Carlos Furtado, convidado da Plataforma Nacional do Facetubes
Em um país de dimensões continentais, o diálogo revela-se instrumento essencial para o conhecimento mútuo, a aproximação de realidades e o acesso a informações e saberes que ampliam nossa compreensão cultural e histórica.
Foi nesse espírito, em conversa com a confreira Roselene Furtado, da Academia Teresopolitana de Letras, fundada em 21 de abril de 1961 (da região serrana do Rio de Janeiro), que me deparei com um dado revelador da projeção intelectual do Maranhão no cenário nacional: entre as quarenta cadeiras daquela respeitável instituição, figuram como patronos alguns dos mais ilustres nomes maranhenses da literatura brasileira, como Aluísio Azevedo, introdutor e maior expoente do Naturalismo no Brasil; Coelho Neto, fundador da Academia Brasileira de Letras, consagrado em seu tempo como o “Príncipe dos Prosadores Brasileiros”; Graça Aranha, imortal da ABL, escritor pré-modernista e um dos articuladores da Semana de Arte Moderna de 1922; Gonçalves Dias, o poeta nacional; Humberto de Campos, membro da ABL e poeta neoparnasiano do período de transição anterior a 1922; João Francisco Lisboa, político, historiador, jornalista e escritor, patrono da cadeira nº 18 da ABL; e Raimundo Correia, um dos maiores representantes do Parnasianismo no Brasil.
Essas informações me levaram à conclusão de que São Luís do Maranhão não é apenas uma cidade: é um estado de espírito. Entre ruas de pedra e casarões que guardam silêncios seculares, nasceu a Atenas Brasileira, onde a palavra sempre encontrou abrigo, e a inteligência fez morada. Aqui, o verbo floresceu como herança e destino, e o pensamento ergueu-se tão sólido quanto os sobrados de azulejos que refletem o sol e a memória.
Na bruma das manhãs antigas, ecoavam vozes de poetas, gramáticos e sonhadores. As tipografias respiravam ideias; os jornais tornavam-se trincheiras do pensamento; os saraus, verdadeiros templos onde a língua portuguesa alcançava um refinamento quase divino. Cada peça literária em São Luís parecia carregar o sal do mar e o peso da eternidade, como se a cidade tivesse sido escolhida para guardar o idioma em sua forma mais nobre.
Não resta a menor dúvida de que Gonçalves Dias cantou a pátria com alma indígena e saudade universal; Odorico Mendes domou os clássicos e os fez falar em português castiço; Sousândrade ousou o delírio visionário; Aluísio Azevedo expôs as entranhas da sociedade; Graça Aranha anunciou novos tempos e tantos outros. Cada um, à sua maneira, beberam da mesma fonte: a cidade que ensinava a pensar, sentir e escrever.
Essa herança, contudo, não repousa apenas nos livros antigos ou nos nomes consagrados. Ela permanece viva e pulsante na atuação firme das Academias Literárias da atualidade. Entre elas, a Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares – AMCLAM surge como uma das guardiãs contemporâneas da alma intelectual da Atenas Brasileira. Na AMCLAM, passado, presente e futuro entrelaçam-se, preservando a memória sem permitir que ela se transforme em estátua imóvel. Por meio de seus membros, a história respira, o saber se renova, e a cultura encontra continuidade.
A pujança da AMCLAM manifesta-se em projetos que aliam erudição, criatividade e compromisso social. O Ciclo de Palestras “Elogio aos Patronos”, já em sua 8ª edição, resgata vidas e legados, devolvendo humanidade aos nomes que sustentam as cadeiras acadêmicas. O Concurso Nacional Pedro Ivo de Poesia, em sua 6ª edição, reafirma a poesia como chama viva e espaço de revelação de novas vozes. O vibrante CARNAMCLAM, baile de salão com concurso de fantasias, celebra a cultura popular em diálogo com o saber erudito, demonstrando que a alegria também é uma forma elevada de inteligência.
No plano nacional, o CONAMBRAS – Congresso Nacional das Academias de Letras do Brasil projetou o Maranhão como polo de articulação cultural, enquanto a ousada 1ª FELICAM – Feira das Academias de Letras do Maranhão surge como desafio e promessa, abrindo espaço para que escritores, leitores e instituições dialoguem em praça pública. Soma-se a isso a criação da Academia Mirim, gesto de esperança que semeia o amor pelos livros nas novas gerações e assegura a continuidade da Atenas Brasileira.
Nas posses acadêmicas da AMCLAM, alcança-se um raro equilíbrio simbólico: o glamour dos ritos literários funde-se à solenidade e à disciplina dos eventos militares, criando cerimônias em que palavra e honra caminham lado a lado, em que a cultura não se dissocia do civismo, nem o saber se afasta do compromisso ético.
Assim, a Atenas Brasileira segue viva — não como lembrança melancólica, mas como presença ativa. São Luís permanece como esse lugar singular, onde a beleza caminha ao lado da inteligência, e onde instituições como a AMCLAM garantem que o pensamento não se cale, que a memória não se perca e que a palavra — sempre ela — continue a iluminar o tempo.
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*Historiador e Coronel Veterano da Polícia Militar. Presidente da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (AMCLAM). Presidente da Academia de Letras dos Militares Estaduais do Brasil e do Distrito Federal e Vice-presidente da Federação das Academias de Letras do Maranhão (FALMA)

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