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Brasil FILOSOFIA

Sugestões acadêmicas: o professor Felipe Pimenta resenha "Paideia", de Werner Jaeger

Professor. Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade do Sul de Santa Catarina. Pós-graduado em Bioética pela Universidade de Caxias do Sul (UCS). Estuda também a obra de Carl Gustav Jung.

18/06/2021 10h19
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Por: Mhario Lincoln Fonte: https://felipepimenta.com/
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Sugestão: Imortal APB, João Batista do Lago

A PAIDEIA

POR FELIPE PIMENTA

A Paideia é um dos legados imortais da mentalidade grega. Werner Jaeger conseguiu resumir em um livro, extenso é verdade, todo o conceito de formação moral, física, poética e teológica do homem da Antiguidade. Qualquer pessoa que estiver lidando com a educação na sua vida diária vai ficar impressionada com o alcance que os poetas e filósofos gregos deram a esse tema. Na verdade, nos dias atuais, especialmente em um país com um sistema educacional como o brasileiro, que em sua maioria é incapaz de dar aos seus alunos ensinamentos básicos sobre gramática e aritmética, essa base da Paideia grega é impossível de ser transmitida aos estudantes de nosso tempo. É certo que durante vários séculos as Humanidades foram valorizadas no Ocidente, e até mesmo no Brasil. Mas como sempre surgem mentes brilhantes com as melhores intenções para reformar o ensino, o resultado foi que o sistema educacional brasileiro foi assaltado pelo modelo tecnicista, e os resultados foram trágicos. Houve nos últimos anos algumas luzes de esperança para a nossa educação, uma vez que filosofia voltou a ser ensinada nas escolas, mas isso só não basta.

A Paideia tal qual os gregos entendiam, envolve o ensinamento do corpo e da mente. Poesia, teologia, filosofia, gramática, retórica, matemática, música e astronomia faziam parte da formação da alma do homem grego. Jaeger demonstra isso desde os tempos remotos da Hélade com a poesia de Homero. Como Giam Battista Vico havia percebido, toda grande civilização começa com os poetas-teólogos, que são aqueles que transmitem o mito fundador da nação para o povo. A poesia foi a primeira forma de preparação da mente de crianças e adultos para a compreensão do mundo. O Mythos é a pedagogia de Homero, porquanto os seus poemas reproduzem as estórias de deuses e homens que dão início à Paideia. Jaeger acredita que Homero produz um pensamento “filosófico” relativo às leis eternas que governam o mundo. Na Ilíada e na Odisseia, as paixões humanas e os elementos da tragédia grega que Aristóteles iria explicar de forma tão maravilhosa na poética já se fazem presentes.

Existe um estudo dedicado à formação física e militar de Esparta, que tanta admiração causou aos atenienses. Pode-se dizer que Esparta foi a mãe da educação estatal na História. O homem espartano, segundo Jaeger, não tinha um conceito de imortalidade além do da morte gloriosa em batalha. O Estado era para eles o sentido da vida e a guerra algo desejável. A educação de Esparta nos causa repulsa em nosso tempo, porém para aquele momento histórico ela realmente era efetiva. Aristóteles nos diz em sua Política que a educação de Esparta era totalmente militarizada. Desde o primeiro momento, as crianças com o mínimo defeito de nascença eram expostas impiedosamente à morte. A criança era separada cedo de sua mãe e a responsabilidade pela sua criação passava ao Estado. A Paideia de Esparta estendia-se aos adultos, e como diz Jaeger, “ninguém podia viver ao seu bel-prazer”.

Nesse mesmo momento em que a educação de Esparta fazia sucesso, os gregos descobriram o Cosmos e a Matemática. Surgem os filósofos da physis e a matemática de Pitágoras. O homem começa a libertar-se do mito de Homero. As explicações para o funcionamento do universo começam a surgir. Pitágoras e sua escola provavelmente descobriram a matemática através dos egípcios, mas eles não se tornaram apenas repetidores de uma ciência antiga. Fizeram inovações, criaram uma teoria musical que passaria a fazer parte da Paideia platônica. Homens como Heráclito delimitam de alguma forma o alcance dos conhecimentos de um homem que conhece a si mesmo. Ele diz: “a multiplicação dos conhecimentos não proporciona sabedoria”. Heráclito completa: ” investiguei-me a mim próprio”. Jaeger diz que nesse momento a filosofia volta ao homem, depois que várias tentativas de explicar o porquê do universo não foram suficientes.

Professor Felipe Pimenta.

As tragédias de Ésquilo e Sófocles tornar-se-iam para os gregos uma tentativa de explicar os imprevistos da natureza e da fortuna que tanto os atemorizavam. No Prometeu Acorrentado, Ésquilo fala sobre o drama da alma ( PATHOS) de um Titã que terá que descer até as profundezas para resgatar o seu erro. Prometeu é o Titã que rebela-se contra Zeus por compaixão aos homens que ele vê como vivendo como cegos nesse mundo. Rouba, então, o fogo divino e o concede aos homens. Ensina a eles várias outras ciências, entre elas a matemática. Mas sua rebeldia é descoberta e ele é preso com correntes a um rochedo. Está destinado a sofrer o castigo eterno por sua HUBRIS. O espírito de Prometeu, como o de todos os gnósticos de todos em todos os tempos se revolta contra a divindade.

O ódio de Prometeu que grita ” odeio todos os deuses” é o mesmo de Satã no momento da Queda: ” não servirei!” A revolta contra a divindade está presente no mito grego. Na sequência da tragédia, Prometeu irá reconciliar-se com Zeus. Sófocles conseguiu atingir a mente dos gregos com uma outra tragédia que ainda hoje nos emociona: Édipo Rei. Aristóteles considerava essa tragédia como a melhor que existia. Édipo sofre uma virada da fortuna de maneira inesperada, e sofre o castigo (NEMESIS) mesmo sendo inocente. Em um mundo onde tudo era incerto como na Antiguidade, os poetas produziram sua Paideia que mostrava ao povo a razão da dor e do sofrimento. Da mesma forma que em Prometeu Acorrentado, no final o bem prospera. Os deuses têm compaixão de Édipo. Nas palavras de Jaeger: ” é o milagre da salvação que no fim o espera. Os deuses, que te feriram, de novo te porão de pé.” O mal existe de maneira temporária, porque no fim é o bem que triunfa. A Paideia dos poetas ensina os gregos através do sofrimento temporário que os deuses são bons.Por fim falarei sobre a melhor parte do livro que é a filosofia platônica. O filósofo grego reuniu o que havia de melhor na Paideia grega para formar um sistema mais amplo ainda. O homem não só está preparado para ser um bom cidadão, como também aspira a contemplar o Bem. Para Platão, o homem e a mulher devem começar sua educação cedo. No seu diálogo As Leis, ele chega a dizer que devem começar a aprender na barriga de suas mães. A Paideia é completa, pois inclui música e poesia agora purificados de todo elemento maligno; inclui, também, a preparação física, pois sem ela o homem fica amolecido. É claro que a matemática também está presente. Platão aspirava que homens e mulheres pudessem ter o mesmo tipo de educação. Apesar de ter dedicado boa parte da vida escrevendo sobre o Estado ideal, no fim Platão tentou fazer que o homem que tivesse experimentado sua Paideia construísse o ” Estado dentro de si”, segundo as palavras de Jaeger. O ideal de Paideia de Platão era fazer que todos conhecessem o Bem. A contemplação do filósofo do AGATHON é o mito que ele nos conta na República. Existem dois mundos para Platão: o noumena e o phenomena. Platão quer que tenhamos atenção para o primeiro. Jaeger explica o que Platão quis dizer com sua imagem do deus Hélio. Esse é o filho do Bem. Quando o homem olha para o céu vê sua luz e a contempla. Se não olhasse para o Filho do bem, ficaria preso às trevas de noite. Quando o homem está em trevas, diz Jaeger, sua alma perde a razão. Quando contempla o Filho do Bem, o Sol, a alma se ilumina e percebe a causa do conhecimento e da verdade. A Paideia de Platão alcança o seu ponto máximo. Não só educa para esse mundo como também para o mundo das Ideias, esse sim, o que é eterno e não transitório. Contemplar e conhecer o Bem é o fim da Paideia do maior de todos os filósofos que é Platão.

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sem fins lucrativos

 

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