Por Mhario Lincoln
A quadra inicial de Eloy Melonio — “Nem toda história tem necessariamente um desfecho, e nem todo fim implica necessariamente um começo” — já me impactou porque ilustra, de forma singular, a natureza inconstante dos ciclos poéticos, pois indica que a arte e o pensamento não se encerram, antes transitam em instâncias de permanência e silêncio. Sob esse enfoque, depara-se com o entrelaçamento do início e do término como algo fluido, sem fronteiras fixas, evocando, pois, discussões filosóficas dos primórdios do Renascimento. Lembrei imediatamente de Nicolau de Cusa (1401-1464), em cuja obra ponderou sobre a infinitude e sobre a temporalidade. essa, por sua vez, não se reduz a um simples fio contínuo, mas se revela através de mutações e nuances, muitas vezes insuspeitadas, que realçam a tênue linha entre começos e fins. A consciência que perpassa essas transições. Assim, para Cusa, o instante derradeiro pode, paradoxalmente, persistir como semente de nova interpretação ou criação. Desse modo, a essência poética preconizada por Eloy Melonio à própria perspectiva ampliada da realidade, na qual toda conclusão remete a um além do visível. Assim, a ideia de que “nem todo fim implica necessariamente um começo” não é negação de continuidade, mas sim a afirmação de que o mistério do existir resiste a rótulos estanques e impele o pensamento à busca incessante do indizível. Parabéns, Eloy. Você me surpreende para melhor, sempre que o leio!
A POESIA
ASSIM, ENFIM
Eloy Melonio.
Nem toda história tem
necessariamente um desfecho,
e nem todo fim implica
necessariamente um começo.
O começo parece sugerir um fim,
seja cenário, seja ensaio, seja roteiro
mesmo que esse fim se ache perdido
entre uma pedra e um poeta mineiro.
Se não existe um fim (?),
pode-se até desconfiar do começo ou do meio.
Se ainda no meio, sabe-se do início,
mas nada do fim.
Se o clímax se perder no caminho,
o desenlace pode se antecipar ou se atrasar
porque o fim não tem hora para chegar.
Do primeiro ao último ato,
de mim sei quase todo o enredo.
O que não sabia já me foi dito,
o que ainda não sei, algum dia saberei.
E, assim, viajante da trilha do sol,
qualquer tardinha dessas
acharei, enfim, o meu eterno arrebol.

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