Maria do Rocio Vaz, escritora convidada
Rua da Glória: uma história
Quem me dera voltar algumas décadas e andar descalça pelos “petits pavés” da Rua da Glória.
Nos anos 70, eu e Amelinha andávamos sozinhas até o Passeio Público, quando tínhamos permissão. Usávamos longuetes, bolsas a tiracolo e cabelo comprido. Meninas-moças, movidas por uma imensa vontade de viver. Eram outros tempos: se algum marginal se aproximasse, levaria apenas o dinheiro para o sorvete de morango, que faria falta naquele calor.
Saltávamos pelos “petits pavés” como quem busca a independência. No Passeio, nós nos perdíamos nas voltas sem fim, atrás de mais felicidade. Ríamos e brincávamos como irmãs. Saíamos só na hora em que os portões se fechavam, tomadas pelo medo de sermos engolidas pela onça.
Voltávamos para casa com os pés doendo nas sandálias. Então soltávamos as alças, tiras e fivelas. Seguiríamos descalças, sem amarras, por chãos nem sempre planos. As pulseiras hippie, agarradas em nossos braços, ficavam esquecidas no pedalinho. Naquele instante, éramos inteiramente nossas. E não sabíamos que jamais seríamos tão livres de novo.
Não andávamos, corríamos. Percorrer a calçada ligeiramente gelada era um prazer no fervor do verão adolescente. Assim como beber Coca-Cola bem gelada, na garrafa de vidro, sem culpa alguma. Não havia como escapar: os pés sujos denunciavam a aventura de sobrinha e tia disfarçadas de melhores amigas, uma nascida dias antes da outra.
Ao chegar, o portão de ferro rangia, como anúncio de boas-vindas. Minha avó espiava pela janela. Subíamos as escadas de pedra e nos sentávamos no banco de azulejos coloridos, no terraço dos “amores-perfeitos”. Então, Dona Amélia servia com carinho o bolo “amor em pedaços”.
Perfeito numa hora, partido na outra… como seria o amor? O amor que eu escreveria a vida inteira já estava lá e eu não sabia.
Estou na mesma rua. Paro o carro. Mesmo sol, mesmo canto dos bem-te-vis e a pressa que antes não existia. Da casa, só restou o muro, meio apagado, meio invisível. Tiro os sapatos. Sinto o chão. Ainda tenho 11 anos.

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