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VICEVERSA COM WANDA CUNHA, parte 04

12/06/2023 às 07h39
Por: Mhario Lincoln
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Perguntas de Mhario Lincoln: 

(Perguntas de 04 a 06)/Última parte.

 

4  MHARIO LINCOLN - Você também é compositora e participou de festivais de música. Inclusive lançando seu primeiro CD em 2009 - "Vida de Ouro e Amor de Prata", quando você completou 50 anos de vida e 25 anos de casada. Como a literatura e a música se relacionam em sua vida criativa. Têm o mesmo insight?

 

WANDA CUNHA - Se a literatura foi uma herança de meu pai, a música de que me visto, com certeza, foi gerada no ventre de minha mãe. Plácida Jacimira. Ela gostava de cantar. Tinha uma voz suave. Quando adolescentes tínhamos uma roda de samba no nosso quarto. No fim de semana à noite, fazíamos sempre dois shows:  o primeiro era o dela: nós tocávamos, e ela cantava. No segundo momento, ela era a nossa plateia. Nosso repertório era recheado de sambas antigos, também começamos a tocar   muitos boleros movidos pela sensibilidade do repertório dela. Mas desde cedo, eles (pai e mãe) nos permitiram receber aulas de instrumentos musicais como piano, acordeão, violão.

Minha música é menos publicizada do que a minha literatura, mas ela também já me deu muitas alegrias. Ganhei, de forma consecutiva, dois Festivais do Sindicato dos Servidores do Estado do Maranhão (Sintsep); o primeiro com a música Estrelas e Fogueiras, angariando o segundo lugar. No segundo festival, conquistei o primeiro lugar com “Mistérios e Encantos”. E tantos outros, como a Mostra da Música, promovida pelo Sesc. Fui a compositora e cantora, ao lado de minha filha Tereza Cunha, do Bloco “A paz virou mania”, projeto social em parceria com a Polícia Militar de São João dos Patos, de 2014-2020, em sete edições.

Componho muitas músicas solos, mas também tenho parceiros com os quais mantenho uma relação de amizade grande, como Oberdan Oliveira, uma herança afetiva de Carlos Cunha; Paulinho Dimaré, Carol Cunha, Ana Tereza e Isabel Cunha, minha irmã falecida recentemente de covid, com a qual fiz um projeto musical em combate à violência contra a mulher. Participamos de vários shows, levantando a bandeira em favor da não violência doméstica e fizemos vários clips de nossas músicas publicados no Youtube.

Sozinha também fiz alguns shows, dentre os quais PARTES DE MIM. Músicas e interpretação de Wanda Cunha. Projeto musical aprovado e divulgado pela Conexão Cultural/Maranhão. Governo do Estado do Maranhão. Secma, por meio da Lei Aldir Blanc em 2021. As pessoas podem acessar por meio do Link: https://youtu.be/yxxIYi0BJXI 

De autoria solo, tenho muitas músicas regionais gravadas por outros artistas, como o Grupo Lamparina e o Grupo Dançata, os quais gravaram minha música “Carimbó da Colher de Pau”. George Gomes gravou “Estrelas e Fogueiras”; Carol Cunha fez um clipe da música “Cachaça com amendoim” , de autoria minha e de minha filha Tereza Cunha.  Assim, a música é minha segunda alma; a primeira é a literatura.

 

5 MHL - Arnaldo Niskier, em texto publicado nas páginas virtuais da Academia Brasileira de Letras afirma que "(...)  a finalidade da poesia é o poema, isto é, a obra poética. O poema é uma obra feita para ser fruída esteticamente. Já a finalidade da filosofia não é a obra filosófica. Esta, aliás, não é para ser fruída esteticamente. Ao contrário, a finalidade da obra filosófica é a manifestação – na vida e na obra do filósofo – de uma proposição, tese ou doutrina filosófica (...)". Com base nisso, como você enxerga a relação entre filosofia e poesia? Como esses dois campos se entrelaçam (ou não) em sua visão pessoal?

 

Wanda Cunha.

WANDA CUNHA – Esse embate entre Poesia e Filosofia vem desde a Grécia Antiga. Historicamente, antes da Filosofia, veio a Poesia. Todavia, existe na História da Filosofia a assertiva de que Platão expulsou os poetas e poesias de sua República. Mas há filósofos que trabalharam a Poética dentro de sua Filosofia, dentre os quais Heidegger, Nietzsche e Wittgenstein, Jean Paul Sartre etc. Dizem amiúde que um dos motivos para separar a Filosofia da Poesia, na Grécia Antiga, foi o fato de que os poetas eram educadores gregos, os quais declaravam, no seu discurso, uma imagem negativa dos deuses.  Esses educadores eram os sofistas, também conhecidos como falsos filósofos.

 

Sócrates, em prol da busca da verdade e do conhecimento, dizia que a ordem era romper com esses falsos filósofos. Assim, tem-se início a briga entre Filosofia e Poesia. Hegel é um dos responsáveis pela aproximação da Filosofia e da Poesia, depois de todo o cientificismo que propiciou a delongada ruptura entre ambas. Mas foi com Nietzsche o bom diálogo entre os dois discursos, razão pela qual ele é considerado o filósofo-poeta. Da mesma forma, aqui no Brasil, Carlos Drummond de Andrade e Manoel de Barros são considerados poetas-filósofos; este último poeta da espontaneidade que extraía de seus versos o sumo da realidade imediata que o circundava. Assim, acredito nesse discurso dialógico entre a Poesia e a Filosofia. Escrevi este aforismo: “A poesia é a alma do poeta com que ele presenteia o mundo, depois que o mundo faz morada em sua alma”. E ele não deixa de ser uma reflexão filosófica em formato poético.

 

A trova, por exemplo, que é um poema de estrutura minimalista, formada de quatro versos de sete sílabas poéticas, rimando na maioria das vezes o primeiro verso com o terceiro e o segundo quarto, ela veio lá da Idade Média no Sul da França. Naquela época, trova era a poesia acompanhada por instrumentos musicais como o alaúde. Ela sempre teve um diálogo permanente com a Filosofia.

 

Daí a existência das chamadas trovas filosóficas. Trovador vem do latim “Trobaire”, que nada mais é que um achado, a completude, a mensagem que pode ser de cunhos lírico, filosófico, humorístico etc. No apagar desta entrevista, recebi a notícia de que conquistei o primeiro lugar no X Jogos Florais da UBT Campos dos Goytacazes/RJ – Concurso de Trovas promovido pela União Brasileira de Trovadores, na modalidade lírico-filosófica com o tema Regresso: “Pra que serve a despedida,/se na saudade me expresso?/ Transformo a tua partida/na espera do teu regresso.”  Assim, o poeta, por vezes, é aquele filósofo que pensa com as emoções.

 

6 MHL - Confesso que sou fã de seus poemas que dançam como uma coisa dentro da outra, parece buscando uma realidade dentro de outra realidade. Acho que também há domínio das palavras e seus versos mostram um "autêntico e inimitável sabor da vida", que o poeta francês Pierre Reverdy coloca no apogeu da função poética. Então, será esse o papel da sua poesia? Você a utiliza para expressar suas emoções e pensamentos mais profundos, como expressa Reverdy?

WANDA CUNHA – Embora a Teoria da Recepção ainda estivesse a caminho, Pierre Reverdy via a importância da obra tanto do ponto de vista do criador como do leitor. O tripé de sua estética eram a criação, a emoção e a imagem. A criação e a emoção eram essenciais, mas tinham que estar ligadas à imagem. Quando dizes que busco uma realidade dentro de outra realidade essa assertiva encontra guarida na estética reverdyana de transformar a realidade do cotidiano em realidade imaginária.

 

No poema Garota de Rua, as imagens que utilizo ficam entre a emoção e a razão, dentro de situações sobrepostas como se o fazer poético fosse uma luta incessante contra a realidade em que vivemos: A garota foi comida crua/ Ela vivia na rua,/ atrás de comida/ pra matar a fome/ que matou seu irmão/. Hoje não importa o homem/ que roubou seu hímen,/ que a menina está frita/e é babugem de tantos”. Trata-se da poesia que transita entre o interior e a realidade exterior do poeta. Intitulada “Queda”, esta minha poesia, cheia de cortes, traz os fragmentos de uma realidade que, dividida em vários pedaços, espera que o leitor monte os significados: “Meus olhos sobrevoam os teus/como se fossem náufragos. /Pupilas trôpegas caem/do precipício do teu olhar indiferente./Abro o paraquedas, mas a queda é certa:/uma saudade redonda me recebe/na hora da morte da esperança cega.”

 

E só para fechar este nosso gostoso papo, presenteio este instante com um poema de Pierre Reverdy, intitulado “Mais longe que lá”: Na pequena janela, sob as telhas, olho. E as linhas dos meus olhos e as linhas dos dela se cruzam. Eu tenho a vantagem da altura, ela diz a si. Mas no caminho eles abrem as venezianas e a atenção embaraçosa se fixa. Eu tenho a vantagem das lojas para olhar. Mas no fim é melhor que eu suba ou que você desça e, de braços dados, vamos a algum lugar onde ninguém nos veja.”

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JAIME Há 3 anos BSB/DFDe 1 a 4 show, alto nível e muita erudição. Aplausos de pé!!!
Do Carmo. MaranhenseHá 3 anos Morador de Belo Horizontesrs. tenho que afirmar que essa plataforma do Facetubes é a maior referência brasileira em Literatura hoje no país. Parabenizo toda a equipe por disponibilizar matérias livres de política enjoativa. Através de matérias publicadas aqui, uma variedade de novos aprendizados se tornam realidade. Pena que os ludovicenses ainda não aprenderam a valorizar suas estrelas e astros. Por outro lado, com relação a Wanda Cunha, esta é uma oportunidade dela ganhar o mundo, mostrando seu valor.
Gostei da entrevista. Gutemberg VieiraHá 3 anos Estou em Buenos Aires, num curso de Línguas.Prof. Solano, só para completar digo que para Hegel, a poesia é capaz de transcender as limitações da linguagem ordinária e penetrar nas esferas do simbólico e do imaginário. Ele considerava a linguagem poética como uma forma de comunicação que poderia transmitir o conhecimento de maneiras não racionais, mas ainda assim significantes. Através da poesia, os indivíduos poderiam experimentar a fusão de pensamento e sentimento, racionalidade e sensibilidade, em uma síntese mais abrangente.
Prof. Solano PradoHá 3 anos São PauloTem razão Wanda Cristina. Hegel via a poesia como uma forma de expressão que poderia capturar a complexidade e a riqueza da experiência humana de uma maneira que a filosofia tradicional não conseguia. Enquanto a filosofia analisava conceitos abstratos e buscava uma compreensão lógica do mundo, a poesia podia retratar a vida em sua plenitude, incluindo aspectos emocionais, históricos e sociais.
Carmen DutraHá 3 anos Brasília DFQue entrevista Wanda. Estou embevecida.
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