A TESOURA DE PODA E A ROCA
Joema Carvalho
Algum mistério há em uma roca, nos trabalhos manuais. O que está oculto caminha no sentido do jardim, guiado pela tesoura de poda que no Tempo e O Vento, também fazia os partos.
Estes objetos conectam espíritos unidos por sangue. Gens em espiral do tempo trafegam pelo nosso sagrado. Registra-nos com características de nossas antepassadas.
Ervas de cheiro que seguem de casa em casa, como se fossem uma forma de benção que entrega proteção a quem recebe.
No ponto cruz, desenhos e texturas compõem uma colcha que dura décadas. Depois de anos, a admiração e o encantamento segura aquele pedaço de pano. Ativa o tato e para pôr um tempo. Sente o toque, o movimento dos dedos que envolve aquele trabalho. Tentativa de entender como fora feito. Busca de como uma história ficou marcada no caminho daqueles pontos unidos por nossas ancestrais.
Os trabalhos seguem através das gerações como se fossem cordões umbilicais, unindo netas e avós em uma mesma sentença.
Pé da rosa bordô, textura de seda e sombra negra nas pétalas da Dama-da-Noite, no seu galho, a trama dos trabalhos manuais. Espinhos que sangram as dores das mudas transferidas pelo tempo. As flores, as dádivas da beleza e dos aromas entre as gerações, poder da cura. No seu cálice o carrossel de uma mandala que nos leva para longe. Os brotos desta flor estão espalhados em algum canto da alma, no centro do corpo cardíaco, a eterna busca dos seus rebentos. Quando menos se espera, expande-se nos novelos que escorregam pelo chão, próximos das nossas raízes e brotam.
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