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Pela primeira vez, 1.800 poemas de Emily Dickinson são traduzidos no Brasil. A autora norte-americana, uma mulher solitária, publicou apenas dez poemas em vida, mas foi alçada postumamente a uma das principais vozes da literatura mundial. Após sua morte, a irmã descobriu um verdadeiro tesouro, na cômoda do quarto onde dormia. Muitos poemas escritos ao longo de 30 anos.
(Ilustração: Baptistão)
Pense na “Ilíada” e na “Odisseia”, de Homero, e na “Eneida”, de Virgílio. Pensou? Pois é isto e aquilo: a “Ilíada”, a “Odisseia” e a “Eneida” da poesia americana, um feito de Emily Dickinson, finalmente estão chegando ao Brasil. Um entusiástico Harold Bloom comparou a poeta a Shakespeare — seria a Shakespeare do país de Abraham Lincoln — e, claro, ao pai-fundador da grande poesia dos Estados Unidos, Walt Whitman.
Yes, nós temos um Hércules da tradução, Adalberto Müller. O professor da Universidade Federal Fluminense teve a ousadia qualificada (algumas traduções foram publicadas na revista “Cult”, explicitando sua perícia e percepção) de traduzir toda a poesia de Emily Dickinson, uma das maiores poetas americanas. Ao lado de Walt Whitman e Marianne Moore, vale uma civilização. Ela e Whitman construíram, digamos, a nova Roma poética dos Estados Unidos.
São 1.800 poemas. Durante sete anos, Adalberto Müller “comeu” e “bebeu” Emily Dickinson, munido da coragem de Heitor, Aquiles e Eneias. O primeiro volume — com 888 páginas — está chegando às livrarias, numa parceria das editoras da Unicamp e da UnB — o que revela, tanto pela tradução quanto pela edição, a excelência acadêmica do Brasil (um meio tão depreciado, nos últimos dois anos, pelo governo de Jair Bolsonaro, líder de uma direita retardatária e anti-iluminista). O livro já pode ser adquirido nos sites das livrarias Travessa e Amazon. Os editores ainda não fixaram data para o lançamento do segundo volume.
No sábado, 16, o repórter Ubiratan Brasil, do “Estadão”, publicou ótima reportagem-comentário a respeito do lançamento, sob o título de “Pela primeira vez, 1.800 poemas de Emily Dickinson são traduzidos”. O jornalista ouviu Adalberto Müller, uma ponte segura, pelas versões que li na “Cult”, para a travessia da poesia da autora que, em vida, publicou tão-somente dez poemas. Porque não quis publicar. Num poema, frisa que publicar é como leiloar a consciência. Só um bom verso, claro, porque, não publicá-la, e na íntegra, seria um desserviço à poesia, à cultura, à civilização.
Adalberto Müller disse ao “Estadão”: “É uma poesia que concilia um mergulho na linguagem com incursões filosóficas por territórios em que poucos escritores foram capazes de chegar”.
Emily Dickinson, poeta americana que viveu 55 anos entre 1830 e 1886, escreveu num poema: “A Verdade há de deslumbrar aos poucos/Os homens — p’ra não cegá-los” | Foto: Reprodução.
Ubiratan Brasil nota que a edição é apurada, com “notas explicativas e as chamadas variantes, ou seja, outras versões do mesmo poema. As margens das páginas contêm as alternativas (palavras ou expressões) que a própria Emily Dickinson anotava, como possíveis substituições a serem feitas”.
Emily Dickinson, poeta americana que viveu 55 anos entre 1830 e 1886, escreveu num poema: “A Verdade há de deslumbrar aos poucos/Os homens — p’ra não cegá-los” | Reprodução
Adalberto Müller assinala que, “apesar de haver escrito na segunda metade do século 19, Dickinson é bastante contemporânea, pelos temas de que trata (fama, anonimato, fobia social, amor lésbico, crise religiosa, preocupação ambiental). Por isso, da mesma forma que buscava a beleza, capaz de arrepiar, ela buscava a verdade dos fatos, inclusive científicos — tinha um conhecimento incomum de botânica, astronomia e geologia. Ela também escreveu sob o impacto da Guerra Civil (1861-1865) e da ‘polarização’ extremista. Seu pai e amigos eram abolicionistas, lutavam pela causa indígena e Emily conviveu com imigrantes”.
Há excelentes tradutores da poesia de Emily Dickinson no Brasil: Idelma Ribeiro de Faria, Aíla de Oliveira Gomes, José Lira (o que havia traduzido as coletâneas mais amplas até agora, antecedido, em menor escala, por Aíla de Oliveira Gomes e Augusto de Campos). A excelente biografia “The Life of Emily Dickinson” (Harvard University Press, 821 páginas), de Richard B. Sewall, está por traduzir.
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