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Especiais VICEVERSA

Entrevistas exclusivas em novo formato: Daniel Blume/Mhario Lincoln/Daniel Blume

"E aí, a página vira um lugar onde me sinto autorizado a transformar recibo em poema". Daniel Blume.

13/04/2021 11h36 Atualizada há 3 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Facetubes
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VICEVERSA: DANIEL BLUME/MHARIOLINCOLN/DANIEL BLUME

MHARIO LINCOLN (01): Agarrando-me a sua sensibilidade poética, bem como sua capacidade de pensar no âmbito da ciência do Direito, em qual das duas situações, pesaria muito mais uma decepção interior?

DANIEL BLUME - Penso que, pela margem do Direito, o confronto é com a realidade que precisa ser balanceada. Nessas relações, não tem evasão, nem desabafo, mas imersão em uma racionalidade argumentativa que desmascara perfis na maioria das vezes decepcionantes. Porque nesse âmbito, a despeito da justiça que se tem como ideal, há pesos e medidas em uma teia de interesses de fios que precisam ser puxados e outros que têm que ser cortados. É a guerra do nó da gravata. Ainda bem que tem o desatar dos nós como alívio. É como se a poesia me desse, nesse meio processual, o direito de chorar o mundo que se bebe em cada causa e de me divertir com as personagens risíveis com que me deparo. Descarrego pela sensibilidade poética o fardo da balança.

 MHL (02): Nascido na década de 70, acredito que nos anos 90 você já estava bastante envolvido com a biogênese literária nacional, na chamada revolução dos novos. Nessa época, fervilhavam, por exemplo, nomes como Bernardo Carvalho, ganhador do Jabuti em 2004, com o romance Mongólia, Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar e Nélida Piñon. Pois bem! De lá para cá, o que realmente evoluiu na literatura brasileira?

DANIEL BLUME - Não vejo muito essa ideia de evolução quando se trata de literatura. Há períodos mais férteis e fico aqui a pensar se a questão é a existência de bons escritores ou de bons editores. Porque a escrita é como água que precisa jorrar dos mananciais. É um tipo de lágrima que nos escorre. E aqui fico imaginando quantos livros escritos há que nunca foram publicados. Entre todos esses, há aqueles que publicam seus livros como se colocassem mensagem dentro de uma garrafa e a lançassem ao mar esperando que alguém leia, pelo necessário ciclo da linguagem que vem do outro e a ele precisa retornar. 

MHL (03): Há uma tendência muito grande – após o 'boom' das redes sociais – de entidades particulares criarem, em lastros pequenos de tempo, dezenas de academias de letras, música, arte. Será que tal ascensão se deve à rigidez da ampliação das Casas Literárias Oficiais, ou da emersão de uma elite cada vez mais específica de intelectuais?

DANIEL BLUME - Penso que o que você esteja considerando rigidez das Casas Literárias Oficiais seja o que eu considero tradição. Por um lado, são casas centenárias criadas aos moldes de outros tempos, que trazem seus rituais, seus objetivos e finalidades de preservação do que precisa ser imortalizado como patrimônio memorialístico local. E não podemos nos perder disso. Mas, por outro lado, não podemos negar as evidências de nosso tempo. Nosso modelo de cidade é próprio do século XXI. A palavra de ordem é reinventar. E a multiplicação das tribos e das relações entre elas em redes sociais é o que temos à nossa disposição. O impacto na logística cotidiana é incrível. Os espaços restritos das academias, que sempre foram reservados para poucos - que nos pareciam os únicos - ganha voz nessa reinvenção suportada pela tecnologia. A convivência presencial não pode terminar aqui, neste momento, mas há, nesta realidade tecnológica, novos paradigmas para as relações comunitárias e institucionais de toda ordem que vão impactar o tempo diário e, em decorrência, todas as áreas de relações da vida, inclusive a literária, a cultural, a intelectual. E que essa intelectualidade se prolifere e tome corpo em um mundo com mais qualidade de vida.

 MHL (04): Geralmente os poetas falam de Vida, de Morte, de Amor, de Perdão, de Tristeza, de Paixão. Afora tais embasamentos, o que a vida lhe tem proporcionado até agora, quando a parábola do tempo/espaço já caminha para a volta do vento centenário?

DANIEL BLUME e Mhario Lincoln.

DANIEL BLUME - Bom, esses temas são da natureza da angústia que precisamos para “murmurar muro”, “chorar papel e pó”, “meditar relva”, conforme me ensinou nosso poeta Chagas. Mas, nessa virada da maturidade, a vida tem me proporcionado o risível. Escrever caricaturas, de certa forma, tem me divertido. Porque alguns tipos são muito engraçados. E aí, a página vira um lugar onde me sinto autorizado a transformar recibo em poema. Minha mãe sempre lia pra nós um texto que ensinava a transformar uma dor, uma raiva, uma tristeza em história. Isso é bom porque acontece a troca. No meu caso aqui eu realizo a troca: fico com o riso que depois vira poema.

MHL (05): Todos que debulham a literatura no Maranhão se sentiram devidamente representados, além de orgulhosos, por sua participação meritória no ‘Salão do Livro de Genebra’, na Suíça, considerado um dos eventos literários mais importantes e prestigiados do mundo. E foi lá que sua obra “Resposta ao Terno” (poemas), ganhou o mundo, em simultâneas traduções para o italiano e o francês. Fale-nos sobre.

DANIEL BLUME - “Resposta ao Terno”, eu considero um livro que me trouxe uma sensação de liberdade. Mesmo em alguns momentos eu tendo que “murmurar muro”, vivi esse tempo de escrita sendo rondado pelo risível. E esse tempo culminou com esse momento a que você se refere: ‘Salão do Livro de Genebra’. Coloquei a mensagem na garrafa, joguei ao mar e ela atravessou o Oceano. Inesquecível. 

MHL (06): Você integra um dos clubes literários mais importantes do Planeta. O “Pen Clube”, com sumidades intelectuais em seu bojo. Ao ler a Carta de Princípios do PEN Internacional, é ratificado que a literatura não deve conhecer fronteiras e deve permanecer patrimônio comum dos povos a despeito dos conflitos políticos e internacionais. Acerca deste último princípio, qual a sua posição, quando se pensa ‘Brasil”?

DANIEL BLUME - Eu não tenho dúvidas de que o Brasil exerce com excelência esse movimento de pertencer, por meio de sua obra, ao patrimônio comum dos povos. A despeito de todas as crises o Brasil tem alma que pulsa à flor da terra. Para mim é uma honra integrar um dos clubes literários mais importantes do Planeta: O “Pen Clube”. 

MHL (07): Estamos vivenciando uma verdadeira revolução no que concerne a livros e produções artísticas como um todo. Várias hiperestruturas editoriais e comerciais desabaram. Perdemos muito nos últimos 5 anos (independentemente do alastro pandêmico). Há solução para o mercado? Quais os possíveis rumos que o autor deverá tomar diante dessa hecatombe artístico-literária?

DANIEL BLUME - O que desaba não é necessariamente uma hiperestrutura, mas aquela que ainda não se reinventou. Elas desabam aqui e reaparecem ali com outros nomes, outras logísticas, mas é inerente ao homem digerir a vida por meio de suas produções artísticas. É preciso deixar passar a revolução para entendê-la melhor.

MHL (08): Você tem se envolvido em algumas eleições para a Ordem dos Advogados, seccional do Maranhão. Tem emitido opiniões políticas, tem participado de movimentos populares, especialmente os que dizem respeito a classe de advogados. Tais participações podem influir, ao final, na produção poética, já que há, de sua autoria, um livro de poesias pertinente intitulado “Penal”, onde o advogado e o poeta se misturam de forma elogiável, como se vê: “Violência que penaliza a população apavorada, nos largos, restaurantes, cinemas, nas esquinas, casas, escolas, praças, sinais. // (...) Seca a pena, os olhos não”. Influi ou não?

 DANIEL BLUME - Influi e é uma via de mão dupla. A poesia reverbera em todas as áreas da minha vida. Decidir participar de um pleito, qualquer que seja ele, é uma decisão movida pela poesia que me coloca numa dimensão para além da prática em si, e me move pela crítica à realidade que é pensada e é sentida. São os indissociáveis nós que carrego. E aprendo com o poeta Chagas ora a “chorar papel e pó”, ora a me posicionar por meio de escolhas que faço diante da realidade. São essas duas vias que se cruzam na minha maneira de estar no mundo.

 MHL (09): “Leitor voraz”. Conheci suas obras a partir desse título publicado em algum lugar no passado. Então, como controlar tempo/espaço/labuta e entretenimento? É necessário abrir mão de algo, vez por outra ou não?

DANIEL BLUME - Conciliar é meu maior desafio. Mas sem sofrimento. Tem tempo que escrevo mais. Tempo que leio mais. Tempo que trabalho mais. E, como amo tudo o que eu faço, não tenho nenhum problema em atravessar a madrugada fazendo qualquer dessas coisas.

MHL (10): Uma grande atriz brasileira, entrevistada por um canal de TV, acabou confidenciando que ao procurar certos empresários de sucesso, alguns gerentes de importantes bancos e afins, ficou decepcionada em função “da maioria deles não saber absolutamente nada sobre grandes peças e grandes autores de teatro”. Decepcionou-se! Então, no momento das leis de incentivo, aprovado o projeto, sempre há uma correria para viabilizá-lo através da arrecadação de recursos. Isso funciona? Ou a dificuldade em angariar recursos acaba sendo muito mais difícil do que simplesmente a aprovação do projeto? 

DANIEL BLUME - Quanto aos recursos, essa é uma questão política e econômica que precisa ser mais artística. Agora quanto à atriz, penso que ela não precisa se decepcionar com os homens que não são muito atentos ao teatro. Tem mulheres que não devem admirar os que gostam de poesia. Outras que preferem os que leem romances. Outros que preferem dançar. Acho que aí a questão não é o teatro. É ela... (risos).

(Obrigado Blume por esta oportunidade ímpar de conversar com você).

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DANIEL BLUME/MHARIO LINCOLN

VICEVERSA

DANIEL BLUME (1): E o poeta Mhario Lincoln acha que a poesia é propícia para aliviar o peso que tem que carregar na vida diária ou serve para intensificar as dores da vida?

MHARIO LINCOLN – Como me falou o poeta João Batista do Lago: “a poesia é!”.  E eu completo: a poesia integra meus ais e meus mais puros sentimentos. Integra meu corpo físico e etéreo: períspirito, cabeça, tronco e membros. Faz-me andar, pensar, brigar, sofrer, sorrir, amar, odiar e gritar. Faz-me viver. A poesia é! E nunca deixará de ser.

DANIEL BLUME (2): Você tem algum poema ou algum texto ou mesmo algum livro que, por algum motivo, permanece engavetado?MHL – Sim. Apesar de ter demorado um pouco para publicar meus dois livros de Direito, “Teoria e Prática do Inquérito Administrativo” e “Acumulações Remuneradas de Cargos e Funções Públicas”, meu romance “O Maria Celeste”, fruto de 25 anos de rigorosa pesquisa, ainda permanece em minha intimidade. Esse livro conta a história da explosão do bólido cargueiro, à entrada da rampa “Campos Melo’, em São Luís, Maranhão. E por que não publiquei ainda?  Acho que por um certo egoísmo: compartilhar algo que faz parte de mim. Algo muito pessoal e intransferível. O livro tem quase 700 páginas e dezenas de personagens. Um trabalho histórico contando com detalhes como respirava São Luís pós-acidente, em 1954, o ano em que nasci.  Continuarei pensando....

DANIEL BLUME (3): Entre todos os poemas que você já escreveu, qual deles lhe proporcionou realizar essa troca a ponto de conseguir olhar com mais indiferença um sentimento que vinha sendo guardado vida afora?

MHL – Dois poemas épicos marcaram minha ‘intuição’ lírica. Um, o que escrevi sobre meu pai, advogado José Santos, premiado em Portugal. Foi recitado por Luís Gaspar, o mesmo poeta e militante cultural pioneiro na montagem do ‘Estúdio Raposa’, um dos maiores repositórios de voz e verso do mundo, com sede em Lisboa. O segundo, “A Cigana do Flamenco”, também premiado e que gerou a música “Amanhecer”, de meu primeiro CD de músicas instrumentais, em parceria com Chiquinho França, esse extraordinário músico maranhense. Talvez por isso, não consegui ‘olhar com indiferença’ meus sentimentos guardados vida afora. (Risos).

DANIEL BLUME (4): Deu curiosidade de saber, de sua experiência, algum momento marcante e inesperado de um encontro com alguém que encontrou sua mensagem em algum mar, e reverenciou sua poesia? Um fato que se tornou um acontecimento na relação com seus leitores. Porque, pra mim, foi muito importante, mas não sei se foi o mais marcante, minha participação na feira do livro de Genebra.

MHL – Quando lancei o livro INA - A VIOLAÇÃO DO SAGRADO, sobre o afundamento do terceiro maior graneleiro do Mundo, o Hyundai New Word, na década de 90, com apoio incondicional das empresas marítimas do Maranhão e, em especial, do meu padrinho – nesse empreendimento – Mario Flexa Ribeiro, de saudosa memória, provei desse gostinho internacional. Como o livro versava sobre o acidente, mas com uma conotação Mística, Jornalística e Legal (com resultados do processo marítimo, devidamente autorizado), a terceira edição ganhou parte da Europa e Ásia (o navio tinha bandeira coreana) e chegou a ser resenhado em meios de comunicação da Inglaterra, (INA- THE VIOLATION OF THE SACRED), THE DISASTER WITH H.N.W REINFORCED THE OFFICIAL IDEA OF CARE FOR THE ENVIRONMENT, por: Kenard Malonny / Redator da “Truste Information”/ London/England. (...)”. A segunda, sem dúvida, mais atual, foi ter sido escolhido para integrar uma das cadeiras do Centro de Letras do Paraná, uma das mais antigas instituições literárias do país, fundada em 19 de dezembro de 1912, com intelectuais da estirpe de Euclides Bandeira e Emiliano Perneta. Detalhe: foi desse centro que saíram os fundadores da Academia Paranaense de Letras. Por outro lado, mais orgulho ainda em saber que, no momento, sou o único nordestino pertencente aos quadros do CLP. Muito orgulho!

DANIEL BLUME (5): Como fazer para dar voz a tantas “sumidades intelectuais” que não fazem parte das academias, ou clubes ou agremiações e que estão no anonimato, guardando preciosidades que não teremos a oportunidade de ler?

MHARIO LINCOLN  e Daniel Blume.

MHL – Sabe aquela historinha do beija-flor tentando apagar o incêndio da floresta? Pois é! Se cada um de nós conseguíssemos pensar um pouquinho nos outros, isso poderia ser altamente minimizado. Acho ter feito a minha parte ao criar a Academia Poética Brasileira, entidade sem fins lucrativos, pois não tem taxa de inscrição, mensalidade, anuidade, pagamento por diplomas, medalhas e botons. A partir daí, tornou-se viável, oficialmente, o ingresso de novos nomes, independente de raça, cor, religião ou ideologias, cujos talentos são visivelmente latentes. Destarte, na APB, passaram, esses, a ver seus trabalhos na arte, na literatura e na música, amplamente divulgados. A Academia Poética Brasileira conta hoje com uma vasta e importante rede de comunicação, no Brasil e no Exterior. São portais no Facebook, Instagram, WhatsApp, além da aplaudida e premiada plataforma www.facetubes.com.br, com mais de 15 mil acessos semanais, oficializados pela Google Analytics (por contrato comercial), uma Radioweb e um canal de VídeosTV. A ideia surgiu num encontro, em 2017, em Curitiba, entre a poeta do Século XX, Clevane Pessoa (Minas), eu e o ex-presidente do IHGM, professor Edomir Martins de Oliveira. Depois criamos uma representação internacional para artistas brasileiros morando em outros países. Foi escolhido Humberto Napoleon Varela Robalino, também poeta do Século XX, residente em Quito/Equador, para ser o vice-presidente internacional de nossa instituição. A APB tornou-se nesses poucos anos, uma grande realidade, contribuindo com o engrandecimento de pessoas simples, mas de imenso talento. Tudo isso, sem nenhum custo, porque o verdadeiro talento não tem preço e nem espaço para gestores egóicos.

DANIEL BLUME (6): A gente olha pra frente e, mesmo que muitos já vislumbrem um “novo normal”, você já consegue pelo menos imaginar “esse novo normal normalizado”? (risos)

MHL – (Risos). Com certeza. Passei algum tempo estudando esse assunto e cheguei a uma conclusão inusitada. Isso porque tenho uma ideia diferente sobre a questão.  Peço vênia ao ilustre amigo, destarte, para explicitar minha ideia, me prendendo, apenas, ao aspecto pedagógico. Dito isso, confesso não acreditar que a Pandemia venha realmente ensinar à grande parte da humanidade, alguma coisa que já não sabia ou que, por relaxamento, deixou de saber. Para mim, se torna difícil acreditar que quaisquer que sejam os tipos de sofrimentos humanos, possam vir a ensinar algo melhor; a não ser, suposições ou elucubrações. Nem os Terremotos e Tsunamis, nem mesmo as barbáries da II Grande Guerra, da Escravidão, Genocídios e de outros exemplos alarmantes, tiveram influência na maioria da Humanidade, fazendo-a amar mais, doar mais, compreender mais. Assim, nenhuma forma de sofrimento coletivo deveria ser um exemplo de ensinamento, apesar de a grande mídia minar isso em cima de almas inocentes.  Vale, então, perguntar: o que realmente aprendemos, enquanto humanos?

DANIEL BLUME (7): A sua poesia é alimentada e retroalimentada de forma mais visível, mais perceptível, por qual área de sua vida?

MHL – Com vênia, vou responder pegando carona na cauda de um outro cometa porque acredito que os seres viventes são resultados de reencarnações seculares, produtores e receptores de energia cósmica, parceira de almas, ao longo dessas idas e vindas pelo Universo, incorporando experiências, aprendizados, memórias e emoções. E essa energia, ampla e valorosa para cada ser humanoide, se chama registro akáshico, responsável pela vibração entre o ambiente de conhecimentos cósmicos e cada indivíduo. Eu sempre digo que não crio absolutamente nada. Tenho consciência absoluta do meu processo de criação. Tudo começa em sinapse, no momento em que recebo algum registro akáshico, isto é, minhas memórias e experiências anteriores se juntam para corroborar diretamente com o meu pensamento, qualificando-o (ou desqualificando-o) dependendo da necessidade do tema a ser impresso no produto final. Um exemplo simples: quem não já passou por momento de ‘Déjà vu’? É assim em meu processo de criação, o que me leva a crer que não sou eu, mas vários ‘eus’ que se juntaram para produzir minhas poesias, músicas, textos jornalísticos, frases, contos; ou o que for ‘perene’, no momento, e de acordo com minhas habilidades. Por isso, quando alguém impoluto diz “eu fiz isso ou escrevi aquilo”, com certeza nem conhece o seu próprio processo de criação.

DANIEL BLUME (8) Acontece de chegar um poema quando você está no meio de uma multidão? Como você faz para não deixar a ideia escapar?

MHL – Mesmo com esses registros akáshicos, atualmente, com meus 67 anos, nem sempre minhas habilidades e a minha rapidez de absorção estão mais ao meu serviço. (Risos). Por isso, essa energia (criativa) está menos rápida na última dezena de vida. Cada dia, preciso mais da meditação. E isso tem acontecido comigo na primeira parte do sono, chamada cientificamente de etapa do adormecimento. Este é o meu período mais fértil.  Desta forma, nessa etapa, tem acontecido de serem meus insights mais compensadores, duradouros. Inclusive, debatedores, quando há um diálogo, com obrigatoriedade elucidativa, entre minha consciência livre e minha razão. Dessa forma, essas ‘alucinações’ poéticas acabam se tornando tatuagens permanentemente equilibradas, à vitrine de minha produção, para quando se fizer necessário. Acho que é isso! 

DANIEL BLUME (9): Ouvi uma conhecida dizer que ela descurtiu um cara só porque ele gostava de poesia. Tem alguma forma de o poeta se defender?

MHL- A poesia é! Ela jamais deixa de ser. Poesia é algo muito parecido com alma. Mas alma fluídica, inteligente. energizada. Porém, quando 'alma' é confundida com lendas de fantasmas, dá esse tipo de medo, como nessa infeliz leitora de redes sociais. Mutatis Mutandi, cabe aqui ampliar o estudo relacionado entre a poesia e as redes sociais. Nas minhas pesquisas ao longo desses anos, percebi que as redes virtuais são ferramentas indispensáveis ao fomento artístico no mundo, dentro do que costumam falar de ‘concepção pós-moderna’. Ao contrário do exibido pela citada leitora, há um imenso interesse do público pela poesia nas mídias sociais. Não há porque alguém se desplugar de um amigo virtual por esse emitir conceitos líricos. O palco da internet tem sido importante para dar vazão à imensa produtividade humana, antes represada ou dependente de editoras ou filantropos. Novos escritores surgiram do anonimato, ratificando um gênero que eu chamo de poesia virtual, sem necessidade de livros físicos, lançamentos físicos, divulgação tradicional em revistas, jornais ou livrarias. São poetas virtuais, usando a força da internet como trilho para abordagens mais amplas e visibilidade cadenciada e crescente. E para o poeta renegado da pergunta, em cima, deixo o pensamento do grande Guillaume Apollinaire, escritor e crítico de arte francês, para mim, o mais importante ativista cultural das vanguardas do início do século XX: “O poeta é aquele que inventa novas alegrias, ainda que difíceis de suportar”.

DANIEL BLUME (10): O silêncio pode ser matéria de jornal?

MHL – As matérias silenciosas de jornais são hoje mais abundantes do que se pode pensar. Estão aí, alinhadas ou desalinhadas com circunstâncias sócio-político-econômicas inacreditáveis. Existe o que eu chamo de silêncio mimetista. Permita-me caro Daniel Blume, focar nesse aspecto, com excelência. Isso porque, em várias ocasiões em que vivi o jornalismo diário por 45 anos, observei a diluição proposital do papel da informação, provocando graves ausências de opinião e lealdade ao texto, deixando confusos quem interagia com as tais publicações. Esse é o pior silêncio da grande imprensa, infelizmente, em ebulição constante e crescente. O silêncio deixa de ser algo etimológico, romântico e poético, para se transformar numa poderosa arma de contrapontos perigosos. O simples fato de a empresa jornalística não cobrir determinados eventos públicos importantes para o desenvolvimento da ideia básica da comunidade, é um silenciamento perverso. Pois o que se deveria fazer, no entretanto, era divulgar e questionar os fatos, dentro de uma imparcialidade digna do jornalismo independente. A sociedade ao entorno desse silêncio, infelizmente, se sente, de certa forma órfã e perde significativamente em gênero, número e grau.

(Muito obrigado meu amigo. Você tornou-me útil ao responder tão inteligentes questionamentos).

Mhario Lincoln, Curitiba, 10.04.2021.

 

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