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"O Virus e as Artes", (Parte III), de Edmilson Sanches, articulista do Facetubes.

01/02/2023 às 21h55
Por: Mhario Lincoln
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Original do texto. Sob responsabilidade do autor.

O VÍRUS E AS ARTES

Imortalidade. Perenidade. Perpetuidade. Eternidade...

A ideia de algo “sem fim” ficou para título de livro e filme, e a noção de “para sempre”, delimita-se às declarações de amizade e de amor, especialmente as das historinhas de princesas e príncipes, que se casam e vivem felizes “ad aeternum”. 

Sim; “imortal”, mesmo, nem os membros de Academias o são  --  nunca foram. E sobre isso não paira dúvida sequer nos menores seres  --  uma bactéria, um fungo... ou um vírus. Um velho vírus  -- coronavírus --  e sua nova doença: covid-19. 

 

Abaixo, e também nas colunas passadas (1º e 15 de fevereiro de 2023), veja-se o quanto a Literatura e a Arte anteciparam-se à Ciência, a ponto de, até mesmo, com anos de antecedência, detalhar até o nome ou a cidade asiática onde o vírus surgiria. Isso não é profecia ou adivinhação. É Arte. (E. Sanches)

 

LITERATURA, ARTES E PANDEMIA (III)

 

       Muito antes da nova pandemia e de seu causador, o novo coronavírus, se instalarem no corpo, na preocupação e no medo das pessoas em todo o mundo, iguais ou semelhantes doenças e seus agentes já tinham contagiado páginas e mais páginas de livros e "frames" e mais "frames" de filmes e vídeos  --  e, alguns acreditam, até letras de músicas. Remonta a tempos imemoriais os ataques dos vírus e a luta dos humanos para sobreviver a eles.

Sim, "irmãos gêmeos" ou "parentes próximos" do novo coronavírus e suas consequências, muito antes do dia 31 de dezembro de 2019 (a data “oficial” do surgimento desse mais novo vírus-rei, pois já nasceu com coroa  -- "corona", em latim), muito antes de qualquer outra data objeto de especulação, esses membros da família viral e da Microbiologia em geral já eram citados  --  explicitamente, subliminarmente e simbólica ou interpretativamente --, como praga, peste, vírus, mal, doença, desde passagens bíblicas antigas até recentes estudos de cenários e também em programas jornalísticos, em versos de profecias, em literatura de ficção e em composições musicais... 

De alguma forma, já se sabia. Eles sabiam. Os escritores, os jornalistas, alguns cientistas, os poetas, os “loucos”. Eles anteciparam. Eles sobreavisaram. Como cantaria Renato e Seus Blue Caps, banda carioca formada em 1960, “depois não diga que eu não lhe avisei”...

2012, julho – MUNDO ESTRANHO – A revista “Mundo Estranho”, da Editora Abril (São Paulo – SP), trouxe em julho de 2012 capa com o título “EPIDEMIAS – Não há como fugir”, sobre cenário de futuro vírus e sua doença. Em páginas internas, traz informações sob o título “O PRÓXIMO SURTO”, onde está escrito que “a Ásia é o ponto de partida” (a China, como se sabe, fica na Ásia). Diz também que “o contágio se dá antes mesmo de o enfermo apresentar sintomas”. Também antecipa que a China “não considera o surto alarmante”, “a China não informa a OMS [Organização Mundial da Saúde], para não demonstrar fragilidade”. Prevê ainda a revista paulista que, “mesmo com o vírus isolado, as vacinas demoram para serem feitas em larga escala, tornando impossível o atendimento à demanda mundial” e ainda: “Enquanto hospitais e cemitérios estão lotados, escolas, indústrias e comércio ficam paralisados”. Há outras informações coincidentes, todas escritas e publicadas mais de SETE ANOS antes do surgimento da doença! (A “Mundo Estranho”, que começou em agosto de 2001, deixou de circular em agosto de 2018).

2013/2014 – REALIDADE - Nascida em 1977, em Palmital (SP), a escritora Melissa Tobias não imaginaria que um de seus quatro livros, "A Realidade de Madhu" (Editora Novo Século), escrito em 2013 e publicado em 2016, estaria, quatro anos depois, chamando a atenção de pessoas e da mídia. A obra, de ficção científica, registra na página 183 que uma pandemia originada de vírus ocorreu em 2020, causando a morte de três bilhões de pessoas. Melissa Tobias nem se lembrava mais do que havia escrito e só retomou a ciência do seu texto ou, mais especificamente, desse trecho, quando internautas e usuários das redes sociais trataram de enviar à autora fotos da página do livro, além dos inúmeros comentários. Realista, Melissa vai logo avisando: “Não sou médium nem vidente, não vejo espíritos e não falo com ETs, infelizmente. Adoraria, inclusive”.

2015 – GATES – O bilionário, empresário e escritor norte-americano William (Bill) Henry Gates III (1955), fundador da Microsoft, fez uma palestra há oito anos, em 2015, cujas palavras têm acertos a partir do título: a palestra chamava-se "O Próximo Surto? Não Estamos Preparados". Bill Gates começou lembrando: "Quando eu era criança, o desastre que mais temíamos era uma guerra nuclear. Hoje, o maior risco de catástrofe global não se parece com uma bomba, mas sim com um vírus.” E reafirmou: “Atualmente, o maior risco de uma catástrofe global está em um vírus altamente infeccioso, não uma guerra. Se algo matar 10 milhões de pessoas nas próximas décadas, serão micróbios e não mísseis". E a crítica: “Investimos muito em armas nucleares mas bem pouco em um sistema para barrar uma epidemia. Não estamos preparados". Vídeos com essa palestra, inclusive com legendas em português, estão espalhados pela Internet, no YouTube principalmente. Paira sobre Bill Gates a dúvida, a crítica e mesmo a acusação de que ele é um dos beneficiários dessa gigantesca crise sanitária, pois participaria, com gorda parte, dos lucros exorbitantes, dir-se-ia imorais, que a indústria farmacêutica e hospitalar tem e ainda mantém em relação às vacinas, equipamentos etc.

2015 – ITÁLIA – Em novembro de 2015, o canal de TV italiano RAI-3 exibe programa onde, logo nas primeiras informações, afirma: “Cientistas chineses criam um supervírus pulmonar de morcegos e ratos. Serve apenas para estudos, mas os protestos são muitos: Vale a pena arriscar?”. 

Mais adiante o apresentador diz: “Pesquisadores chineses fundiram uma proteína retirada de morcegos ao vírus da SARS (pneumonia aguda) retirado de ratos, resultando em um supervírus que pode infectar o ser humano. Está dentro do laboratório, óbvio, serve apenas para estudos, mas vale a pena correr riscos de criar uma ameaça tão grande apenas para examiná-la?” 

Após, o apresentador chama o repórter, com imagens do Instituto de Virologia de Wuhan, na China. O repórter reforça que é “um coronavírus modificado através da fusão de uma proteína do coronavírus de morcegos, de uma espécie bastante comum, a um vírus da SARS que causa pneumonia aguda em ratos”. Continuando, o repórter acrescenta: “Esperava-se um híbrido que pudesse infectar o homem, e o experimento foi confirmado. Essa molécula, SHCO14, que permite o coronavírus unir-se às nossas células respiratórias, causando a síndrome”. 

O repórter historia: “Há um ano, o governo americano suspendeu financiamentos a pesquisas sobre como tornar os vírus mais contagiosos, mas isso não parou os chineses de estudar o SARS, que se pensava não ser perigoso. Alguns cientistas acham que não seja” e que as "'probabilidades de que o vírus passe para nossa espécie [humana] são irrelevantes’, uma tese que muitos outros cientistas reprovam, primeiro porque a relação entre riscos e benefícios é complicada e também porque talvez seja mais prudente não liberar organismos que possam sair de controle”. 

A RAI-3 é canal pertencente ao Governo da Itália e dedica-se à informação de qualidade e não ao entretenimento. RAI é sigla para Radio Audizioni Italia, mudado para Radiotelevisione Italiana, empresa de televisão e rádio estatal italiana criada em 1954 (o canal RAI-3 é de 1979). São pelo menos seis canais: RAI-1, 2, 3, 4, 5 e RAI News24. Replicando esclarecimentos da famosa revista científica britânica "Nature", fundada em 1869 e uma das mais citadas do mundo, e entrevistando cientista brasileiro, o jornal carioca "O Globo" informou que os estudos laboratoriais chineses sobre o coronavírus de 2015, mostrados pela RAI-3, não têm nada a ver com o novo coronavírus de dezembro de 2019, e alertou para associações indevidas.

2016 – FEBRE – Em 2016 o escritor Deon Godfrey Meyer, da África do Sul, escreveu "Fever" (“Febre”), romance onde pai e filho tentam sobreviver no planeta assolado por uma pandemia de coronavírus. “A trama se baseia em um coronavírus animal que é transmitido ao homem e se propaga por todo o planeta a uma velocidade incomparável, que leva ao fechamento das fronteiras e instala o medo permanente ao próximo, que pode ser um vetor para a enfermidade”, resume a agência de notícias AFP, em reportagem de 20/04/2020. No livro, o mundo está quase vazio de gente. 

AFP é Agence France-Presse, a quase bicentenária agência de notícias da França, criada em 1835. Sobre o livro "Fever", diz ainda a AFP: “A atual pandemia do coronavírus transformou o romance do escritor sul-africano em um livro que antecipa de forma inquietante o momento atual”. Por sua vez, o escritor, sensível, lamenta: “Isso não me deixa satisfeito. Não posso deixar de pensar na tristeza desses milhares de pessoas que perderam seus familiares ou o emprego, e vivem com medo". 

2018 – SÉRIE – Em setembro de 2018 a MBC, televisão da Coréia do Sul, no ar desde 1969, lançou a série "My Secret Terrius" (Netflix). No episódio nº 10 da primeira temporada, personagens falam de como um coronavírus foi modificado por terroristas, que queriam, claro, usar o resultado do trabalho como arma biológica. A partir do minuto 53 desse episódio  -- descreve um internauta a partir da legenda em francês --,  um marido recomenda à esposa para ficar em casa (“Não saia! Fique em casa!”). Depois, duas mulheres fazem menções a “coronavírus mutante”, “MERS” [coronavírus da síndrome respiratória do Oriente Médio], “SARS”, “o coronavírus ataca as vias respiratórias”, “alguém modificou para aumentar a taxa de mortalidade, de 20% para 90%”, “período de incubação de dois a 14 dias”, “vírus modificado para atacar diretamente os pulmões”. 

No minuto 57, aparece uma autoridade sul-coreana dando palestra em escola e orientando as crianças sobre como fazer a prevenção, lavar as mãos, “limpar entre os dedos”, “esfregar bem as mãos”. 

O jornal "Metro", fundado em 2007, do Grupo da TV Bandeirantes (Band), publicou em 07/04/2020 matéria sobre essa previsão da pandemia pela série. 

OUTROS – Há um livro didático brasileiro, de Ciências, que também trata do vírus corona, mas, é claro, nada a ver com o novo espécime dessa família, que pode levar à doença covid-19. 

Sobre pandemias e vírus, contágios e medos, o mundo do cinema produziu muitos filmes. Conheço dois diferentes com o nome "Quarentena". Há o "Epidemia", com o aclamado ator Dustin Hoffman, lançado em 1995, nos Estados Unidos. Há ainda os muitos filmes e séries que trazem os zumbis, geralmente humanos que foram transformados em vivos-mortos por vírus ou outros agentes microscópicos. 

Até os 4 minutos e 25 segundos da música “O dia em que a terra parou”, composta e gravada pelo baiano Raul Seixas em álbum do mesmo nome de 1977, entrou na lista de peças “proféticas”. Eis o que previu e pré-escreveu Raul: “No dia em que todas as pessoas / Do planeta inteiro / Resolveram que ninguém ia sair de casa / Como que se fosse combinado em todo o planeta / Naquele dia, ninguém saiu de casa. / O empregado não saiu pro seu trabalho / Pois sabia que o patrão também não 'tava lá / Dona de casa não saiu pra comprar pão / Pois sabia que o padeiro também não 'tava lá /  O guarda não saiu para prender / Pois sabia que o ladrão, também não 'tava lá / E o ladrão não saiu para roubar / Pois sabia que não ia ter onde gastar."

A diferença, já que não se pode prever tudo, é que, diferentemente do que está em alguns versos da letra raul-seixiana, podia-se comprar pão, os ladrões não se deram férias e o guarda, sim, saiu para prender... sobretudo inocentes cansados do isolamento social que resolveram esticar as pernas por praias e praças, passeando quando as regras draconianas não permitiam.

Enfim, seja na ficção ou na projeção de cenários possíveis, e desculpadas as questões científicas sobre o agente causador (vírus, bactérias, protozoários, algas, fungos...);...

...sejam escritos pela vidência dos séculos, sejam descritos pela Ciência e vigência do agora, os seres ou elementos ou agentes microscópicos e/ou microbiológicos têm seu potencial  --  vê-se e sente-se mais nos dias atuais --  de adoecer, limitar, inutilizar e matar o ser humano e, em cenário limite, até provocar a extinção da espécie humana.

Assim, um olhar humano, sensível e, é claro, crítico sobre o que escreveram, fizeram, anteciparam pode, no mínimo, revelar algum grau de preocupação, de cuidado(s), de temor; pode quem sabe antecipar, dependendo do quanto seja levado a sério, do quanto os cientistas, as autoridades, tenham olhos de ver, mente de racionalizar e coração de sentir.

Desconsiderar, "in limine", o que todas essas e outras mentes artísticas ou científicas produziram é o que não parece recomendável. Tanto porque, aquilo que é feito pelo ser humano, deve(ria) interessar ao ser humano  --  ou, nas palavras de Públio Terêncio, escritor do segundo século antes de Cristo: “Sou humano: não julgo alheio a mim nada do que é humano”. (*)

E o que é humano é da Humanidade. E é humano o pensar, o imaginar, o predizer, o prever, o prevenir. A marca da Ciência é a busca de quase tudo, não a resposta para tudo  --  ela não a tem... 

Talvez, lá na essencialidade, não haja novidade na história humana. Talvez tudo sejam formas novas de repetirem-se as ancestralidades. Então, vale considerar os desatinos dos tempos  --  vidências, profecias, vaticínios, previsões. Talvez tudo seja cíclico. 

Biblicamente, o Eclesiastes (1:9) pondera e afirma: “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.” (**)

Finalmente, pedir, como Goethe à beira da morte, em suas últimas palavras: “Luz! Mais luz!”

Seja nos muitos delírios pela vida, seja no último suspiro "ante mortem", nossos artistas, poetas, loucos, têm algo em comum:

Eles sabiam... (EDMILSON SANCHES)

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 (*) Em latim: “Homo sum, humano nihil a me alienum puto”.

(**) Em latim: “Nihil sub sole novum”.

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