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Brasil Convidados

"A Metáfora do Adeus" ergue imagens e ventos do Parnaíba com a moldura do sal dos oceanos.

Texto de Paulo Rodrigues.

17/06/2021 13h44 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Paulo Rodrigues
Paulo Rodrigues & Nathan Sousa
Paulo Rodrigues & Nathan Sousa

A POESIA DESCOLONIZADA DE NATHAN SOUSA

O cineasta Glauber Rocha ficou rouco de gritar, na TV Tupi: “o artista brasileiro é um colonizado”. Ele tinha razão (em 1979). Eu tinha apenas um ano de idade e sei, hoje, que ele estava vestido com uma verdade histórica duradoura. Como produtores de uma gramática estética, admiramos o eurocentrismo. Em tempo, ajoelhamos sempre para os paradigmas dos americanos.  

        Não quero dizer com isso que os modelos não são importantes. Entretanto, sei que a literatura brasileira contemporânea deve beber a água de Lima Barreto, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Salgado Maranhão e Itamar Vieira Junior. Autores ligados ao chão das suas aldeias (buscando, no Brasil profundo, a universalidade do povo).                

        Trago para o ensaio um pensamento do Darcy Ribeiro: “precisamos construir a universidade necessária”. Devemos mesmo pensar a academia como um espaço universal que pense soluções efetivas para os problemas nacionais. Os escritores devem seguir a mesma linha de pensamento. O signo literário só será ampliado com o compromisso real entre linguagem e realidade material concreta.

        Qualquer outra concepção argumentativa é uma reprodução da discursividade burguesa.  Uma espécie de recado implícito: feche os olhos para a vida e divirta-se com os jogos sinestésicos.

         Por que faço esta introdução? Para apresentar ao leitor o livro A Metáfora do Adeus (Editora Folheando, 2020) de Nathan Sousa. Ele é ficcionista, poeta, letrista e dramaturgo. Venceu cinco vezes o prêmio da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro. Foi finalista do prêmio Jabuti, em 2015 e do I Prémio Internacional de Poesia António Salvado. Tem poemas traduzidos para o inglês, francês, espanhol e italiano. É o autor mais premiado do estado do Piauí, e ainda promete mais conquistas para si mesmo como se fosse um general romano, que antecipa as vitórias.

         A obra apresenta noventa e nove páginas, dividia em cinco seções: lenço, plataforma, extravio, falso sinal e terra interminável. Nathan faz do exercício poético uma travessia de tempo, imagens e facas no branco dos olhos. 

        Descalço, nas ruas de São Gonçalo, ou vestindo um terno da Alfaiataria Bagnoli Sartoria Napoli para receber a Ordem do Mérito Renascença do PI das mãos do governador, o poeta não esquece um segundo o seu compromisso primário com a expansão da Língua Portuguesa e com a estranheza das manhãs nubladas. Nathan parece um devoto que paga a promessa, sem perceber que já pagou. Quanto mais faz, mais quer.

        No poema BUDA, o poeta usa a metonímia como uma bomba atômica que prepara a reflexão da cena, na última estrofe:

O sol ainda está alto

na boca da noite

em Teresina. 

 

Uma bicicleta 

e um rádio de pilha

atravessam a ponte.

 

Homem: um par de olhos.

Reza de bicho sem eco.  (Sousa, 2020, p. 40) 

       

capa.

Todos os eventos de linguagem em Nathan Sousa são feitos com a comoção dos dias vividos e costurados com a reflexão humanística que está entranhada na sua formação de pesquisador. O poema acima carrega o compromisso com sua gente, sem esquecer a universalidade. Qual é então a diferença entre ele e outros autores contemporâneos? Nele o acaso não é o guia. A fragmentação não é uma válvula de escape. A escrita é pensada como um projeto de desconstrução das sugestões dos signos para fixar nas imagens, no ritmo e no tempo um caminho humano para si mesmo.

        Monta o protótipo do homem, no meio da tragédia material, que não abala as estruturas sociais: “Homem: um par de olhos. / Reza de bicho sem eco”. O campo semântico é lançado para o alto com a junção das palavras “bicho sem eco”.

         Há respeito, no entanto, não há submissão ao cânone em Nathan. O poema A MESMA HISTÓRIA comprova:

Sim, eu caminhei no meio da fumaça do asfalto,

debaixo da chuva inesperada de outubro em Teresina:

calor que não me sai da cabeça, cheiro de gasolina,

vista embaçada.

 

Por isso não tive pressa. Porque fui dos vinte e 

poucos ao clarear do dia.

 

Ainda assim, somente um disco de rock

- e mais um nome desbotado no muro –

me despiu como quem ama.

 

Eu já não acreditava em nada além do que 

me ensinaram os livros: de Flaubert a Faulkner,

páginas amarelas, o mofo das estantes.

Aprendi que o silêncio já havia escrito sobre mim. (Sousa, 2020, p. 87)

        O poeta tem consciência da angústia existencialista: “eu já não acreditava em nada além do que/ me ensinaram os livros: de Flaubert a Faulkner”. Sabe que está na paisagem das minorias e compreende os paradoxos discursivos do último verso: “aprendi que o silêncio já havia escrito sobre mim”. 

         As teorias pós-coloniais pregam o revisionismo crítico dos acontecimentos, assim como o enfrentamento das falhas. Neste caminho, Nathan faz auto-avaliação do depurado trabalho de linguagem, da estilística, das metáforas para mostrar o peito aberto, no voo.

         No trecho final do poema MEU PARAÍSO QUEIMA:

[...]

Não quero ir pra Pasárgada.

Não sou amigo do rei.

Não quero ser complacente 

com as ordens que nunca dei (Sousa, 2020, p. 99)

          Sabe que é necessário superar o violento processo de dominação. Faz intertextualidade com o famoso poema de Manuel Bandeira para desmontar a ideia do lá fora como o paraíso. No plano simbólico, revira o interior do interlocutor: “Não quero ir pra Pasárgada. / Não sou amigo do rei”. Assume, portanto, a sua relação proletária de protesto e força condutora para uma nova luz. O poeta diz, em seguida: “Não quero ser complacente/ com as ordens que nunca dei”. 

Nathan Sousa, mestre de tantos ofícios, escreve para descolonizar a nossa literatura.

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Paulo Rodrigues (Caxias, 1978), é graduado em Letras e Filosofia. Especialista em Língua Portuguesa, professor de literatura, poeta, jornalista. É autor de vários livros, dentre eles, O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018). Ganhou o prêmio Álvares de Azevedo da UBE/RJ em 2019, com o livro Uma Interpretação para São Gregório. Venceu o prêmio Literatura e Fechadura de São Paulo em 2020, com o livro Cinelândia. É membro da Academia Poética Brasileira.  

 

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