O menino brasileiro que a Coreia do Sul adotou como seu
A trajetória internacional de O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos, confirma um caso raro da literatura brasileira: um romance nascido em 1968, com a infância de Zezé como centro narrativo, atravessou idiomas, catálogos escolares, livrarias asiáticas e debates culturais. A Editora Melhoramentos informa que a obra já alcançou cerca de 3 milhões de exemplares vendidos, com publicação em mais de 30 países e traduções para línguas como coreano, chinês, japonês, turco, polonês, alemão, catalão, dinamarquês e romeno.
Na Coreia do Sul, o livro ganhou uma presença pouco comum para uma obra brasileira. O pesquisador Paul Sneed, da Seoul National University, em artigo publicado pela revista Margens, da UFPA, registra a popularidade do romance no país e o define como a obra traduzida do português mais incorporada à vida cultural coreana. A explicação passa pela força de Zezé, menino pobre, ferido cedo pela vida adulta, salvo em parte pela imaginação e pela relação afetiva com Minguinho, o pequeno pé de laranja-lima.
A afirmação de que o romance é leitura obrigatória nacional para alunos do 5º ano exige cautela. As fontes abertas consultadas indicam adoção escolar, uso em currículos de leitura e classificação frequente para estudantes do fim do ensino fundamental, especialmente 5º e 6º anos. A própria pesquisa de Sneed registra que o romance foi adotado em parte do currículo de leitura do ensino fundamental, e catálogos sul-coreanos, como o da Biblioteca Hanbat, em Daejeon, registram edições coreanas da obra e sua seleção pelo programa televisivo de incentivo à leitura da MBC.
O dado curioso é que Zezé também entrou na cultura pop coreana. Em 2015, a cantora IU lançou a música “Zezé”, inspirada no personagem, e provocou uma controvérsia pública sobre a interpretação do menino criado por José Mauro. O episódio levou o romance de volta às buscas e reacendeu discussões sobre infância, dor, abuso, imaginação e os limites da leitura artística de uma obra literária. À época, The Guardian registrou que My Sweet Orange Tree era um livro muito querido na Coreia do Sul e frequentemente estudado em escolas.
O que torna esse caso relevante para o Brasil é a permanência de um personagem brasileiro no imaginário de outro país. Zezé saiu do subúrbio do Rio de Janeiro para ocupar bibliotecas, salas de aula, livrarias e conversas culturais na Ásia. Num mercado mundial dominado por grandes centros editoriais, O Meu Pé de Laranja Lima seguiu outro caminho: venceu pela história simples de uma criança que conversa com uma árvore para suportar o peso de um mundo adulto. Esse talvez seja o segredo de sua travessia. A Coreia do Sul reconheceu em Zezé uma dor infantil sem passaporte, sem fronteira e sem tradução impossível.
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