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Convidada Especial, Keila Marta. Entrevista com Marcos A. Junior, de Recife, Pernambuco

Entrevistas

29/03/2021 17h14
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Keila Marta
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Keila Marta, entrevista

Marcos A. Junior

Pernambucano de Recife, autor de quatro obras publicadas e residente em Jaboatão dos Guararapes.

Especial para o facetubes.com.br

Keila Marta: Olá Marcos, é um grande prazer conhecer com mais detalhes o teu trabalho literário. Você descreveu em nosso primeiro contato por e-mail, que em 2016 tuas produções ganharam notoriedade. Conte-nos: como começou a escrever, quais foram as principais influências e incentivos? E, qual o impacto da leitura na tua formação pessoal e profissional?

Marcos A. Junior: Olá, Marta. É um prazer fazer parte deste projeto. Bem, a realidade é que sempre tive comigo um certo apego pelas demonstrações sentimentais escritas, mesmo não dando tanta importância para tais descrições no passado. A partir do final do meio do ano de 2015 dei início à minha página no Facebook, com o intuito de fazer com que minhas palavras fossem um afago para quem precisa, mas que também pudesse levar um pouco da minha percepção acerca do comportamento humano presente nas relações humanas. No âmbito literário, propriamente falando, no caráter de eternizar-me em páginas, no ano citado na pergunta é que tive a minha primeira obra publicada (Herbert Flinch – O Manipulador de Sonhos), incentivado por alguém vivo em meu passado sentimental. A partir daí, me encontrei cada dia mais na arte de escrever a realidade e a fantasia viva em cada ser. Quanto ao impacto da leitura, tenho um fato bem interessante e bastante curioso. Durante minha adolescência, época em que somos “obrigados” a ler, nunca tive o hábito de consumir a literatura. No ensino médio, concluí a leitura de apenas uma obra, “A droga de obediência”, de Pedro Bandeira. Na realidade, “gastei” os primeiros anos da minha juventude em tentativas de normalidade, negando o “poder” vivo em mim e buscando o mesmo que muitos, me formando em dois cursos distintos. Porém, após um acidente ocorrido em minha vida, tive os caminhos estreitados e as letras fizeram-se vida em mim com um ímpeto gradual e indescritível. 

Keila Marta: Como se sabe, de modo em geral a literatura sobrevive numa estrita relação, entre o glamour das grandes editoras e o amadorismo dos autores independentes. Quais foram os maiores desafios para conseguir publicar o primeiro livro?

Marcos A. Junior: É complicado conceber tal diferença entre glória e infâmia, porém, o tempo nos dá a sabedoria necessária para compreender que não há vitória sem o primeiro passo, por mais difícil que ele seja. É inconcebível, e totalmente deprimente, pensar em tal desigualdade gritante, mas não posso me dar ao luxo de “invejar” os autores de best-sellers (pessoas que tem um suporte gigantesco e um poder aquisitivo milionário, sem tirar o mérito de cada um deles, pois ninguém vai ao topo sem uma mínima glória). Sabemos que, em um país onde a educação, ou falta dela, é utilizada como uma âncora política (e esta puxa o mercado, visando unicamente o capitalismo exacerbado das partes), a literatura torna-se refém das pequenas, e cada vez menores, o que é totalmente contraditório, plateias. Porém, mesmo com tantas adversidades, para um escritor/poeta, escrever está vivo em suas necessidades básicas, tal qual respirar. Se limitarmos a própria existência à normalidade, fingindo não enxergar a vida de uma forma que, ao menos aparentemente, os demais não conseguem, merecemos o sofrimento a nós proposto. Ser escritor, para mim, e acredito que para muitos colegas de profissão, está muito além do que igualar o conceito de sucesso aos demais. É sobre elucidar os mentalmente ébrios e expor diversas formas de pensar além da regularidade.

Keila Marta: Assistindo a uma reportagem, escutei uma fala de Mário Quintana que diz: “o verdadeiro poeta não lê os outros poetas, lê os classificados dos jornais, o lugar certo para aprender o sentimento do povo”. Concorda com Quintana? Qual o tempo você reserva a leitura de outros autores?

Marcos A. Junior: Acredito que o meu pensamento é exatamente igual ao de tal poeta clássico, mas de forma autoral, pois realmente não tenho o costume de ser um voraz leitor. Não utilizo da literatura como exemplo. Apenas o faço por entretenimento. Acredito que nós, humanos (ao menos os que buscam evolução pessoal e profissional incessante), temos o dom de aprender com tudo o que admiramos. Logo, após leituras intensificadas de várias singularidades literárias, acabamos por copiar o que é feito por nossos “ídolos”, o que faz com que os escritos se tornem meras repetições, da forma de pensar à estética, deixando de lado um critério que acredito ser extremamente relevante, a individualidade. Acredito ser muito fácil, às vezes até desestimulante, ao menos para mim, seguir por caminhos já antes percorridos. Sim. É importante que conheçamos, ao menos de uma forma mínima, alguns monstros literários, mas, em contraponto, visto toda a mudança ocorrida, não só na parte ortográfica, mas também das necessidades da sociedade como um todo, acho imprescindível que as experiências únicas sejam repassadas da forma mais particular que exista, pois não sabemos quem será atingido pelo cupido de nossas letras.

Obras de Marcos A. Jr.

Keila Marta: Escritor de romances, crônicas, minicontos e poesias. Como é trabalhar com essa diversidade de gêneros, existem diferenças no processo de escrita de cada um?

Marcos A. Junior: É interessante ter a ousadia e conhecimento para poder abordar tantos gêneros literários em livros, contos ou poesias. É engrandecedor ser tão pluralista porque faz com que as escritas estejam sempre se renovando, livrando a mente da inércia funcional. Acredito que cada livro é a representação de um momento da minha vida, o que prova que as experiências são tão diversas que são capazes de encantar, independente do que desejo que seja abordado na obra. É interessante porque cada livro é uma ideia inexplicavelmente concebida, só basta que acreditemos para que seja transformada em “realidade”. Cada linha é um momento que traz algo tanto para quem lê quanto para quem a escreve e suas concepções ocorrem de maneira distinta. Uma fantasia fantástica, ao ser contemplada, não tem o mesmo processo de uma obra poética, pois poesias simplesmente “acontecem” na mente, sem uma explicação, sem um sentido a ser seguido. Um romance narrativo tem uma lógica a ser seguida, pois trata-se de uma estória corrida. São tempos distintos. A grande diferença é a atenção voltada a cada projeto, unicamente pela necessidade diferente de cada escrito, pois o sentimento do que deve ser passado vibra com a mesma intensidade.

Keila Marta: Hoje, o digital é sem dúvidas o maior espaço para os mais variados tipos de negócios e no meio literário não é diferente. Como você utiliza as redes sociais para impulsionar o teu trabalho?

Marcos A. Junior: Negar a evolução é algo totalmente desgastante (e extremamente burro). Acredito que as tecnologias tanto ajudam quanto atrapalham, mas, em períodos como este o qual vivemos, em que a pandemia impossibilitou o toque e as aglomerações, aproveitamo-nos dos benefícios oferecidos. É óbvio que ainda existem pessoas que têm aquele velho costume de cheirar o livro, presos ao prazer original de dar um gole de café enquanto passa as páginas, um sentimento mais palpável, mas é impossível negar que a tecnologia, assim como qualquer outro caráter, tem os dois lados. Infelizmente, observando do ponto de vista financeiro, devido às possibilidades de “auto publicação” em plataformas gratuitas, torna-se ainda mais oneroso conquistar o público, devido ao alto número de “concorrentes”, mercadologicamente falando. Já do ponto de vista de dissipação das próprias propostas é extremamente gratificante ter obras lidas e divulgadas em todo o Brasil, o que ajuda difusão da marca, seja em qual for o estado. Eu utilizo as redes unicamente para divulgação, sem postagens pessoais. Acredito que seja importante ir galgando, aos poucos, pois tudo o que vem rápido demais, vai embora na mesma velocidade, o seu espaço na vida de cada um dos leitores. As técnicas utilizadas são as disponibilizadas, como impulsionamentos pagos, divulgação de contos por e-mail e o conceito bem definido de que o destino pode demorar, mas nunca falhará.

Keila Marta: O teu mais recente livro de poesias, “Elas por ele” foi publicado no ano em que muito se falou da falta de mercado e reconhecimento para com os poetas, em contrapartida o Nobel de literatura foi para uma poetisa não famosa, e ontem 26 de novembro, o livro do ano pelo Prêmio Jabuti, foi de poesias, “Solo para Vialejo” da escritora pernambucana Cida Pedrosa. Como você observa esse cenário e qual a repercussão de sua publicação em 2020? Poesia é vendável?

Obras de Marcos A. Jr.

Marcos A. Junior: A grande questão em volta da poesia é que ela não é uma “receita de bolo”, assim como um livro de autoajuda, onde as “respostas” são tratadas como unicidade (o que é totalmente inconcebível, pois cada caso é um caso). As particularidades devem ser exaltadas e não padronizadas, como se só existisse um modo para encontrar sucesso e felicidade. Tais conceitos são amplamente diversos. Livro-me do pensamento ortodoxo capitalista de que temos que seguir uma cartilha e isso nos fará alcançar os objetivos. Meus sonhos são diários. Transformo cada dia em uma eternidade, pois não acredito que seja viável, psicologicamente falando, viver em prol de um futuro que para nós, humanos, está aparentemente cada vez mais distante. A cada dia mais estamos aprendendo e reconhecendo a importância das breves vinte e quatro horas. Fiquei muito feliz pela vitória, mas apenas pela amostra de que sim, o nordeste tem muita gente de qualidade e que pode alcançar andares mais elevados, mesmo com todas as dificuldades, tanto as já conhecidas como as do cenário literário, porém não a conheço pessoalmente. Acredito que este livro foi um dos quais mais tive prazer diário em tecer. Atesto isso pois recebi muitos elogios das leitoras que adquiriram tal obra pela veracidade exposta em cada verso. Quando me perguntam se obras desse gênero são financeiramente viáveis, respondo com um breve gatilho de reflexão: “Quando a glória estiver viva unicamente na consequência do que é feito, encontre outro caminho, pois o percorrido não lhe serviu de nada.”.

Keila Marta: Marcos você é pernambucano de Recife, e como se sente em saber que o mais importante prêmio da literatura nacional foi para uma conterrânea?

Marcos A. Junior - Como atestei no questionamento anterior, é extremamente satisfatório saber que alguém que tem o mesmo cenário base que eu, no mesmo ramo, apesar de vários anos à frente em tal carreira, conseguiu alcançar uma glória tão imensa, mesmo não conhecendo-a pessoalmente. A felicidade é de ver que, por mais que tenhamos dificuldades aparentemente mais atenuantes que outras regiões, principalmente na questão de não ter muitos “olhos” nos seguindo, tendo que buscar propriamente espaço nacional, nós podemos sim ser notados e não há esperança maior que essa.

Obras de Marcos A. Jr.

Keila Marta: Escrever poesias é sem dúvidas muito gratificante, e como é esse gostinho de ser poeta?

Marcos A. Junior: Escrever um poema é aceitar que o amor faça vida em nós por algumas poucas letras. É indescritível a experiência de tecer um verso em que pessoas possam encontrar-se. É como ser ter as batidas do próprio coração vibrando na exata frequência que o de uma leitora. É conseguir encontrar graça até mesmo na própria dor, como se aquilo sendo “exposto” fosse um grito de socorro e cada palavra lida e interpretada um fôlego a mais para esta árdua batalha que é viver intensamente os sentimentos. É ler a alma até de objetos inanimados. Encontrar explicações para o inexplicável e sentir-se intenso em cada novo coração alcançado.

Keila Marta: O que espera do futuro para a literatura? Quais os teus sonhos?

Marcos A. Junior: Costumo não fazer planos gigantescos, ter predefinido um desejo que me pulse além da própria sanidade. Acredito que a literatura, não só como entretenimento, seja a saída para uma sociedade mais justa e equivalente. Porém é necessário que haja uma “aceitação”, como acontece em grupos de desintoxicação mesmo, individual para que as pessoas possam perceber que a educação e a fuga das “caixas mentais” são os únicos modos de evolução individual e, em consequência, da sociedade como um todo. Penso que as mudanças não acontecem de uma hora para a outra, mas espero estar vivo para ver minhas palavras mudarem a vida de ao menos uma pessoa, nem que seja a minha (meu sonho já está realizado).

Keila Marta: Que pergunta não fiz, que gostaria que fosse feita. Pode deixar uma mensagem de incentivo para os jovens que sonham seguir na carreira de escritor.

Marcos A. Junior: Primeiramente, gostaria de agradecer a oportunidade dada. É sempre muito gratificante ter nossas palavras ganhando atenção. Acredito que a entrevista está completa no que foi preparada para ser. Não há nada que seja mais efetivo que a própria naturalidade. A única mensagem que tenho para jovens que sonham com a mesma carreira é que, se você foi agraciado com tal dom, acredite em si, pois não há como nada acontecer sem que a própria fé seja a mais elevada possível. As escolhas que fazemos podem até ser as mais difíceis de serem compreendidas, mas não há prazer maior que ter propriedade nas consequências. Por mais que o mundo pareça agir contra, sonhos são bolhas que blindam os nossos amores. Tenham fé no que fazem e consciência de que mentes diferentes levam a caminhos distintos, mas não menos gloriosos. Utilizem o dom que acreditam ter como propulsores dos próprios passos, não como âncoras da felicidade. Enquanto estiverem resguardados pela própria consciência, encontrarão sentido para seguir sendo verdadeiros em alma.

 

Keila Marta.

Keila Marta 

(*) imortal – APB, Crítica de arte e analista literária, graduada em Pedagogia - UNOPAR e Letras Língua Portuguesa - UEMASUL

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