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Convidado: escritor e poeta José Neres, "O prontuário poético do doutor Rafael"

Sobre, "O avesso abstrato das coisas", (Pelanux, 2021, 128 páginas).

18/06/2021 10h46 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: José Neres
José Neres, resenhista.
José Neres, resenhista.

O prontuário poético do doutor Rafael

José Neres

(Membro da Academia Maranhense de Letras e da Sobrames) 

          Ser poeta nem sempre está diretamente relacionado com o fato de alguém haver escrito e/ou publicado algum livro de poemas. Ser poeta vai além desse detalhe técnico. Ser poeta possivelmente é ter tatuados na alma, nas palavras e no silêncio a essência da poesia, a capacidade de enxergar além das aparências e o dom de renovar o tantas vezes já-dito com as vestes do não-dito. Às vezes a poesia abandona seu mundo de abstrações e se materializa em forma de poemas que acabam ganhando o mundo a partir da memória, dos recitais, dos endereços virtuais ou das páginas de um livro.

          Mas, por algum motivo, as pessoas acabam exigindo que o poeta se “solidifique em poeta”, conforme vaticinou Nauro Machado em um de seus mais difundidos versos. Cria-se uma expectativa envolta em múltiplas cobranças: “Quando vai publicar um livro?”, “Estamos esperando seu livro.”, “E o livro, quando vem?”, etc. Não são raros os casos em que essas cobranças reiteradas acabam mutilando o poeta, que, no afã de agradar aos outros, acaba traindo as próprias convicções e acelerando a maturação de poemas que, infelizmente, às vezes, começam a nascer mortos ou talvez sem possibilidade de vicejar nos campos da vida.

          Contudo, há também aquelas pessoas que sabem esperar um momento propício (se é que isso exista) para a publicação de sua prole poética em forma de livro. E, quando esse momento chega, vem acompanhado de uma explosão de exclamações de júbilo, dada a qualidade do trabalho que é apresentado ao ansioso público.

          Foi isso o que aconteceu com o poeta e médico Rafael Oliveira, que, depois de muita insistência e de muitos recuos, acaba de trazer à luz seu primeiro livro intitulado O avesso abstrato das coisas (Pelanux, 2021, 128 páginas), uma obra que traz para os leitores e amantes da poesia uma mescla de leveza poética com a densidade de uma temática central que remete às enfermidades do corpo e da alma e faz cada pessoa refletir sobre a brevidade e a fragilidade de nossa condição humana.

          Cada um dos poemas parece ter sido limado muitas vezes até atingir o ponto em que o contraste entre a economia de palavras e abundância de imagens transformasse palavras que poderiam ilustrar um prontuário médico em uma bem acabada peça de ourivesaria poética na qual cada vocábulo está engastado com perfeição milimétrica transformando as dores das enfermidades em pequenas joias de poeticidade.

          No prefácio ao livro, o poeta Bioque Mesito já adverte que “o que parece quando lemos Rafael Oliveira é que tudo perpassa pela retórica do mundo imaginado como os conceitos duros das ciências exatas, mas o que significa, na verdade, é a sensibilidade da poesia, a ternura dos poemas paradoxais ou ainda o que recolhemos do espanto de viver.” E essas constatações podem ser vistas do primeiro ao último poema do livro.

          Logo no início, os leitores se deparam com o impactante poema Alzheimer e podem perceberem tristemente que tal doença tem como um dos efeitos:

esquecer a vírgula depois da manhã

a tarde perde o sentido

 

o pôr do sol não cabe

na memória (pág. 23)

 

          Ao longo das páginas, o médico nascido em Goiás, mas que adotou o Maranhão como segunda terra natal, segue em sua saga de tirar o máximo de poeticidade de algo que geralmente é visto como antessala de um fim inefável. Sinestesicamente, é possível trazer à margem de cada leitor as incômodas sensações pelas quais passam as vítimas de enfermidades que não trazem em sua essência vestígios claros de poeticidade. Assim o AVC, que faz parte do drama de muitas famílias, é pintado metaforicamente como o momento em que:

 

o corpo perde lembranças

no máximo se lembra

pela metade

 

a mão esquerda

não colhe flores (pág. 45)

 

          E assim, nesse sintético prontuário poético, o doutor/poeta Rafael Oliveira consegue transmutar dores físicas e psicológicas em pílulas de poesia. Lúpus, dermatite, anorexia, infarto, Parkinson, impotência, insônia, traumas, bipolarismo e muitas outros problemas do dia a dia dos consultórios saltam das folhas soltas de recitas, diagnósticos e exames e passam a fazer parte de um mundo no qual dores e perdas podem dar origem a outras formas de se ver os vazios que alimentam nossa certeza de diária partida.

          Mesmo respeitando as rotinas e protocolos médicos, o poeta acaba lembrando o leitor de que há remédios que podem ira além da farmacologia química. Para tentar controlar a pressão alta, por exemplo, será também importante tirar um tempo para:

 

ver o pôr do sol

numa tarde

qualquer

 

evitar

nuvens insubordinadas

dentro dos olhos

 

tomar

uma cápsula de lua

ao dormir (pág. 61)

 

          No prontuário poético do doutor Rafael, cada leitor é mais que um paciente, é um amigo que entre consultas, exames e anamneses pode levar para o resto da vida, impressa na retina e na memória, a certeza de que a poesia está em todos os lugares, até na dor... na nossa e na alheia.

 

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