RAIMUNDO FERREIRA MARQUES* (Convidado da Plataforma Nacional do Facetubes).
As academias de letras, artes e ciências nasceram sob o signo da permanência. Foram concebidas como guardiãs do tempo — instituições destinadas a preservar a palavra, a criação e o pensamento diante da erosão inevitável das gerações. Em seus salões, a cultura buscava não apenas expressão, mas continuidade; ali, a inteligência humana era celebrada com solenidade e o saber encontrava um baluarte contra o esquecimento.
No entanto, o século XXI impôs uma reconfiguração profunda dessa lógica. Vivemos em uma era em que o conhecimento deixou de ser escasso para tornar-se abundante, quase excessivo. A palavra, antes lapidada com paciência, agora circula em fluxo contínuo, instantâneo e, muitas vezes, descartável. A arte rompeu fronteiras, dissolveu suportes e reinventou linguagens. A ciência, por sua vez, acelera em ritmo vertiginoso, impulsionada por tecnologias que transformam o presente antes mesmo que possamos compreendê-lo plenamente.
Nesse cenário, as academias enfrentam um dilema essencial: como sustentar a ideia de permanência em um mundo estruturado pela transitoriedade?
Criar uma academia hoje não é apenas um ato institucional — é um gesto de resistência intelectual. Significa afirmar que, apesar da velocidade, ainda há valor na pausa; que, em meio ao ruído, a reflexão continua necessária; e que, diante da superficialidade crescente, a profundidade mantém seu lugar. O desafio, portanto, não é apenas existir, mas justificar a própria existência.
Manter uma academia viva no século XXI exige mais do que reuniões formais ou a ocupação simbólica de cadeiras. Exige vitalidade, circulação de ideias, abertura ao novo e disposição para o diálogo intergeracional. Há, nesse ponto, uma ruptura necessária: a transição da academia como “espaço de consagração” para a academia como “espaço de produção viva”. Não basta reconhecer trajetórias; é preciso fomentar caminhos. Não basta preservar a memória; é preciso dialogar com o presente.
Outro aspecto incontornável é a relação com a sociedade. Academias que permanecem fechadas em si mesmas tendem a se tornar relicários. Em contrapartida, aquelas que se conectam com a comunidade encontram relevância e legitimidade. A sustentabilidade dessas instituições deixou de ser meramente financeira para se tornar simbólica e social. Uma academia sobrevive quando é percebida como necessária.
Nesse cenário de reinvenção e permanência, destaca-se a Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (Amclam). Fundada em 31 de maio de 2018, por 22 idealizadores, sob a liderança do Cel. Carlos Augusto Furtado Moreira, a instituição caminha para o seu oitavo ano de existência consolidada como uma das mais relevantes do cenário cultural maranhense.
O grande diferencial da Amclam é a integração harmoniosa entre militares e civis, em um mesmo espaço de produção intelectual, valorizando a cultura histórica e militar do Maranhão. Cumprindo seu papel social com excelência, a Academia promove eventos culturais abertos, concursos de poesia e palestras mensais. Um marco notável de sua trajetória foi o patrocínio e realização — em parceria com a Academias de Letras dos Militares Estaduais do Brasil e do Distrito Federal (Almebras) — do primeiro e único congresso nacional da categoria, com a consequente publicação dos anais, além da publicação de sua antologia: Amclam & Convidados, em sua quarta edição, um divisor de águas literário.
A trajetória da Amclam é também marcada por conquistas estruturais, como a obtenção de sede própria (ainda que em imóvel locado), o que reforça sua notoriedade nacional.
Este sucesso deve-se, em grande medida, à liderança do Cel. Carlos Furtado. Presidente reeleito e líder inconteste, Furtado foi o principal responsável pela manutenção da chama acadêmica, chegando a acolher a instituição em sua própria residência nos períodos de maior desafio. Sua dedicação rendeu-lhe o justo reconhecimento no meio acadêmico-cultural, ocupando hoje a vice-presidência da Federação das Academias de Letras do Maranhão (Falma) e a presidência da própria Almebras.
O futuro das academias não reside na rigidez da tradição, mas na inteligência de sua reinvenção. No século XXI, não basta ser um monumento ao conhecimento. É preciso ser movimento.
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*Advogado, membro efetivo e perpétuo da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (Amclam) na cadeira nº 10 patroneada pelo Cel. Arlindo Faray e pela quinta vez Grão-Mestre do Grande Oriente do Estado do Maranhão (Goema). Foi Tenente da PMMA, Secretário de Estado da Segurança Pública em duas oportunidades, Procurador Geral do Estado, Procurador de Justiça, Presidente da OAB-MA, Presidente da FMD, Vereador de Chapadinha, Presidente da Confederação Maçônica do Brasil. Integra ainda os quadros de várias entidades literárias, como a Academia Buritiense, Chapadinhense, Maçônica e Letras Jurídicas.
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Na foto, o Professor Emérito e Acadêmico RAIMUNDO FERREIRA MARQUES. No destaque, o coronel Carlos Furtado, presidente AMCLAM.

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