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Brasil Escravatura

DEFENDEU ESCRAVIZADOS: O INESTIMÁVEL LEGADO DO JORNALISTA LUIZ GAMA

Uma lição de vida.

15/06/2021 19h56
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Por: Mhario Lincoln Fonte: AH/Victória Gearini
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Textos escolhidos:"Aventuras na História/Victória Gearini"

Em entrevista ao site "Aventuras na História", a professora da UNIFESP, Ligia Fonseca Ferreira, dissertou sobre a vida e obra deste ilustre personagem do século 19

Nascido no dia 21 de junho de 1830, em Salvador, na Bahia, Luiz Gama era filho de uma mulher africana livre e seu pai era um fidalgo de origem portuguesa. Contudo, com apenas 10 anos, o garoto foi vendido pelo próprio pai como escravo.

Em seguida, ele foi levado para São Paulo. Mais tarde, aos 17 anos, o futuro jornalista foi vendido novamente. No entanto, mesmo diante do racismo iminente na época, ele batalhou para ter sua liberdade. 

“O dia da felicidade será o memorável dia da emancipação do povo, e o dia da emancipação será aquele em que os grandes forem abatidos e os pequenos levantados; em que não houver senhores nem escravos; chefes nem subalternos; poderosos nem fracos; opressores nem oprimidos; mas em que o vasto Brasil se chamar a pátria comum dos cidadãos brasileiros ou Estados Unidos do Brasil”, disse Luiz Gama, no Correio Paulistano, em 29 de janeiro de 1867.

Pioneiro em muitos sentidos, ele ficou conhecido como um dos maiores abolicionistas do Brasil — embora sua história não seja tão falada nos livros de História, como aponta a Dra. Ligia Fonseca Ferreira, professora da UNIFESP. 

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, a organizadora da esplendida obra “Lições de Resistência: artigos de Luiz Gama na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro”, Ligia Fonseca Ferreira, contou detalhes sobre a vida e obra do ilustre jornalista.

serviçoOriginal do texto.

Ideais abolicionistas 

Embora Luiz Gama não fosse formado em advocacia, ele atuou na defesa de escravizados e negros acusados de crimes. Além disso, trabalhou arduamente na busca pela alforria dessas pessoas, tudo isso de forma gratuita.

Artigo de Luiz Gama na Gazeta da Tarde / Crédito: Divulgação / Ligia Fonseca Ferreira

“Não sou jurisconsulto, nem sou doutor, não sou graduado em direito, não tenho pretensões à celebridade, nem estou no caso de ocupar cargos de magistraturas; revolta-me, porém, a incongruência notória de que, com impávida arrogância, dão prova cotidiana magistrados eminentes que tem por ofício o estudo das leis, e por obrigação a justa aplicação delas”, escreveu o autor no Correio Paulistano, em 12 de março de 1874.

Dono de uma resiliência sem igual, o advogado também atuou em casos de pessoas pobres, mesmo que fossem brancas.

Gama dedicou boa parte de sua vida em defender indivíduos necessitados, principalmente aqueles que lutavam para conquistar a liberdade.

“Um homem negro, naquele momento, mesmo tendo influência, teve que lutar do que chamamos de racismo científico, pelo fato de ser um homem de origem africana”, reflete Ligia Fonseca Ferreira sobre Luiz.

Sem “papas na língua", conforme explica a historiadora, Gama denunciou, ainda, juízes corruptos que prejudicavam propositalmente pessoas negras, revelou esquemas fraudulentos e muito mais. 

“Se algum dia (...) os respeitáveis juízes do Brasil esquecidos do respeito que devem à lei, e dos imprescindíveis deveres que contraíram perante a moral e a nação, corrompidas pela venalidade ou pela ação deletéria do poder, abandonando a causa sacrossanta do direito (...) faltarem com a devida justiça aos infelizes que sofrem escravidão indébita, eu, por minha própria conta, (...), e sob minha única responsabilidade, aconselharei e promoverei, não a insurreição, que é um crime, mas a “resistência”, que é uma virtude cívica. (1871) Se algum dia (...) os respeitáveis juízes do Brasil esquecidos do respeito que devem à lei, e dos imprescindíveis deveres que contraíram perante a moral e a nação, corrompidas pela venalidade ou pela ação deletéria do poder, abandonando a causa sacrossanta do direito (...) faltarem com a devida justiça aos infelizes que sofrem escravidão indébita, eu, por minha própria conta, (...), e sob minha única responsabilidade, aconselharei e promoverei, não a insurreição, que é um crime, mas a ‘resistência’, que é uma virtude cívica”, disse Gama no Correio Paulistano, em 10 de novembro de 1871.

Devido a sua inestimável contribuição jurídica, em 2015, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), lhe contemplou, finalmente, com o título de advogado — mais do que merecido.

“Sou abolicionista, sem reservas; sou cidadão; creio ter cumprido o meu dever”, disse Gama em A Província de São Paulo, “Questão forense”, em 14 de outubro de 1880.

Legado para o jornalismo 

De acordo com Ligia Fonseca Ferreira, o legado de Luiz Gama para o jornalismo é inestimável. Dono de uma retórica única e de análises político-jurídicas excepcionais, o abolicionista também era um grande mestre da narrativa jornalística.

Diferente dos textos convencionais, ele quase sempre se colocava em primeira pessoa, dando um caráter humanitário e pessoal aos seus escritos, fato que o aproximava de seus leitores. “Ele era uma pessoa presente na mídia. Também tinha audiência, público e voz. E como bom jornalista, Luiz cumpria vários papéis dentro deste ramo, com seus escritos jornalísticos”, explica a professora. Outro ponto forte de seus textos é a incrível proximidade com a sociedade atual. Seus escritos atemporais denunciam o racismo institucional, na mesma medida que fortalecem pautas e lutas antirracistas. 

“Foi o jornalista Luiz Gama que se tornou essa figura conhecida e reverenciada. Através da imprensa que se tornou ativista, com uma cara e direção para a campanha abolicionista”, dissertou a especialista. 

Luiz Gama faleceu em decorrência de problemas de saúde, em 24 de agosto de 1882, aos 52 anos — seis anos antes da assinatura da Lei Áurea. Pouco tempo depois de sua morte, o jornalista foi descrito pelos seus colegas como um “trabalhador incansável do jornalismo”, conforme revelou Ligia.

Original do texto.

Importância histórica 

De acordo com a escritora, a importância histórica do autor é inestimável. Considerado um dos maiores intelectuais negros do século 19, o escritor já pautava em seus textos a abolição da escravatura e ideais republicanos — 20 anos antes de tais fatos serem concretizados. 

Artigo de Luiz Gama em A Provincia de São Paulo / Crédito: Divulgação / Ligia Fonseca Ferreira

“É muito interessante a gente observar que as lutas antirracistas no mundo, mas especialmente no Brasil, não podemos deixar de olhar para a nossa história e recuperar figuras como a dele que foram de uma imensa superação, ainda mais em um momento mais difícil do que atravessamos hoje”, disse a especialista. De origem humilde e autodidata, Gama se tornou um grande jornalista, poeta e advogado — em uma época em que negros livres não podiam estudar. Todavia, mesmo diante dos impasses, ele rompeu fronteiras e enfrentou obstáculos, que mais tarde o consagraram como o Patrono da Abolição da Escravidão do Brasil. Segundo a organizadora da obra “Lições de Resistência: artigos de Luiz Gama na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro”, os textos revolucionários do abolicionista apresentam verdadeiros ensinamentos atemporais, como o trecho abaixo:

“Uma lei é um monumento social, é uma página de história, uma lição de etnografia, uma razão de estado”, disse ele à Gazeta da Tarde, [Carta a Ferreira de Menezes], em 07 de janeiro de 1881.

A nova coletânea de Luiz Gama  

Com 61 textos, sendo 42 inéditos, a obra “Lições de Resistência: artigos de Luiz Gama na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro”, lançada pela Edições do SESC São Paulo, foi organizada pela professora Ligia Fonseca Ferreira e conta com prefácio do historiador e jornalista Luiz Felipe Alencastro. Fruto de três anos de pesquisa, o livro apresenta um vasto panorama histórico nacional e internacional. Os estudos consistiram no levantamento de acervos digitais e físicos, que são descritos na introdução. Além disso, a obra possui um “Apêndice” com cinco cartas de Luiz Gama, que dialogam com alguns dos seus ilustres artigos. 

Original do texto.

Artigo de Luiz Gama na Gazeta do Povo / Crédito: Divulgação / Ligia Fonseca Ferreira

De acordo com a escritora, este livro é fundamental para pesquisadores, profissionais e estudantes de Jornalismo, Letras, História e Direito. Contudo, dada a sua importância histórica, também foi pensado para o público em geral que se interessar por temáticas e personagens afro-brasileiros.

“Quando a gente lê Luiz Gama ele já está contando a sua própria história. Então meu primeiro propósito é esse: que as pessoas leiam estes artigos”, concluiu Ligia Fonseca Ferreira.

Serviço:

Lições de Resistência: artigos de Luiz Gama na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro, de Ligia Fonseca Ferreira (2020) - https://amzn.to/3w7nS8C

 

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