DR. RUY PALHANO
Na maior parte do tempo, a existência humana transcorre sob o domínio da rotina, dos compromissos, das obrigações, dos papéis sociais e das urgências cotidianas. O homem trabalha, resolve problemas, cumpre horários e atravessa os dias sem se perguntar profundamente sobre o sentido de suas ações. Embora necessária para organizar a vida e oferecer estabilidade, a rotina pode amortecer o espanto de existir, reduzir a vida ao simples funcionamento e afastar o sujeito do significado íntimo de sua própria caminhada.
Determinados acontecimentos, porém, interrompem esse automatismo e colocam o homem diante de si mesmo. A morte de alguém amado, o nascimento de um filho, uma enfermidade grave, uma perda inesperada, uma injustiça, uma paixão, a culpa, a solidão ou o renascimento da esperança podem romper a superfície da vida comum. Nesses momentos, o mundo deixa de ser apenas cenário e transforma-se em pergunta. A existência já não é somente uma sucessão de dias, mas uma revelação que atravessa, modifica e interroga profundamente o sujeito.
A morte revela a fragilidade dos vínculos, a brevidade do tempo e a impossibilidade de controlar inteiramente a vida. Diante dela, o homem percebe a inutilidade de muitas disputas, vaidades e omissões, compreendendo a urgência de amar enquanto há presença. O nascimento, por sua vez, manifesta a continuidade da vida, retira o sujeito de seu fechamento individual e o coloca diante da responsabilidade pelo futuro e pelo mundo que será entregue às próximas gerações.
A enfermidade também possui uma força reveladora. Quando a saúde é abalada, o corpo deixa de ser uma presença silenciosa e desfaz a ilusão de autossuficiência. O homem percebe que depende de cuidados, que habita uma realidade material sensível e finita e que está exposto à limitação, ao desgaste e ao sofrimento. A doença pode levá-lo a rever prioridades, reconsiderar afetos e reconhecer que muitas coisas julgadas indispensáveis eram apenas secundárias.
A perda, em suas diversas formas, desorganiza a narrativa que o sujeito construiu sobre si. Pode-se perder uma pessoa, um emprego, uma posição social, uma casa, uma oportunidade, a juventude, uma expectativa ou uma imagem idealizada da própria identidade. Aquilo que se perde não era apenas algo exterior, mas parte da sustentação emocional e simbólica da pessoa. Perder significa, portanto, reconstruir o próprio modo de existir sem aquilo que antes oferecia segurança, reconhecimento e sentido.
A injustiça revela a dimensão ética da existência, pois ser humilhado, discriminado ou desconsiderado representa uma agressão à dignidade humana. A paixão, por sua vez, rompe a monotonia afetiva, desperta desejos, esperanças e medos e pode abrir o sujeito para o amor, para o encontro e para a vitalidade. Contudo, também pode conduzi-lo à idealização, à dependência e à perda de discernimento. Ambas revelam que o homem necessita de reconhecimento, vínculo, cuidado e significado.
A culpa demonstra que o ser humano não é apenas um organismo biológico, mas também um ser moral. Pode tornar-se destrutiva quando se converte em autopunição, mas pode ser humanizadora quando conduz à responsabilidade, à reparação e ao amadurecimento. A solidão possui ambiguidade semelhante, pois pode significar abandono e sofrimento, mas também recolhimento e escuta interior. A esperança, por sua vez, costuma surgir quando a vida foi ferida. Ela não nega a dor, mas permite imaginar continuidade e sentido, impedindo que o sofrimento tenha a última palavra.
Esses acontecimentos retiram o homem da superfície e tornam insuficientes os papéis sociais que desempenha. Podem desorganizar, traumatizar e destruir antigas estruturas, mas também podem amadurecer, despertar, reorganizar valores e aprofundar vínculos. Não se deve romantizar o sofrimento, pois muitas dores são injustas e destrutivas. Entretanto, a resposta ao acontecimento dependerá da história do sujeito, de seus recursos internos, de seus vínculos, de sua fé, de sua capacidade de atribuir sentido ao vivido e do apoio humano que encontra ao redor.
As culturas criaram rituais de nascimento, cura, luto, reconciliação e morte para oferecer linguagem e pertencimento diante das experiências que ultrapassam a capacidade individual de compreensão. A modernidade, porém, tende a transformar esses acontecimentos em procedimentos rápidos, burocráticos ou espetaculares, escondendo a morte, apressando o luto, medicalizando a dor sem escuta e disfarçando a solidão pela hiperconexão.
A questão decisiva não é apenas o que acontece ao homem, mas o que ele faz com aquilo que lhe acontece. Quando a experiência encontra palavras, símbolos e uma narrativa, pode transformar-se em compreensão e sabedoria. Viver profundamente é cultivar interioridade, gratidão, silêncio, responsabilidade e reflexão, compreendendo que a existência não nos foi dada apenas para ser administrada, mas para ser sentida, compartilhada e significada.
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