SAUDADE PRÓPRIA
José Claudio Pavão Santana
Há um equívoco silencioso quando se fala em saudade: costuma-se tratá-la como falta de alguém, como ausência voltada para o outro. Mas há dias — raros e densos — em que ela se recolhe para dentro. Nesses dias, não é o mundo que falta. É o próprio homem que se estranha.
Hoje ele amanhece assim: melancólico, mas sem causa externa evidente. Não houve ruptura, não houve perda concreta. Ainda assim, algo pesa. É uma melancolia com nome próprio, íntima, intransferível. Chama-se saudade — mas não qualquer saudade. É a saudade de si mesmo.
Dir-se-á, com a frieza dos que preferem generalizar sentimentos: não és o primeiro. E é verdade. Nunca se é o primeiro a sentir. Mas essa constatação, embora correta, é insuficiente. Porque o que se experimenta não é o conceito de saudade, mas a sua forma singular. A experiência não se dilui no fato de ser comum. Ao contrário, intensifica-se na medida em que se reconhece como própria.
A saudade, quando dirigida a si, não aponta para uma ausência concreta. Ela revela uma distância. Não entre lugares, mas entre versões. O homem permanece inteiro — nada lhe foi arrancado. E, no entanto, algo lhe escapa: não um pedaço, mas um tempo de si.
O tempo, nesse contexto, não é apenas medida. É agente. Ele escreve, inscreve, transforma. Marca o rosto, reorganiza afetos, reinterpreta memórias. E o homem, ao mirar-se, percebe não apenas o que é, mas o percurso que o trouxe até aqui. Vê-se como resultado, e não mais como promessa.
Daí a imagem precisa: um espelho convexo. Não aquele que distorce por engano, mas aquele que amplia a profundidade. O reflexo que surge não é falso, é complexo. E nele, o homem busca não a figura presente, já conhecida, mas aquela outra — anterior, menos marcada, talvez mais leve. Um eu sem as linhas que o tempo inevitavelmente traçou.
Essa busca, no entanto, não é regressiva. Não há desejo real de retorno, porque o retorno implicaria negar o caminho percorrido. O que há é reconhecimento. Uma tentativa de reencontrar, no interior de si, as camadas que o constituíram. Uma espécie de arqueologia do próprio ser.
E é aqui que a melancolia se equilibra. Porque, ao lado da saudade, surge a gratidão. O homem não ignora as marcas que carrega. Ao contrário, reconhece nelas os registros de uma vida vivida. Desgostos, gostos, sonhos — tudo isso se inscreve não como falha, mas como testemunho.
A saudade de si, portanto, não é uma negação do presente. É uma forma de compreendê-lo. Ela indica que o eu não é fixo, que a identidade não se esgota em um único momento. O homem é, simultaneamente, aquilo que foi, o que é e o que ainda se projeta.
Sentir saudade de si mesmo é, nesse sentido, um exercício de consciência. É perceber que, ao longo do tempo, deixamos versões nossas pelo caminho — não como perdas definitivas, mas como etapas necessárias. Cada uma delas permanece, de algum modo, integrada ao que somos.
O homem que amanhece assim não está incompleto. Está lúcido. Reconhece em si a passagem do tempo e, com ela, a inevitável transformação. E, por isso mesmo, pode afirmar, sem contradição: sente saudade de si — e, ainda assim, agradece por ter se tornado quem é.

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