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José Ribamar Neres Costa e Laura Barros Neres:" SEXO E VIOLÊNCIA EM CLARICE LISPECTOR"

"BREVE ESTUDO DE A VIA CRUCIS DO CORPO".

02/03/2021 11h33
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Divulgação
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SEXO E VIOLÊNCIA EM CLARICE LISPECTOR: BREVE ESTUDO DE A VIA CRUCIS DO CORPO

José Ribamar Neres Costa [1]   Laura Barros Neres [2]    

INTRODUÇÃO

          Quando, em literatura, se fala em sexo e violência, vem logo à mente dos amantes das letras brasileiras nomes como Rubem Fonseca, João Antônio, Plínio Marcos, José Louzeiro, Patrícia Melo, Paulo Lins ou Matheus Peleteiro, escritores que, utilizando uma linguagem crua, ambientaram suas narrativas nas ruas e/ou no submundo do crime, ressaltando os estigmas da sociedade e destacando o protagonismo de personagens socialmente marginalizadas.

          No entanto, resguardadas as diferenças de natureza estilística e temática, é importante destacar que outros escritores também se dedicaram a escrever textos literários que podem ser considerados como pertencentes à categoria de obras que retratam tanto o submundo social quanto as ações individuais que seriam marginalizadas, caso fossem praticadas à vista dos demais atores sociais.

          Entre esses escritores está Clarice Lispector, que é geralmente mais lembrada e estudada por seus mergulhos introspectivos e na inquirição de suas personagens, mas que também escreveu textos, que, sem fugirem das características centrais da autora, apresentam outras nuances que remetem à problemáticas sociais, como é o caso de seu livro de contos A Via Crucis do Corpo, um de seus trabalhos menos divulgados e estudados, mas que traz em suas narrativas breves exemplos de como algumas atitudes humanas podem ser reinterpretadas quando são vistas pelas frestas da intimidade das personagens.

          Este trabalho, que segue as linhas da pesquisa de natureza bibliográfica, com abordagem qualitativa dos elementos analisados, está dividido em duas partes complementares. No primeiro momento, é feito um levantamento da produção literária de Clarice Lispector com suas características e a recepção pela crítica especializada. Finalmente, serão analisados trechos do livro A Via Crucis do Corpo com a finalidade de comprovar a ideia central deste artigo, ou seja, que a obra clariceana apresenta elementos que permitem situá-la entre os autores que destacam tanto o sexo quanto a violência a partir de ações individuais em suas produções literárias. 

CLARICE LISPECTOR

          Apesar de ter sido muitas vezes julgada e classificada como sendo uma escritora “alienada, cerebral, ‘intimista’ e tediosa (MOSES, 2011, p. 21), Clarice Lispector, prosadora naturalizada brasileira nascida em Tchetchelnik, Ucrânia, em 1920, e falecida no Rio de Janeiro, em 1977, é considerada por diversos críticos e historiadores da Literatura (NUNES, 1973; BRASIL, 1979; MOISÉS, 1997, LOBO, 2007; MOSES, 2011 e 2016) como uma das mais importantes escritoras do século XX e de toda a literatura brasileira ao longo dos tempos.

          Reconhecida como uma das principais expoentes do terceiro momento do Modernismo brasileiro, Clarice Lispector deixou para a literatura um vasto legado em forma de obras como Perto do coração selvagem, O lustre, A hora da estrela, Água viva, A felicidade clandestina, Laços de família e A via crucis do corpo, entre outras obras. Sua contribuição para as letras foi tão importante que Brasil (1979, p. 72) defende a tese de que foi ela a responsável por dar “maioridade à ficção brasileira moderna, com obra de nível universal.”

          A fortuna crítica sobre Clarice Lispector é bastante vasta e diversificada. Tanto sua vida quanto sua obra são constantemente revisitadas e servem como base para estudos nas mais variadas temáticas, que vão desde as abordagens panorâmicas sobre sua prosa, com ênfase nos aspectos filosóficos e psicológicos de suas narrativas, conforme fez Nunes (1973), até o inter-relacionamento de suas personagens com as teorias psicanalíticas, já que “é bastante comum nos depararmos com um certo entrecruzamento entre literatura e psicanálise” (AMORIM, 2018, p. 33).

          Partindo da observação de que Clarice Lispector “recorre várias vezes aos mitos gregos para basear o enredo de suas narrativas, para inventar e também nomear personagens”, Fortes (2006, p. 26) estudou a presença de elementos mitológicos na prosa clariceana. Além disso, detalhes menos conhecidos da vida da autora de O Lustre, assim como outros aspectos relevantes de sua biografia foi explorado por Moses (2011) em sua conhecida biografia sobre vida da escritora. 

SEXO E VIOLÊNCIA EM A VIA CRUCIS DO CORPO

          A via crucis do corpo é um dos últimos livros de Clarice Lispector e, conforme ela mesma avisa em uma explicação/apresentação da obra, foi o editor e poeta Álvaro Pacheco que, por telefone, encomendou a ela três histórias que “realmente aconteceram” (LISPECTOR, 2016, p. 527). O livro seria composto por 14 contos, porém, segundo a própria autora, uma censura interna fez com que ela não publicasse um dos contos, ficando, então apenas 13 narrativas curtas. Antes mesmo de começar a narrar as histórias, a autora pede desculpa aos possíveis leitores por conta do teor das histórias que fazem parte do livro.

          Essa advertência de Clarice Lispector oscila entre a seriedade factual da encomenda e uma refinada ironia. Embora ela garanta que todos os contos da obra sejam inspirados em fatos ocorridos, logo na primeira história, que tem como protagonista uma mulher que se considera extremamente puritana, a ponto de tomar “banho apenas uma vez por semana, no sábado. Para não ver o seu corpo nu, não tirava a calcinha nem o sutiã” (LISPECTOR, 2006, p. 530) e que “nem tinha televisão. Por dois motivos: faltava-lhe dinheiro e não queria ficar vendo as imoralidades que apareciam na tela” (LISPECTOR, 2006, p. 531), mas que se vê sexualmente seduzida por um extraterrestre e, a partir desse momento, decide assumir uma vida sexual mais ativa.

          Claro que o enredo dessa história apresenta pontos que levam o leitor a questionar sobre a possível veracidade desse e dos demais contos enfeixados na obra. No geral, o livro é “desafiadora e desbragadamente sexual, de um modo que Clarice nunca fora antes e nunca voltaria a ser” (MOSES, 2011, p. 589), em uma visão crítica que é compartilhada por Lobo (2007) e Gedra (2013), para quem é nessa obra que Clarice Lispector “apresenta uma preocupação mais explícita com questões sexuais” (GEBRA, 2013, p. 145). A crueza de algumas histórias, mesmo não podendo ser comparada às narrativas de José Louzeiro, Paulo Lins, João Antônio e Plínio Marcos, pode chocar alguns leitores mais acostumados com mergulhos introspectivos da autora em seus livros mais conhecidos.

Em oitenta e poucas páginas encontramos um travesti, uma stripper, uma freira tarada, uma mulher de sessenta anos com um amante adolescente, um casal de lésbicas assassinas, uma velha que se masturba e uma secretária inglesa que tem um coito extático com um ser de outro planeta (MOSES, 2011, p. 589).

          Essa galeria de personagens parece de alguma forma haver saltado das páginas de um jornal sensacionista para habitarem as páginas de um livro, evidenciando não apenas “uma crueldade física, ou mesmo moral, mas, antes de tudo, uma crueldade ontológica, ligada ao sofrimento de existir e à miséria do corpo humano” (GOMES, 2012, p. 76).

          Ao longo das narrativas que compõem o livro, que pertence à última fase da produção literária de Clarice Lispector (LOBO, 2007), cenas escatológicas são imiscuídas no meio das ações das personagens que vivem seus conflitos internos, mas que também convivem com todos os problemas sociais característicos da vida urbana, sendo que Miss Algrave, protagonista do primeiro conto do livro “Chegara uma vez a ver uma fila de viciados junto de uma farmácia, esperando a vez de tomarem uma aplicação” (LISPECTOR, 2016, p. 533), e constantemente, “quando passava pelo Picadilly Circle e via as mulheres esperando homens na esquina, só faltava vomitar. Ainda mais por dinheiro! Era demais para suportar. E aquela estátua de Eros, ali, indecente (LISPECTOR, 2016, p. 529).

          Essa mesma personagem, que vive cercada de contradições internas, que constantemente levava consigo “uma Bíblia para ler” (LISPECTOR, 2016, p. 530) e que para quem “até as crianças eram imorais” (LISPECTOR, 2016, p. 532), após viver um relacionamento sexual com um ser interplanetário, sente-se mais motivada a cantar no coral e guarda o lençol manchado de sangue como “prova de que tudo isso ocorrera mesmo”. Guardando o objeto sem lavá-lo para poder “mostrá-lo a quem não acreditasse nela (LISPECTOR, 2016, p. 534). Para completar a cena, a personagem, consciente de que não suportaria ter de esperar retorno do amante extraterrestre, que prometera voltar somente na próxima lua cheia, dirige-se a uma casa de prostituição e, “não aguentando mais, encaminhou-se para o Picadilly Circle e achegou-se a um homem cabeludo. Levou-o a seu quarto. Disse-lhe que não precisava pagar (LISPECTOR, 2016, p. 535).

          Toda a saga de Miss Algrave é narrada não a partir apenas das cenas de natureza explicitamente sexual, mas também pelos seus hábitos alimentares, que vão de um primeiro momento no qual ela “costumava jantar num restaurante barato em Soho mesmo. Comia macarrão com molho de tomate e (...) nauseava-a o cheiro de álcool” (LISPECTOR, 2016, p. 530), sem contar que, no início do texto, “comer carne ela considerava pecado (LISPECTOR, 2016, p. 529), até quando ela, após uma transformação que vai do aspecto físico ao comportamental, “na hora do almoço, comeu filet mignon com purê de batata. A carne sangrenta era ótima. E tomou vinho italiano” (LISPECTOR, 2016, p. 534).

          Todo o conto é pautado pela ênfase na cor vermelha em seus diversos matizes cromáticos e metafóricos, que vão desde seus cabelos ruivos, passa pelo molho de tomate, pela mancha de sangue no lenço, pelo corte da carne mal passada, pelo camarão, pelo vinho tinto até culminar com a compra de “um vestido vermelho decotado” (LISPECTOR, 2016, p. 536) e seu mergulho no mundo da prostituição.

           O interesse por temas relativos à sexualidade humana é evidente em A via crucis do corpo, sendo que nesse aspecto, “o tom de Clarice Lispector oscila do sério ao farsesco, conforme afirma Moses (2011, p. 591). Quase sempre essa ênfase nos aspectos sexuais das personagens remete a atividades consideradas desviantes dentro do contexto da época em que os textos foram escritos, mas também remetem, de certa forma, ao final dos anos 60 e início dos anos 70 do século XX, quando “eclodiu o fruto tão lentamente amadurecido: a chamada revolução sexual” (PRIORI, 2011, p. 175).

          Além do apelo sexual, a acidez irônica é outra das características desses contos clariceanos. Seguindo os ditames da estética naturalista, que destacavam os ímpetos sexuais das personagens, inclusive com triângulos amorosos explícitos, no conto intitulado “O corpo”, as três personagens centrais vivem em uma relação aberta, sendo que, “na noite em que viu O último tango em Paris foram os três para a cama: Xavier, Carmem e Beatriz. Todo o mundo sabia que Xavier era bígamo: vivia com duas mulheres” (LISPECTOR, 2016, p. 537), logo após a concretização do ato físico a três, eles “às seis horas da tarde foram os três para a igreja. Parecia um bolero. Um bolero de Ravel (LISPECTOR, 2016, p. 537).

          Dessa forma, a ideia do chamado direito ao prazer transparece nas narrativas clariceanas, mesmo que esse direito venha cercado de diversas nuances de perigos e tabus, como ocorre no conto “A língua do ‘P’”, no qual, na iminência de ser violentada dentro do vagão de um trem, uma professora de inglês decide fingir-se de prostituta para “quebrar” o ímpeto de seus possíveis violadores.

Então pensou: se eu me fingir de prostituta, eles desistem, não gostam de vagabunda.

Então levantou a saia, fez trejeitos sensuais – nem sabia que sabia fazê-los, tão desconhecida ela era de si mesma – abriu os botões do decote, deixou os seios meio à mostra (LISPECTOR, 2016, p. 580).

          Contudo, a atitude desesperada na protagonista teve um efeito diferente do esperado, pois acabou sendo denunciada pelo bilheteiro do trem e punida com a expulsão do veículo e posteriormente presa possivelmente por atentado ao pudor. Na cadeia, “chamaram-na dos piores nomes. E ficou na cela por três dias” (LISPECTOR, 2016, p. 580), o que demonstra que, mesmo em uma sociedade que começa a viver seus momentos de liberalismo nos costumes, a mulher demonstrasse em público suas intenções e desejos eróticos eram reprimidas não apenas pelos demais atores sociais, mais inclusive por ela mesma, em uma espécie de censura interna, conforme pode ser visto na cena em que finalmente a protagonista é libertada.

Tinha lavado a cara, não era mais prostituta. O que a preocupava era o seguinte: quando os dois falaram em currá-la, tinha tido vontade de ser currada. Era uma descarada. Epe sopoupu upumapa puputapa. Era o que descobrira. Cabisbaixa. (LISPECTOR, 2016, p. 581)

          Como nesses seus contos Clarice Lispector preocupa-se não apenas com o olhar introspectivo, mas também com a exploração de aspectos comportamentais da sociedade, o final de texto remete diretamente ao submundo do crime, com a transcrição de uma manchete de jornal com os seguintes dizeres: “Moça currada e assassinada no trem” (LISPECTOR, 2016, p. 581). sobre a presença da mulher nesses contos clariceanos, Gebra (2013, p. 153) adverte que:

Em alguns contos desse livro, a mulher precisa transitar pelos polos da virtuose e de pecado, algumas vezes para sobreviver em uma sociedade machista que vê o corpo da mulher como algo frágil, relacionado à natureza, às pulsões desgovernadas e, portanto, passível de ser abusado e violentado, como ocorre com a professora de inglês Cidinha, do conto “A língua do ‘P’”. 

          Essa perspectiva de um desejo sexual velado e condenado pelas esferas sociais fica evidenciada desde o título do conto “Melhor que arder”, que inicialmente se passa dentro de uma igreja, com a protagonista, Madre Clara, que “entrara no convento por imposição da família” (LISPECTOR, 2016, p. 582), descobre-se interessada fisicamente pelo sexo oposto, e “na hora em que o padre lhe tocava a boca para dar a hóstia, tinha que se controlar para não morder a mão do padre” (LISPECTOR, 2016, p. 582 ). Diante de um intenso desejo no qual ela erotizava até o corpo quase despido de Cristo pregado na cruz, recebe o conselho no confessionário: “É melhor não casar. Mas é melhor casar do que arder” (LISPECTOR, 2016, p. 583).

          A sexualidade feminina, que é uma das tônicas do livro se bifurca em diversas direções que nem sempre eram vistas nas obras literárias. A barreira impeditiva da idade de uma mulher madura que nem sempre sabia lidar com os recônditos dos desejos sexuais aparecem de modo mais intenso em dois contos: “Ruídos de passos” e “Mas vai chover”. No primeiro, uma senhora de oitenta e um anos de idade procura um médico para tentar compreender o que se passa com o próprio corpo. A atitude do médico, que embora cientificamente reconheça que o desejo sexual não tenha fim ou pelo menos arrefecimento com a idade, e que, “quando os idosos mantém um bom nível de saúde e equilíbrio emocional, a sexualidade também tende a se manter com melhor qualidade (MEIRA, 2002, p. 82) assume um teor impregnado de preconceito ao aconselhar:  

– O que é que eu faço? Ninguém me quer mais...

O médico olhou-a com piedade.

– Não há remédio, minha senhora.

  E se eu pagasse?

– Não ia adiantar de nada. A senhora tem que se lembrar que tem oitenta e um anos de idade.

– E... se eu me arranjasse sozinha. O senhor entende o que eu quero dizer?

– É, disse o médico, pode ser um remédio. (LISPECTOR, 2016, p. 567-8). 

          Como ao longo da história quase sempre o prazer sexual feminino tenha sido relacionado ao medo e ao sentimento de culpa (PRIORI, 2011), a protagonista “nessa mesma noite deu um jeito e solitária satisfez-se. Mudos fogos e artifícios. Depois chorou. Tinha vergonha. Daí em diante usaria o mesmo processo” (LISPECTOR, 2016, p. 568).

          Já no conto “Mas vai chover”, a trajetória da personagem é um pouco diferente, mas acaba encaminhando-se para direção parecida. À maneira de uma notícia de jornal, o narrador delineia de modo direto o eixo norteador da história: “Maria Angélica de Andrade tinha sessenta anos. E um amante, Alexandre, de dezenove anos” (LISPECTOR, 2016, p. 585). Ele, um entregador de farmácia, que se vê seduzido não apenas pela dona da casa, mas também pelos interesses pecuniários que podem derivar da relação entre ambos, representa para ela mais que uma conquista, é também visto como “a força, a juventude, o sexo há muito tempo abandonado” (LISPECTOR, 2016, p. 585).

          As cenas eróticas são explícitas e eivadas de detalhes que remetem à visualização dos acontecimentos. O próprio narrador parece estar impressionado tanto com a ousadia da protagonista quanto com os rumos tomados por suas ações. O jogo de sedução que culmina com a promessa de um carro em troca de favores sexuais e que sai do campo do desejo contido para atingir a concretização do ato físico é descrito do seguinte modo:

O que se passou em seguida foi horrível. Não é necessário saber. Maria Angélica – oh, meu Deus, tenha piedade de mim, me perdoe por ter que escreve isto! – Maria Angélica dava gritinhos na hora do amor. E Alexandre tendo que suportar com nojo, com revolta, transformou-se num rebelado para o resto da vida. Tinha a impressão de que nunca mais ia poder dormir com uma mulher. O que aconteceria mesmo: aos vinte e sete anos ficou impotente (LISPECTOR, 2016, p. 587). 

          É perceptível o desejo de não romantizar a relação entre as duas pessoas e, nessa busca de traçar um roteiro mais ou menos nelsonrodrigueano próximo aos contos de A vida como ela é e de retratar de modo cru esse mundo no qual os interesses materiais suplantam qualquer tentativa de humanização dos atos, a exploração financeira do homem com relação à mulher é ressaltada e levada, em rápidas palavras, ao extremo, quando o rapaz exige, sem meias palavras: “Sua velha desgraçada! Sua porca, sua vagabunda! Sem um bilhão não me presto mais para as suas sem-vergonhices” (LISPECTOR, 2016, p. 588).

          Em uma visão paralelística, tanto dona Cândida Raposo (do conto “Ruído de passos”), quanto dona Maria Angélica de Andrade (de “Mas vai chover”), ambas com boa situação financeira, sobrenomes de expressão social e nomes que remetem à pureza, são lembradas por homens mais jovens do fato de que devem refrear seus desejos. Porém, enquanto uma delas se satisfaz sexualmente de modo solitário, no silêncio da noite, a outra paga um alto custo para ter um homem ao seu lado e, mesmo advertida pelas amigas, prefere apostar em uma felicidade custeada por presentes e outros mimos.

          As ações típicas dos autores que seguiram a linha da literatura que explora o chamado submundo da marginalização também aparecem de modo bastante peculiar no conto “Antes da Ponte Rio-Niterói”, no qual todas as personagens estão de alguma forma envolvidas em ações espúrias ou pelo menos moralmente condenáveis. Nessa história as situações em que uma pessoa engana a outra são corriqueiras desde a apresentação das personagens, quando é dito que o pai “era amante (...) da mulher do médico que tratava da filha (LISPECTOR, 2016, p. 569) e que as relações extraconjugais eram do conhecimento de todos, contando inclusive com um sistema de codificação que funcionava da seguinte maneira: “a mulher do médico pendurava uma toalha branca na janela significando que o amante podia entrar. Ou era toalha de outra cor e ele não entrava” (LISPECTOR, 2016, p. 569).

          Lembrando o estilo machadiano, a noiva tem uma gangrena na perna e teve que amputá-la. Mais preocupado os aspectos físicos da moça do que com os sentimentais, “o noivo ter coragem de simplesmente desmanchar sem remorso o noivado, que aleijada ele não queria” (LISPECTOR, 2016, p. 569). Dando prosseguimento ao quadro de caracteres naturalista, o narrador lembra que Bastos, o noivo, mesmo quando ainda tinha compromisso formalizado vivia maritalmente como uma mulher.

A mulher teve ciúmes e enquanto Bastos dormia despejou água fervendo do bico da chaleira dentro do ouvido dele, que só teve tempo de dar um urro antes de desmaiar, urro esse que podemos adivinhar que era pior grito que tinha, grito de bicho. Bastos foi levado para o hospital e ficou entre a vida e a morte, esta em luta feroz com aquela (LISPECTOR, 2016, p. 670). 

          Em tom bastante irônico, a narração continua com Bastos surdo, tendo que suportar a própria deficiência e declarando amor eterno àquela que lhe tirara a audição. Além disso outros casos de adultério são retomados para compor a continuação da história.

          Adultério é também o tema central do conto “Praça Mauá”, no qual a protagonista é uma dançarina da boate Erótica. Seu nome é Carla e “era casada com Joaquim que se matava de trabalhar como carpinteiro. E Carla ‘trabalhava’ de dois modos: dançando meio nua e enganando o marido” (LISPECTOR, 2016, p. 670). Essa história tem também a presença de Celsinho “um travesti de sucesso [que] ouvia tudo e aconselhava. Não eram rivais. Cada um tinha o seu parceiro” (LISPECTOR, 2016, p. 670), contudo, começaram a disputar as preferências de um mesmo freguês. Embora a narrativa não culmine com cenas de violência física, é possível identificar agressões verbais a respeito não da sexualidade, mas sim da feminilidade de cada um.

          As abordagens homoeróticas são bastante exploradas por Clarice Lispector em A Via crucis do corpo, quase sempre tendo como pano de fundo cenas de triângulos amorosos entre as personagens. Além do já citado Celsinho, é bastante significativa a presença de Serjoca, do conto “Ele me bebeu”, identificado como um profissional “maquiador de mulheres. Mas não queria nada com mulheres. Queria homens”, sendo ele descrito como bonito “magro e alto” (LISPECTOR, 2016, p. 670). Dessa vez, a disputa pela posse do homem desejado se dá com a amiga Aurélia Nascimento, que, além de bonita “se vestia bem, era caprichada, usava lentes de contato e seios postiços, mas os seios mesmos eram lindos, pontudos. Só usava os postiços porque tinha pouco busto. Sua boca era um botão de vermelha rosa e os dentes grandes, brancos (LISPECTOR, 2016, p. 670).

          Mesmo contando com beleza, juventude, vivendo em um mundo de glamour e sendo desejada pelo milionário Affonso, o destaque ao longo da narrativa centra-se em sua relação de dependência com a maquiagem e em um calo que sempre lhe incomoda, mas sobre o qual ela evita falar. O narrador deixa claro o interesse mútuo entre Serjoca e Affonso, bem como o interesse do maquiador em anular a adversária a partir de um de seus pontos mais frágeis: a vaidade física.

          Além da homossexualidade masculina, o livro deixa margens também para relações sexuais entre mulheres, como ocorre no conto “O corpo”, no qual, além do triângulo amoroso entre Xavier e suas duas companheiras. As descrições cruas das atividades sexuais entre as duas mulheres, que demonstram mais interesse em satisfazer aos desejos do namorado do que em uma realização física entre elas, conforme pode ser visto no fragmento abaixo:

Às vezes as duas se deitavam na cama. Longo era o dia. E, apesar de não serem homossexuais, se excitavam uma à outra e faziam amor. Amor triste.

Um dia contaram esse fato a Xavier.

Xavier vibrou. E quis que nessa noite as duas se amassem na frente dele. Mas, assim encomendado, terminou tudo em nada. As duas choraram e Xavier encolerizou-se danadamente (LISPECTOR, 2016, p. 539). 

          O sentimento de vingança aflora entre as mulheres e elas passam a utilizar os fetiches do homem como forma de castigo contra ele mesmo, então, em determinando momento do conto as “duas fizeram amor na frente dele e ele roeu-se de inveja (LISPECTOR, 2016, p. 540).

          Contudo, dos apelos eróticos do conto, a autora também se aprofunda no tema da violência física com descrições bastante explícitas de quando, após o assassinato perpetrado por Carmem e Beatriz, “o rico sangue de Xavier escorria pela cama, pelo chão, um desperdício (LISPECTOR, 2016, p. 542). E, para fechar esses momentos em que Clarice Lispector passeia pelo submundo do crime em sua obra, vale destacar a cena da ocultação do cadáver de Xavier, que é descrita a seguir:

E, no escuro da noite – carregaram o corpo pelo jardim afora. Era difícil porque Xavier morto parecia pesar mais do que quando vivo, pois escapara-lhe o espírito. Enquanto o carregavam, gemiam de cansaço e de dor. Beatriz chorava (LISPECTOR, 2016, p. 542).

          Importante ressaltar também que nesse livro há diversas outras cenas que remetem à temática deste trabalho, ou seja, a verificação de cenas e ações das personagens que possam ser classificadas dentro dos aspectos da sexualidade e da violência: “tinha me falado de um tiro de misericórdia que dera num cachorro que estava sofrendo” (LISPECTOR, 2016, p. 555) e “Marco reagiu com um violento pontapé porque ele é homenzinho mesmo” (LISPECTOR, 2016, p. 566) entre vários outros trechos que poderiam ser destacados. O livro oferece possibilidade de muitos outros estudos abordando a condição da mulher, a velhice e outros temas (LOBO, 2007), que podem dar margens a diversos outros artigos e interpretações. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

          A via crucis do corpo, é um dos livros menos lidos e estudados da vasta produção intelectual de Clarice Lispector e aquele no qual a abordagem sexual é mais explícita, levando o leitor não apenas a um mergulho nos pensamentos das personagens, mas também em suas atitudes corporificadas, que quase sempre remetem a atos violentos e também em uma esfera menos visível do ser humano, pois devassa suas intimidades, desejos e fetiches.

          Ao longo dos contos desse livro, Clarice Lispector envolve os leitores em uma atmosfera que os leva a refletirem sobre assuntos como velhice, sexualidade, homossexualidade, adultério, prostituição, crimes passionais e outras temáticas que são mais visíveis em outros, como, por exemplo Rubem Fonseca, Patrícia Melo, Paulo Lins e José Louzeiro, que ressaltaram em suas obras o submundo social de uma marginalidade que se depara com os rigores da lei, sem contudo, aprofundarem suas narrativas no campo de um submundo mais íntimo e que nem sempre aparecem nas páginas policiais ou literárias.

REFERÊNCIAS

AMORIM, William. O amor em uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres: uma abordagem psicanalítica. 2 ed. Guaratinguetá: Penalux, 2018.

BRASIL, Assis. Dicionário prático da literatura brasileira. Rio de janeiro: Edições de Ouro, 1979.

EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

ESCORSIN, Ana Paula. Psicologia do desenvolvimento humano. Curitiba: Intersaberes, 2016.

GEBRA, Fernando de Moraes. profanas epifanias em Contos de A Via Crucis do Corpo, de Clarice Lispector. In: BURITI JUNIOR, A; GEBRA, F. M; CALEGARI, L. C; MARTINS, R. A. F. Ensaios (in)conjuntos. Jundiaí: Paco Editorial, 2013. p. 145-168.

FORTES, Sandro. Um passeio mítico pela obra de Clarice Lispector. São Luís: Fundação Municipal de Cultura, 2006.

GOMES, Renato Cordeiro. Por um realismo brutal e cruel. In: MARGATO, I; GOMES, R. C. (orgs.). Novos realismos. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012.

LISPECTOR, Clarice. Todos os contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2016.

LISPECTOR, Clarice.  A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

LOBO, Luiza. Crítica sem juízo. 2ª ed. rev. São Paulo: Garamond, 2007

NUNES, Benedito. Leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Quíron, 1973.

MEIRA, Luís. B. Sexos: aquilo que os pais não falaram para os filhos. Joao Pessoa: Autor Associado, 2002.

MOISÉS, Massaud. História da literatura brasileira: Modernismo. 10 ed. São Paulo: Cultrix, 1997.

MOSES, Benjamim. Clarice: uma biografia. São Paulo: Cosacnaify, 2011.

MOSES, Benjamim. Glamour e gramática. In: LISPECTOR, C. Todos os contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2016.

PRIORI, Mary del. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011.


[1] Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional (Uniderp), mestre em Educação (UCB), graduado em Letras Português-Espanhol (UFMA). Lattes: http://lattes.cnpq.br/5443711538608823.

[2] Graduanda em Psicologia pela Faculdade Pitágoras de São Luís. Lattes: http://lattes.cnpq.br/6514765382803709.

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