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Brasil COLETIVA DE MAIO

A história da artista Susana Pinheiro. Um exemplo de que na arte, nada pode desanimar o obreiro

Matérias especiais

04/06/2021 16h26 Atualizada há 1 semana
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Susana Pinheiro
Susana Pinheiro
Susana Pinheiro

CRÔNICA NARRATIVA

Susana Pinheiro*

Uma vez na Coletiva de Maio

Esta é uma história que pode acontecer com qualquer artista. Aconteceu no passado, e ainda pode acontecer, inclusive agora mesmo e com qualquer um, o que difere de ser justo ou não.

A Coletiva de Maio era um evento anual, acontecia na minha cidade natal, São Luís, MA, no Convento das Mercês na década de 90, em meados do mês de maio. Tinha como propósito inicial, reunir os trabalhos de artistas e mostrar à sociedade, a produção de arte feita naquele período. Enquanto durava a exposição, minicursos e oficinas de teatro com artistas de outros estados, eram oferecidos.

A participação do artista se fazia com uma inscrição prévia, e na data acertada, o objeto artístico era levado a uma comissão técnica que faria uma avaliação dos trabalhos, elegendo-os para ficar em destaque ou seguindo uma ordem na montagem da grande exposição. A Coletiva de Maio, era um salão de arte, uma grande exposição de obras de arte, onde cada artista poderia inscrever um ou mais trabalhos, e em diferentes linguagens. Por exemplo, uma pintura e uma escultura do mesmo artista. Mas quanto às regras de participação, não me recordo a respeito. Havia na época grande expectativa, pois a Coletiva de Maio, movia a classe artística na direção da produção, impulsionados em mostrar suas criações, aparecer enquanto artista, além de uma possível premiação, conferida aos três trabalhos de maior destaque, escolhidos por votos na noite de abertura, votação esta, feita pelo público visitante.

A obra exposta era uma aquarela, nessa mesma técnica.

Participei pela primeira vez no ano de 1994, enquanto estudante universitária, na graduação de Educação Artística, e como professora de Arte no ensino fundamental. Na época fazia meus experimentos em pintura, gravura, fotografia e escultura nas Oficinas de Técnicas Visuais da UFMA, no Atelier do artista Airton Marinho com Xilogravuras, no curso de teatro com teatrólogo e bailarino Reynaldo Faray, e nas folgas, no meu ateliê de estudos, em casa. A inscrição para a Coletiva de Maio, o fiz motivada por algum dos meus professores, gostaria de lembrar-me qual deles, no entanto a cada um, sou grata por cada ensinamento. Nomes como Paulo César, Donato Fonseca, Murilo Santos, Lobato, Padilha, Aldo Leite, Nerine Lobão, Arão Paranaguá e Marcelo do Espírito Santo, contribuíram sobremaneira para minha formação acadêmica e artística, alguns deles mais intensamente com incentivos para a pesquisa e desenvolvimento de um trabalho consistente em arte, como Donato e Paulo César. Estes dois, com estudos intensos e apoio para participar de projetos na época acadêmica e artística.

Um banner histórico.

O meu trabalho inscrito foi uma pintura em técnica mista com suporte em papel e emoldurada, que deixei no Convento das Mercês. Montaram a exposição e estava tudo preparado para abertura do evento que teria presenças ilustres, aberta ao público e a imprensa. Não pude comparecer à abertura, o motivo não lembro. Mas antes, passei para ver se estava tudo certo com o trabalho que havia deixado para expor. Entrei no salão principal, ainda com a equipe técnica trabalhando nos últimos reparos, procurando meu trabalho e não o achava. Solicitei a um dos organizadores, que me ajudasse a procurar pela obra, não encontramos. De posse de uma lista que havia em suas mãos ele começou a percorrer nome por nome:

- Achei, disse o rapaz meio sem jeito e me conduziu até um salão anexo no térreo. Era um espaço reservado aos trabalhos que haviam sido rejeitados pela comissão organizadora do evento. O Salão dos Recusados, meu trabalho estava ali, pendurado em uma coluna, numa sala cheia de outras obras.

Saí de lá triste por dois motivos, mesmo entendendo que meu trabalho ainda carecia de amadurecimento técnico e vivência, deveria haver regras claras quanto a seleção dos trabalhos. O que classificou meu trabalho como inapto? E o segundo motivo, eu não poderia estar presente na noite da abertura, para ver os outros artistas, as apresentações performáticas.

No dia seguinte, recebi a ligação de um técnico da Coletiva de Maio, afirmando que uma pessoa me ligaria. Algum tempo depois uma senhora muito animada, me ligou perguntando se meu trabalho estaria disponível para venda. Era uma médica, e havia visto a exposição inteira, mas aquela pintura havia mexido com ela. Gostou tanto do trabalho que “já o via em sua casa, foi uma identificação imediata, uma conexão como se a obra já fosse dela” me disse ao telefone.

Eu não acreditava no que estava ouvindo, mas foi isso mesmo! No dia seguinte, nos encontramos para nos conhecermos, andamos por toda a exposição, já não lembro como era, afinal já se passaram desde então, quase trinta anos. Tomamos café e acertamos para, quando a exposição terminasse, eu entregasse a pintura para ela e o pagamento seria feito, e assim o fizemos. Guardei essa história por muito tempo, inclusive com o nome desse anjo. Mas infelizmente, ao tentar recordar hoje, não consegui.

Meses depois, ao estudar um capítulo em História da Arte, me deparei com um acontecimento importante. Na França, por volta de 1863 acontecia o Salon de Paris, uma exposição de arte muito importante e representativa do melhor da arte na Europa.

Paralelo a este salão, aconteceu o Salon des Refuses, nome dado ao salão onde foram expostas as obras dos artistas franceses que tiveram suas obras recusadas no Salon de Paris, espaço reservados aos integrantes da Real Academia Francesa de pintura e escultura. A exposição paralela dos Recusados, foi determinada pelo imperador Napoleão III, devido aos protestos dos artistas recusados. Este fato, chamou a atenção de muitas pessoas e foi desfavorável aos artistas, pois tiveram suas obras ridicularizadas.

Diploma do evento: uma lição de vida! 

Porém, partir desse episódio, outras versões da exposição Salon des Refuses, foram realizadas chamando a atenção de um grande cada vez maior de pessoas, e essas exposições se tornaram grandes concorrentes do Salão da academia, o Salão Oficial. Os artistas passaram a fazer suas exposições de forma independente sem júri e sem prêmios, onde cerca de até 400 artistas chegaram a participar no ano de 1874, destacando-se os impressionistas, entre eles, Cézanne, Edouard Manet, Edgar Degas e Renoir.

Longe de mim, querer meu humilde trabalho, ser comparado ao páreo desses artistas incríveis que contribuíram, sobretudo, para um novo olhar na arte, para o surgimento da arte moderna, rompendo padrões guiados e rigidamente estabelecidos pela academia. Porém, o fato em comum da recusa nos aproxima e impulsiona. Mostra que as recusas, sejam elas vindas de uma exposição, um concurso, um seletivo ou um campeonato, não são suficientes, nem definem o valor de uma artista, e que, ser reconhecido pode estar muito aquém do real valor de um trabalho de arte. Existe um lugar diferente no olhar de cada um, eu enxergo o mundo de um jeito, portanto minha pintura representará minhas experiências, e elas influenciarão minha prática artística gostes ou não. A lição que ficou é de que devemos enfrentar com dignidade, respeito e com trabalho. Isso me define, não a opinião.

Susana Pinheiro, maranhense e artista visual. Rio de Janeiro 01 /06/ 2021.

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