AS CORES DO SWING
Livro de Augusto Pellegrini
*Autorizada publicação pelo autor
Capítulo 1 – O REI DO JAZZ – Parte 5
Na ocasião da sua morte, Bix estava negociando a sua ida para a Casa Loma Orchestra, onde iria trabalhar novamente com Jean Goldkette.
A Casa Loma na verdade ainda não existia com esse nome. Era então uma orquestra chamada Orange Blossoms, que se exibia em Detroit, mas cujas atividades artísticas haviam naufragado com a recessão. O ex-bandleader Jean Goldkette e um empresário de nome Henry Horvath resolveram contratar os músicos da Orange Blossoms para abrilhantar as noites dançantes do famoso Hotel Casa Loma (daí o novo nome da orquestra) em Toronto, no Canadá. Ambos estavam recrutando novos músicos para dar mais qualidade aos Blossoms, e Goldkette ficou sabendo que Bix estava novamente disponível no mercado. O que ele não sabia é que Bix já estava em frangalhos, e que a sua saúde estava tão comprometida.
Quando tomou conhecimento que o Hotel Casa Loma estava planejando contratar uma orquestra para se apresentar no seu salão social, Paul Whiteman começou a mexer os pauzinhos para que a orquestra contratada fosse a sua. No entanto, Jean Goldkette, na condição de responsável pela contratação, deu preferência à Orange Blossoms por considerá-la "mais quente", e mais adequada às exigências do público no momento. Assim, Goldkette simplesmente disse "não" a Whiteman.
A resposta negativa mexeu muito com os brios de Paul Whiteman, que ficou extremamente ressentido – afinal, quem era Goldkette para se colocar no papel de juiz da sua música?
Como, porém, "Deus costuma escrever certo por linhas tortas", pelo menos essa era a opinião de Whiteman a respeito do caso, a aventura de Goldkette acabou se transformando num redondo fracasso. A "sua" Casa Loma não deu certo em Toronto, cidade mais fria e menos propícia a propostas musicais do que Chicago ou mesmo Detroit, de onde ela saíra. Assim, a Casa Loma Orchestra manteve o novo nome, mas teve que voltar às suas origens.
Detroit se transformara, contudo, num deserto para o entretenimento, e a Casa Loma, então dirigida pelo bandleader Henry Biagini, e tendo o saxofonista Glen Gray como arranjador, teve que mudar novamente de rumo, começando a excursionar pelo país para finalmente conseguir alcançar o sucesso desejado.
Este era o panorama da música de orquestra no início dos anos 1930, cheio de expectativas de mudanças, o que representava um novo desafio para "O Rei do Jazz".
A década começara ao som colorido do swing, que substituía definitivamente o stomp pesado e simples, e eliminava os resquícios da "sweet music". O dixieland tocado por grupos de sete ou oito músicos, retrato mais fiel do jazz até então, dava lugar a orquestras com quatorze a dezesseis integrantes. No entanto, embora apostasse numa proposta de evolução musical, a maioria das big bands convencionais começou com o passar do tempo a adquirir uma personalidade sensivelmente comercial, mesmo contando com todo o apoio da harmonia e das estruturas do jazz.
Mesmo assim, algumas orquestras continuaram a executar o swing sem perder a qualidade jazzística, independentemente do aspecto dançante que era passado para o público.
A sensibilidade dos arranjadores e dos músicos fazia do swing um jazz definitivo, como afirmava Cootie Williams, incluindo solos de improviso, riffs, síncopes e tudo o mais a que tinha direito.
Paul Whiteman não havia conseguido situar a sua orquestra entre as definitivamente jazzísticas, mas soube resistir sem comercializar a sua arte. O mercado da música, no entanto, estava sendo ocupado por outras orquestras que caíram no gosto popular e no agrado da crítica.
Don Redman, cujos arranjos ajudaram Whiteman na sua busca por um lugar no jazz, começou a dirigir a sua própria orquestra, chamada McKinney's Cotton Pickers, assumindo no outono de 1931 o grupo que havia sido formado em 1922 pelo baterista William McKinney. O grupo contava com Louis Armstrong, recém-chegado da orquestra de Fletcher Henderson, Coleman Hawkins, um saxofonista de sopro forte e austero, também vindo do grupo de Henderson, o trombonista Charlie Green, e outros bambas da época.
Fletcher Henderson, mesmo perdendo três dos seus principais músicos, não ficou atrás e manteve o seu carisma, escrevendo ele mesmo os arranjos para a sua orquestra e chegando inclusive a superar, neste métier, o trabalho anteriormente desenvolvido por Redman.
Já Duke Ellington prosseguia impávido com o seu trabalho como se nada – recessão, modernização – estivesse acontecendo.
Em Kansas City apareceu um fenômeno chamado Benny Moten, que serviria de paradigma para um jazz de big band mais voltado para o blues do que para o swing, uma espécie de voz discordante que levaria o jazz orquestrado para um outro campo, posteriormente cultivado por Count Basie. Talvez fosse esse exatamente o trabalho que Paul Whiteman havia sonhado e não conseguira fazer, por insuficiência de blues.
Apesar dos anos de recessão, o ambiente musical não arrefeceu em Nova York, com os negros comandando os shows no Harlem, "uptown", e os brancos acontecendo no Times Square, em especial nos teatros da Broadway.
No meio deste cenário, Paul Whiteman começava a sair de cena, com eventuais apresentações na parte branca da cidade e em outras localidades espalhadas pelo país, mas nesta altura a sua música soava definitivamente "kitsch". Ele fez também algumas gravações bissextas, até que tentou uma cartada decisiva em 1938, rejuvenescendo a orquestra com a participação do grupo vocal The Modernaires sem, no entanto, obter o desejado sucesso.
Após sucessivas tentativas entre 1940 e 1944, sempre se apresentando com formações diferentes em diversas cidades do país, Paul fechou a cortina.
Sua história musical parece representar o lado 'B' da história do swing, sem nunca ter feito parte do lado' A' da história contada pelos historiadores de jazz.
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