MHARIO LINCOLN
Na maturidade, a gente aprende a escolher companhia como quem escolhe pão para a alma. Não é desprezo pelo afeto humano, é zelo pelo destino. Há áreas que nos distraem coisas que importam e há presenças que nos levantam quando o chão falha. A Escritura é direta ao lembrar que “melhor é ser dois do que um” e que, se um cair, o outro o ergue, porque a solidão, quando vira regra, vira cansaço sem testemunha.
Mas a amizade que vale não é a que se alimenta de conveniências ou de pequenas sombras, e sim a que aceita a verdade sem crueldade e a disciplina sem vaidade. O amigo não é plateia, é lapidação. “O amigo ama em todo o tempo” e, ao mesmo tempo, “como o ferro afia o ferro, o homem afia o seu companheiro”, porque amizade madura não é consolo, é escolha.
E Bertrand Russell anunciava, com a frieza luminosa dos grandes pensadores, que se tivéssemos o poder mágico de ler os pensamentos uns dos outros, muitas amizades se dissolveriam, mostrando que o vínculo real não nasce de ilusões, mas de caráter. Por isso, a amizade espiritual não é enriquecida, é compromissada, quase um ato de reverência, onde há respeito, propósito comum e humildade sem teatro. Ela corre o risco de ser ferida, porque árvore que dá fruto, geralmente incomoda quem pensa diferente e gosta de viver em eterno aplauso; vive de sentido e não, por um sentido. Foi por isso que Cristo propôs uma medida que sempre derruba qualquer ego travestido de ternura, “ninguém tem maior amor do que este: dar a sua vida pelos seus amigos”. Claro que é uma parábola de mil definições.
Co tudo, é essa coragem de amar com retidão que faz a amizade florescer, mesmo sob pedras, e transformar a vida em algo mais alto.
Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta e jornalista.

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