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CONFESSANDO ROMANESCAMENTE

02/04/2026 às 15h45
Por: Mhario Lincoln
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Mauro Cezar Vieira

Fechando o mês de março de 2026, quando se completam 20 anos do desencarne de seu patrono, a Casa de Cultura Josué Montello entrega a todos os leitores e pesquisadores do polígrafo maranhense a nova edição de Confissões de um romancista. Este texto, que havia sido publicado como introdução geral dos Romances e novelas do autor publicados pela Editora Nova Aguilar, é um ensaio autobio(biblio)gráfico onde Montello repassa toda a sua vida até a publicação de Perto da meia-noite, seu, até então, último romance. É curioso notar que o autor de Os tambores de São Luís não era um estreante no gênero, pois já havia escrito Gonçalves Dias: ensaio biobibliográfico, publicado na coleção “Afrânio Peixoto” pela Academia Brasileira de Letras, antes mesmo de Montello se tornar acadêmico. No entanto, em Confissões de um romancista, a tarefa é mais complexa, pois falar de si envolve nuances extras, algo que você, leitor, já deve ter percebido.

É nesse escopo que podemos perceber (e problematizar) algumas escolhas feitas pelo autor, principalmente no que se refere ao título. O vocábulo “confissões” é revelador do tipo de tom que Montello queria dar ao texto. O autor percebia, ali, um certo desvelamento do seu eu que lhe evidenciava as faltas, os deslizes ou qualquer tipo de má conduta que ensejasse a confissão. Vale ressaltar que, como bem teorizou o filósofo Michel Foucault, o ato confessional se instaurou na sociedade moderna através da Igreja Católica numa prática que, até hoje, é necessária para o recebimento dos sacramentos. Com o avanço social, a prática confessional foi se derramando por sobre outros espaços como o consultório do médico, o divã do psicanalista ou um banco do tribunal. Em todos esses casos, uma coisa é essencial: dizer a verdade sobre si. O que está posto através da escolha por “confissões” é que Josué Montello está se propondo a dizer a verdade sobre si, não num texto diarístico, gênero onde a confissão é mais comum e que também foi cultivado por ele, mas numa autobiografia intelectual, gênero mais afeito às peripécias da memória.

 

O segundo ponto a se destacar é que essas confissões são de um romancista, ou seja, não são de um novelista, ou de um contista, ou de um professor, ou de um cronista, ou de um acadêmico, etc. Mesmo tendo sido tudo isso, Josué Montello se apresenta ao leitor como um romancista. Dessa maneira, ele elege a identidade pela qual quer ser lembrado no futuro. Como bem ressaltou o professor José Neres no prefácio desta nova edição, em Confissões de um romancista encontramos diversas identidades do autor. O Josué-leitor, o Josué-professor, o Josué-garoto rebelde, todos estão no texto e, por vezes, convivem entre si. Mas essas identidades convergem para uma só, a de romancista. Josué Montello é sagaz ao se tornar personagem de si próprio e se moldar diante do público vestindo a máscara de si mesmo, construída sob medida para nos dizer: “o que eu sou, verdadeiramente, é romancista”. Daí porque todos nós, leitores e pesquisadores montellianos, desconfiamos que o texto-modelo utilizado por Montello foi o Como e por que sou romancista, de José de Alencar. Ao escrever suas Confissões, o maranhense puxa uma cadeira e senta à mesa dos grandes romancistas brasileiros ao demonstrar, nas páginas deste brilhante texto, que o trabalho romanesco não é fruto somente da genialidade do seu autor. Há, também, muita labuta com a palavra, em busca da construção perfeita, daquele rearranjo que trará à luz aquilo que só está na mente do criador.

A título de encerramento, vai um questionamento que é consequência óbvia das afirmações feitas acima: se Montello elegeu sua identidade de romancista como mais importante que as outras, é possível dizer que em Confissões de um romancista ele disse a verdade sobre si? Essas Confissões são realmente confessionais ou são uma performance de um escritor que, já consagrado, busca se reconectar com sua trajetória? A essas perguntas, deixo aos leitores de Confissões de um romancista a tentativa de encontrar as respostas. Só o que posso fazer para ajudá-los é repetir o próprio Josué Montello no fechamento de seu ensaio: “Minhas confissões ficaram nas minhas novelas e nos meus romances. Sobretudo nos meus romances”.

Mauro Cezar Vieira é Mestre em Letras pela UFMA e doutorando em Literatura pela UEMA. Integra o grupo GELMA e é pesquisador montelliano.

 

 

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JOSEANE MARIA DE SOUZA E SOUZAHá 2 meses SAO LUISProfessor Mauro, grande pesquisador montelliano e parceiro da Casa de Cultura Josué Montello. Foi um dos incentivadores para que esse livro fosse publicado. Grata pelo belo texto. Joseane Souza
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