Canapu
Socorro Guterres, escritora e poeta convidada do Facetubes.
Corríamos para o rio que atravessava as terras de papai e nas proximidades das margens íamos colhendo canapus, era o nosso bombom da roça. Vida solta de criança que olhava ao redor e nem via cercas naquele mundão de terras. "Papai, qual o tamanho da propriedade?" , eu indagava.
Ele abria os braços como o Cristo Redentor, que já havíamos conhecido, e nisso tudo cabia. O clima quente ajudava na proliferação da frutinha gostosa, de sabor adocicado e levemente ácido, que fazia parte de nossos folguedos. Era como um brinquedo comestível, podemos dizer assim. A casca fininha de cor palha ou verde envolvia delicadamente o fruto alaranjado, redondinho, em formato de balão, semelhante a um pequeno tomate. E nós colhíamos e levávamos à boca para sentir a explosão do sabor.
Não era intencionalmente plantado, mas sim presente divino do mato. Não nos faziam falta caramelos ou pirulitos; éramos crianças saudáveis colhendo cajus, goiabas, muricis, dentre tantas outras frutas, e o nosso queridinho canapu (ou mata-fome). Hoje ele é comercializado com nome sofisticado, Physalis, muito usado na culinária de doces finos.
Além disso, estudiosos descobriram no caule dessa planta uma substância com atividades neurogênicas, capaz de auxiliar no combate de doenças como Alzheimer e Parkinson. Esse tesouro que brotava em nosso quintal, na época só tinha a função de alimentar brincadeiras e florir o caminho para os banhos de rio.
Sob o clima tropical maranhense de estações secas e chuvosas, tornava-se frescor para nossos dias ensolarados, onde encontrar um simples canapu maduro (os verdes eram tóxicos, nos alertava papai), era motivo de alegria. São lembranças guardadas no tênue invólucro da memória, cuja capa transparente deixa entrever um saudoso bombom.

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