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A artista Susana Pinheiro conta mais uma história interessante: "Eram os Meus Cartões"

Entretenimento.

30/06/2021 12h19 Atualizada há 3 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Susana Pinheiro
Susana Pinheiro.
Susana Pinheiro.

CRONICA NARRATIVA II 

Eram os meus cartões 

Era uma tarde ensolarada e quente como tantas outras em São Luís, no Maranhão.  O ano era 1996 e eu descia do ônibus azul, batizado pelos estudantes da universidade na época de 'taguatortura' porque vivia lotado, na praça Deodoro, rumo à rua Grande onde mensalmente fazia uma visita ao Palacete Gentil Braga. E depois seguia até um café que ficava no shopping Colonial, uma das atrações principais do centro que reunia muita gente em seu ambiente fresco, contrastando com o calor intenso que fazia nas ruas da cidade. 

Acabara de sair do Palacete Gentil Braga, um casarão de 1820, com características coloniais e ao mesmo tempo, ecléticas. Um espaço cultural onde aconteciam exposições, lançamento de livros e recitais poéticos. Andava a pé pelos calçadões de paralelepípedos da rua Grande, um centro comercial na rua inteira, onde todas as lojas eram instaladas em típicas casas coloniais. Até o cinema mais antigo da cidade, o cine Édem havia se transformado em loja. Naquela hora da tarde a rua estava muito movimentada, gente indo e vindo num constante andar aglomerado, foi quando avistei o sorveteiro de lata. O mais incrível sorvete artesanal vendido em lata, que traz consigo o sabor de minha infância, quando uma ventania soprou intensa como num anúncio de que o tempo poderia mudar. Apressei o passo e antes que eu chegasse ao Colonial Shopping, esbarrei em um conhecido, que parecia muito animado e feliz ao me encontrar.   

O conhecido quis saber o que eu fazia ali, e se estaria com algum tempo livre, pois queria muito me mostrar seu ateliê que ficava há cerca de uma quadra do shopping. Falei que estava indo tomar um café, mas em seguida teria que ir para casa porque precisaria estudar para uma prova de história da arte para o dia seguinte. Empolgado e até mesmo meio eufórico, o conhecido insistiu e disse que não iria demorar nada a visita, que lá ele teria um café e que gostaria muito que eu conhecesse seu mais novo local de trabalho, seu ateliê.  

Vocês devem estar se perguntando: - mas quem é essa pessoa? Bom, não direi aqui o nome da figura, pois o que mais importa, foi o que aconteceu ao chegar no ateliê. Já conto o que aconteceu e vão saber o porquê. Essa pessoa me foi apresentada por uma amiga em comum, que era uma colega de trabalho, e ela estava dando uma força porque o rapaz era novo na cidade e queria fazer amigos. Diante essa referência julguei apropriado acompanhar o conhecido na tal visita ao ateliê. 

Andamos um pouco, enquanto isso a ventania valente levantava do chão os papéis de propaganda de promoções das lojas e de bombom piper e ice kiss, como quem limpasse o chão e arremessava-os nos passantes. Finalmente chegamos a um sobrado colonial morada inteira de cor bege. O conhecido, alugara o andar térreo por uma temporada. Era um ambiente espaçoso, de paredes espessas, arejado, com boa iluminação e uma decoração rústica. Desejou boas-vindas e deixou-me ali no salão principal a observar suas novas criações, enquanto fazia o café e ao mesmo tempo falava ao telefone. 

Passei então a observar os trabalhos que estavam pendurados e encostados nas paredes do ateliê. Eram pinturas em tamanho grande, enormes eu diria, e à medida que eu ia olhando cada uma, pareciam crescer, ainda mais, diante dos meus olhos. Era como se de alguma maneira aquelas pinturas fossem muito familiares, como se já as conhecesse de algum outro lugar, mas não dali. Comecei a ter arrepios e a me questionar o porquê daquela sensação de estranheza e ao mesmo tempo reconhecimento. Fiquei muito confusa e em estado de letargia por um bom tempo, até que a voz do conhecido me alcançou como um chamado que está longe e vai aumentando aos poucos até te alcançar...olhei de súbito para o lado, e vi que ele estava de pé ao meu lado, segurando duas xicaras de café. 

Reprodução: Trabalho da mesma época dos cartões.

Peguei a minha xícara de café e continuei a explorar o ateliê, enquanto ele atendia a mais uma ligação. Foi nesse instante que vi em uma parede um pouco mais escondida, próxima a uma das portas estreitas cujo arco era de pleno, um mural de avisos, como esses de cortiça com vários pequenos recortes de revistas, jornal e lembretes, e várias pinturas coloridas pequenas, iguais aos quadros que estavam nas paredes. E essas pequenas pinturas eu as reconhecia, eram pinturas que eu havia feito, eram meus cartões. Mas o que meus cartões estavam fazendo com aquela pessoa? Eu fazia pequenas pinturas em papel para testar efeitos e técnicas diferentes. Como fui gostando do resultado, transformava aquelas pinturas em cartões com dedicatória e em datas especiais dava a amigos. Tirei um deles do quadro de cortiça e percebi que a parte de trás havia sido retirada, ficando apenas a pintura da frente, minha assinatura também ainda estava lá. Eu buscava entender aquela situação, mas ainda zonza em meio a tudo o que via. 

De repente o conhecido se aproximou e perguntou o que eu havia achado dos trabalhos dele. Meu Deus do Céu, o que poderia responder? Não tinha certeza de nada, estava ali diante de uma situação completamente inesperada e não sabia o que fazer. Respirei fundo e tentando disfarçar meu mal-estar, lhe disse: - Gostei de tudo que vi, aliás vi muito de mim, de meu trabalho aqui pendurados em tuas paredes. Não são meus trabalhos, há aqui algo que difere estes dos meus, mas claramente há muito das texturas e da forma em cada tela exposta aqui, até as cores são muito parecidas. Estava sem compreender bem, até que encontrei estes cartões feitos à mão por mim e que envio como presente para algumas pessoas no final do ano. E não me recordo de tê-los enviados a ti. Podes me explicar o que está acontecendo? Perguntei a ele. 

Para minha surpresa, ainda maior, a explicação dada foi simples assim: - Ah tu reconheceste? Ficaram ótimas essas pinturas não foi mesmo? São teus cartões ampliados. Tu os enviavas ao Teatro para a direção, e eles eram guardados porque o diretor gostava muito, mas quando foi embora de São Luís, não podia levá-los, mas também não queria jogá-los fora, ficou com pena e perguntou se eu queria ficar com eles. Gostei tanto que resolvi ampliar os cartões. E aqui estão, dei um bom destino a eles não achas?  

O conhecido me falava tudo aquilo e um filme passava em minha cabeça, lembrando da criação dos cartões que demorava cerca de uma semana, que ia a pé até o teatro, quando saia da faculdade aproveitando que já estava no centro da cidade, e deixava o cartão dentro do envelope na portaria para ser entregue à direção. Que dias depois recebia um outro cartão da diretoria do mesmo teatro me desejando feliz ano novo e agradecendo o cartão. Sei que terminei aquele café, e mais que depressa sai dizendo que precisava ir, que havia esquecido de algo muito importante e depois nos falaríamos. E assim saí de lá o mais rápido que pude, nunca andei tão ligeiro e nem lembro direito como cheguei no ponto de ônibus, só sei que quando me dei conta já estava dentro do veículo, atravessando a ponte do São Francisco. E nunca mais depois desse episódio, voltei a encontrar essa pessoa. Soube algum tempo depois, que retornaria à sua terra natal. 

Rara foto da Faculdade.

Esse fato acontecido comigo, levantou as seguintes questões. Aquilo que o conhecido havia feito poderia ser uma reinvindicação de autoria? Seria uma releitura da obra? Na época não fui a fundo para investigar o destino daqueles trabalhos e nem como o rapaz se reportaria a cada um, caso realizasse uma exposição. Se ele optasse por expor, será que iria constar em seu descritivo artístico: obras criadas a partir dos cartões de Susana Pinheiro? Obras copiadas e ampliadas dos cartões de Susana Pinheiro? Ou somente, obras de sua própria autoria? Não estamos isentos de que situações como esta ocorram conosco, não sabemos onde e nem quando, no entanto, buscar informações a respeito daquilo que se cria vale a pena, e juntos, classe artística, incentivar o acesso ao conhecimento das leis, das políticas públicas já no ensino médio e primeiros anos de faculdade, e que facilitem e desburocratizem o direito autoral. Por falar nisso, há uma lei que fala sobre o direito de ser o dono oficial daquilo que se cria. Veja a seguir, espero que ajude alguém, afinal conhecimento é sempre bem-vindo. 

A Lei 9.610 de fevereiro de 1998, regulamentou o direito autoral. Afirma em seu artigo 1 – “Esta lei regula sobre os direitos autorais, entendendo-se sob esta denominação os direitos do autor e os que lhe são conexos.” “Ainda, no artigo 7- São obras intelectuais protegidas as criações do espírito, expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer suporte, tangível ou intangível, conhecido ou que se invente no futuro (...).” 

Acesso em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9610.htm

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