lapso”, outro movimento se destaca:
“Na poda
Fica a fenda fértil
Resta o húmus”
A força está na inversão: a retirada produz fertilidade. A “fenda” não aparece como defeito a ser reparado. Ela passa a constituir a própria condição da criação. O verso “rompendo as amarras do desejo / revelando a mudez do insabido” aproxima o poema da concepção do inconsciente como algo que não está simplesmente escondido à espera de tradução integral. O “insabido” não se converte totalmente em conhecimento. Ele deixa marcas, lapsos, deslocamentos, condensações. A palavra poética trabalha nessas marcas.
Em “Instante de ver”, Tereza escreve:
“À cata da síntese
Gotas de afeto
Escorrem em grota profunda”
Há nessa passagem uma pequena teoria da própria criação. O sujeito procura “síntese” e encontra profundidade. A razão deseja reunir; o afeto escorre. A imagem da “grota” introduz profundidade, fenda e interioridade sem transformar o poema numa descrição psicológica. Mais adiante, “No bojo da manhã / Reflito a vida / Que se estende no beiral do tempo” coloca a existência na borda. “Beiral” significa limite, projeção, lugar onde alguma coisa termina e outra começa. Filosoficamente, o verso estabelece uma relação com a consciência da finitude: pensar a vida já significa pensá-la a partir do tempo.
“Invenção” reúne talvez a formulação mais clara do projeto autoral:
“Diante do imponderável
Quero momentos para criar
E parir pedaços de mim”
Criação aparece como parto e fragmentação. Não nasce um “eu” total. Nascem “pedaços”. Essa escolha verbal interessa à psicanálise porque desfaz a imagem de um sujeito inteiramente senhor de si. O sujeito lacaniano é dividido, atravessado pela linguagem e pelo desejo. O poema prossegue: “A fantasia despe sua veste de gala / As novidades envelhecem”. A fantasia perde o ornamento e a novidade sofre a ação do tempo. Ao final, quando a poeta escreve “Ante a morte, meu testamento refaz seu percurso / E em nova edição escolho a serenidade”, a criação assume função de reelaboração. Não apaga a morte. Reescreve a posição do sujeito diante dela.
O mérito central de Tereza Braúna Moreira Lima está exatamente aí. Seus melhores versos não explicam conceitos: fazem os conceitos acontecerem na linguagem. “A palavra não deu conta”, “fica a fenda fértil”, “parir pedaços de mim”, “o gozo descabido”, “a mudez do insabido” possuem autonomia poética e, simultaneamente, permitem uma leitura psicanalítica consistente.
Há elaboração verbal, consciência do corte, economia de palavras e atenção ao resto. O trabalho alcança maior força quando a autora abandona qualquer necessidade de demonstrar previamente o conceito e confia na imagem. Nesses momentos, a poesia deixa de acompanhar a psicanálise e passa a ocupar o lugar que Lacan reconhecia na arte: o de chegar primeiro a determinadas experiências que a teoria, depois, procura circunscrever.
Psicanálise e artifício poético propõe, assim, um encontro entre dois trabalhos distintos sobre a palavra. A psicanálise escuta aquilo que falha no dizer. A poesia produz sentido também a partir dessa falha. Tereza Braúna escreve exatamente nessa região intermediária. E surpreende pela beleza lírica!
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Fontes consultadas: Jacques Lacan, Hommage fait à Marguerite Duras, du ravissement de Lol V. Stein e Lituraterre; artigos da revista Ágora — Estudos em Teoria Psicanalítica sobre Lacan e Marguerite Duras; Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, estudo sobre a letra como litoral; Tiago Antonio Sampaio, “Poesia e Psicanálise: um possível diálogo entre Manoel de Barros, Freud e Lacan”, Psicanálise & Barroco em Revista; estudo “Articulações entre psicanálise e literatura a partir da obra Livro sobre nada de Manoel de Barros”; Museu de Arte Moderna de Nova York — documentação histórica sobre Surrealismo, André Breton e Freud; Poetry Foundation — biografia de André Breton; nota biográfica e poemas de Tereza Braúna Moreira Lima presentes em Psicanálise e artifício poético.
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