Ela silenciou. Teve que silenciar para buscar força nas suas próprias profundezas. Conversou consigo, com seus medos, ficou frente a frente com seus receios , e se entrelaçou com as mãos da oração, unindo-a até ser uma só. Sentiu a vida se manifestando novamente nos olhos daqueles que ela ama e não permitiu afogar-se nas lágrimas das dúvidas e das noites mal dormidas , preferiu mergulhar e nadar nelas, nas horas que não passavam, aprendeu a tatuar o Carpe Diem no dia, na própria escrita, no engasgo da fala interrompida, na falta de oxigênio que cala a vida, na presença da ausência, do riso da janela, na conversa entre a tristeza e a alegria, no olhar reflexivo da própria pandemia, que nos ensina sobre o tempo.
TEMPORALIDADE
Em minhas mãos
a ampulheta
tem pressa
grãos de
medo, deslizam
.
No deserto
fortaleza-camuflagem
gotas d'água
em prece
miragem
.
Alimento-me com
grãos de areia e
doces de Cora
.
Corra! o tempo é
agora.
.
Na areia deslizada
a miragem em memórias
o tempo conversa
revela histórias
.
A ampulheta - viva
o sol da noite arde
e um pensamento molhando
a areia, invade:
Ame! antes que seja
tarde.
Sharlene Serra.
E ela segue, no seu tempo, abraça a caneta, na catarse diária, no retorno do pulsar, escrevendo exaltando a fortaleza sentida através das palavras que moram em si e a fazem renascer a cada dia:
ESCREVIVÊNCIAS
Estou viva!
Pulso?
Escrevo!
Sei que estou viva
na voz transcrita
da mulher-janela
asas-folhagem
quintal de infinitas
paisagens
Meus dedos
pulsam
estou viva!
Escrevo o tempo
abraço o vento.
.
Sou menina - mulher
Entre colo e desejos
delineado no contorno
do meu reflexo
convertidos nas
palavras que me definem e
me propagarão.
.
Sim! Sou ser viajante
com pés-asas
entre céu
e chão.
.
E as paisagens
escorrem de mim
no percurso das páginas
a vida transformada em
palavra escrita
guardada
nos papéis
silenciados sobre a
mesa
A caneta engasga.
Silencia.
O poema fica incompleto.
mas continuo escrevendo
através dos vazios sorridentes
pela vida
sentida, vivida,
para renascer
Frida.
(Sharlene Serra)
A resiliência ensinada por Frida inspira. Aprendemos na pandemia a dar as mãos mesmo na distância , a dialogar com a insônia e ouvir a voz dos nossos apelos, das súplicas da nossa própria intuição, aprendemos a conviver com medo e entender que precisamos dele para ter coragem, ele, o medo, nos ensina a acender a luz mesmo na escuridão. E vejo ela ao longe, prosseguindo, aprendendo na presença do seu pai , que fé é medicamento, que areia massageando o pé é energia, alimento. E segue os caminhos, na pandemia, na conversa com o Parkinson, e com o glaucoma descobriu que na escuridão existe múltipla visão. O pai, ensina a não desistir, resiste com o fôlego de apenas um lado do pulmão.
Ela Silenciou sim! para que pudesse contemplar as lágrimas , enxergando-as feito mar, não permitiu que a mesma a afogasse, mas nadou nela e refletiu sobre cada gota...
Olhos Nadadores
Era apenas um dia
mas meus olhos bordavam entre as nuvens
escritos molhados
Queria derramar todas as cores
para tatuar o dia com exclamações
Abomino tempos ácidos
dedos em riste
venenos que
oxidam a poesia
Em silêncio meus olhos úmidos
mergulham na angústia
do que vem e ouvem
meus olhos sabem nadar.
(Sharlene Serra)
E assim, passeia pela vida, ora nadando, ora escrevendo... Na praia descansa, a paisagem abraça sua retina, o tempo sorri para a reflexão e ela une as suas digitais com as do seu pai, no passo lento que revigora, na companhia do Parkinson, no abraço do equilíbrio emocional, na espera ansiosa de um novo normal.
E mesmo assim, a pandemia prossegue, a vacina é a própria poesia que emociona, e rima com vida, esperança, a sensação é que estamos no meio da ponte, queremos chegar do outro lado, lamentamos as perdas, sofremos com cada vida: Quem não sofrer com o sofrimento do outro, busque terapia. Somos entrelaçados e a nossa intenção é de um mundo melhor para todos.
Ela, abre o bloco de anotação, sorri com as páginas das histórias escritas , contadas, riscadas, umas alegres outras entristecidas, escritas e reescritas durante a reflexiva pandemia.
Sobrevivemos a dores, perdas, faltou ar, mas a pandemia nos mostrou a importância e dimensão do verbo amar. convivemos entre medos receios e as palavras perguntam:
COMO SERÁ DEPOIS DE TUDO? COMO IREMOS FICAR?
Será que depois de tudo, voltaremos tranquilos para normalidade?
Será que veremos o abraço como uma necessidade?
ou o sentimento se derreterá por falta de verdade?
O estar junto, o aperto de mão, a companhia do outro, a fé, a oração. Depois de tudo, será que o amor vai ser nossa intenção?
E caso ocorra um espirro, ouviremos "saúde" ou teremos olhos arregalados reprovando nossa atitude?
Depois de tudo, as máscaras brincarão carnaval?
ou passaremos a usá-las como algo normal?
O álcool em gel será esquecido ou fará parte do nosso aroma preferido?
Depois de um tempo, a tosse que comumente sentimos, não será mais tormento?
E os alérgicos serão excluídos ou entendidos em seu sofrimento?
Dúvidas percorrem a mente, não dormem:
- Quando tudo acabar seremos diferentes?
Perceberemos o que realmente importa?
Ou precisa que o vírus retorne e bata nossa porta?
Será que haverá normalidade quando o vírus sumir?
E sairemos tranquilos como se nada tivesse acontecido,
brincando com o verbo existir? Será que não teremos medo do ir e vir?
De todas as dúvidas resta uma certeza
a lição está sendo dada,
que possamos depois de tudo entender que
a ausência do outro também mata
E que nos tornemos
HUMANOS, HUMANOS!
e mais nada.
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Sharlene Serra – de São Luís Maranhão, poeta, escritora. Graduada em desenho industrial, pedagogia e especialista em Ed. inclusiva, Participou de diversas antologias/coletâneas nacionais. Tem 7 livros publicados. Membro da Academia Poética Brasileira , vice presidente da AJEB- Associação de Jornalista e Escritoras do Brasil, coordenadoria do Maranhão, membro da AILB - Academia Internacional de Literatura Brasileira
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