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Do autor José Carlos Sanches, “ALCÂNTARA: A BELA ADORMECIDA”

01/12/2025 às 10h29
Por: Mhario Lincoln
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Por José Carlos Castro Sanches
Site: www.falasanches.com

Ei, Alcântara, símbolo de poder e resistência, te vejo de longe...
Entre a ilha de Upaon-Açu e tuas ruínas...
Surge o mar, ondas e um boqueirão.
Entre o passado e o presente, a tradição...

Indago ao Criador por ter frustrado o teu sonho.
O Imperador nunca chegou, nem chegará...
É tolice acreditar que tuas festas são vãs.
Que tua herança seja apenas as pedras, as ruínas, o pelourinho, o açoite, o tambor e o espírito santo.

A tua história se confunde com o tempo...
Hoje és reflexo de um espelho que viu ascender a iluminada urbe, agora és paisagem urbana, demolida, depreciada, admirável passatempo de turistas, com a face enrugada,
de um sono mal-dormido, do cansaço, da pintura, da arte, da cultura, da religiosidade, um eco que vai além do mar e das estrelas.

A lua que balança as marés, o calor intenso e o sol escaldante
que queima a tez risonha e triste do teu povo humilde trabalhador, escravo da tua memória. Construíram em ti uma fortaleza, casarões, igrejas, paredes, telhados, eiras e beiras.
Fizeram de ti um museu a céu aberto, entre o céu e o mar aberto.

Os santos, os pretos, os brancos, a melancolia,
o pranto e o canto. Tudo que foi um sonho agora é encanto... portanto... enquanto... O barco, o remo, a água, o homem e o remanso... Seguem a triste sina de um passado de glória rendida à utopia interplanetária...

Um paradoxo entre ruínas e foguetes...
Pretérito e presente... O império e a república...
O Pelourinho e a liberdade... A vela e o motor...
A saudade e a esperança...

Assim te vejo como uma bela adormecida sobre os escombros...
Corroída pela acidez do tempo, destruída pela insensatez humana...
Clareira e lume, soluço e espinho, luz e negridão...

Se uma pequena centelha de luz te lustra ao reflexo da pedra polida juntada à pedra ocre opaca, aos portais, monumentos históricos, igrejas, santos, portas, janelas, azulejos, calçadas, ruas...
O que posso dizer de ti senão que te vejo
como uma bela donzela nua, que se tornou sombra da realidade crua.

Quando te vir novamente Alcântara, decantada em verso do saudoso poeta que reside nos teus alicerces e paredes de pedra dura, empoderada e silenciosa, quero ver-te mais amada, cuidada e florida como os bosques do paraíso imaculado
do divino espírito santo com a sua linda imperatriz a desfilar pela passarela do tempo, como se fosse eterna sempre bela ainda que tardia.

Alcântara, aí de ti se fugires da minha memória, e confundir o meu pensar de poeta,
levando-me a esquecer da tua brilhante história de outrora.
Se eu pudesse voltar no tempo, te faria novamente sonhadora,
vibrante, cheia de pompa, riqueza e nobreza para receber o imperador.

Parece-me que a espera por quem sonhava
te fazia melhor que a frustração da inconclusa lembrança do visitante ilustre que nunca chegou.
Quem te viu, quem te vê! Eu fui a ti,
apreciei tua história, teu passado de glória,
te vi com um olhar de poeta peregrino e te louvo neste poema.
É tudo que posso te dar Alcântara.
O poeta só tem amor, saudade, esperança e lembrança.

Te verei depois do novo amanhecer, com visão de águia e sensibilidade de um poeta que não dorme e sonha acordado...
E em meio às ruínas, florescerão jardins,
e as pedras se tornarão monumentos de glória,
e o mar se tornará um espelho de prata,
refletindo a beleza da eterna Alcântara.

São Luís, 30 de novembro de 2025.

 

José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, escritor, cronista, contista, trocador e poeta maranhense.

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