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Brasil Convidados

Sharlene Serra, convidada especial escreve sobre, " A poesia reflexiva na pandemia "

Poesia e prosa.

02/07/2021 19h29
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Divulgação
Sharlene Serra
Sharlene Serra

Ela silenciou. Teve que silenciar para buscar força nas suas próprias profundezas. Conversou consigo, com seus medos, ficou frente a frente com seus receios , e se entrelaçou com as mãos da oração, unindo-a até ser uma só.  Sentiu a vida se manifestando novamente nos olhos daqueles que ela ama e não permitiu  afogar-se nas lágrimas das dúvidas e das noites mal dormidas , preferiu mergulhar e nadar nelas, nas horas que não passavam, aprendeu a tatuar o Carpe Diem no dia,  na própria escrita, no engasgo da fala interrompida, na falta de oxigênio que cala a vida,  na presença da ausência,  do riso da janela,  na conversa entre a tristeza e a alegria, no olhar reflexivo da própria pandemia, que nos ensina sobre o tempo.

TEMPORALIDADE 

Em minhas mãos 

a ampulheta 

tem pressa

grãos de 

medo, deslizam

.

No deserto

fortaleza-camuflagem 

gotas d'água

em prece 

miragem

.

Alimento-me com

grãos de areia e

doces de Cora

.

Corra! o tempo é 

agora.

.

Na areia deslizada 

a miragem em memórias 

o tempo  conversa 

revela  histórias 

.

A ampulheta - viva

o sol  da noite arde 

e um pensamento molhando

a areia, invade:

Ame! antes que seja 

tarde.

Sharlene Serra.

E ela segue, no seu tempo,  abraça a caneta, na catarse diária, no retorno do pulsar, escrevendo exaltando a fortaleza sentida através das palavras que moram em si e a fazem renascer a cada dia:

ESCREVIVÊNCIAS 

Estou viva!

Pulso? 

Escrevo!

Sei que estou viva 

na voz transcrita

da mulher-janela 

asas-folhagem 

quintal de infinitas

paisagens 

 

Meus dedos

pulsam

estou viva! 

Escrevo o tempo 

abraço o vento.

.

Sou menina - mulher

Entre colo e desejos

delineado no contorno

do meu reflexo

convertidos nas

palavras  que me definem e

me propagarão. 

.

Sim! Sou ser viajante

com  pés-asas

 entre céu 

e chão. 

.

E as paisagens

escorrem de mim

no percurso  das páginas 

a vida transformada em 

palavra escrita

guardada

nos papéis 

silenciados sobre a

mesa

 

A caneta engasga.

Silencia. 

O poema fica incompleto.

mas continuo escrevendo

através dos vazios sorridentes 

pela vida 

sentida, vivida, 

para renascer 

Frida.

(Sharlene Serra)

A resiliência ensinada por Frida inspira.  Aprendemos na pandemia a dar as mãos mesmo na distância ,  a dialogar com a insônia  e ouvir a voz dos nossos apelos, das súplicas da nossa própria intuição,  aprendemos a conviver com medo e  entender que precisamos dele para ter coragem, ele, o medo, nos ensina a acender a luz mesmo na escuridão. E vejo ela ao longe,  prosseguindo, aprendendo na presença do seu pai , que fé é medicamento, que areia massageando o pé é energia, alimento. E segue os caminhos, na pandemia, na conversa com o Parkinson, e com o glaucoma descobriu que  na escuridão existe  múltipla visão. O pai, ensina a não desistir, resiste com o fôlego de apenas um lado do pulmão. 

Ela Silenciou sim!  para que pudesse  contemplar as lágrimas , enxergando-as feito mar,  não permitiu que a mesma  a afogasse, mas  nadou nela  e refletiu   sobre cada gota...

Olhos Nadadores

Era apenas um dia 

mas meus olhos bordavam entre as nuvens 

escritos molhados 

Queria derramar todas as cores 

para tatuar o dia com exclamações 

 

Abomino tempos ácidos 

dedos em riste 

venenos que 

oxidam a poesia 

 

Em silêncio meus olhos úmidos 

mergulham na angústia 

do que vem e ouvem

meus olhos sabem nadar.

(Sharlene Serra)

 

E assim, passeia pela vida,  ora nadando, ora escrevendo... Na praia descansa,  a paisagem abraça sua retina, o tempo sorri para a reflexão e ela une  as suas digitais  com as do seu pai, no passo lento que revigora, na companhia do Parkinson,  no abraço do equilíbrio emocional, na espera ansiosa de um novo normal.

E mesmo assim, a pandemia prossegue, a vacina é a própria poesia que emociona, e rima com vida, esperança, a sensação é que estamos no meio da ponte, queremos chegar do outro lado,  lamentamos as perdas, sofremos com cada vida: Quem não sofrer com o sofrimento do outro, busque terapia. Somos entrelaçados  e a nossa intenção  é de um mundo melhor para todos. 

Ela, abre o bloco de anotação,  sorri com as páginas das histórias escritas , contadas, riscadas, umas alegres outras entristecidas, escritas e reescritas  durante  a reflexiva pandemia.

 Sobrevivemos a dores, perdas, faltou ar, mas a pandemia nos mostrou a importância e dimensão do  verbo amar. convivemos entre medos receios e as palavras  perguntam:

COMO SERÁ DEPOIS DE TUDO? COMO IREMOS FICAR?

Será que depois de tudo, voltaremos  tranquilos para normalidade?

Será que veremos o abraço como uma necessidade?

ou o sentimento se derreterá por falta de verdade?

O estar junto, o aperto de mão, a companhia do outro, a fé, a oração. Depois de tudo, será que o amor vai ser nossa intenção? 

E  caso ocorra um espirro, ouviremos "saúde" ou teremos olhos arregalados reprovando nossa atitude? 

Depois de tudo, as máscaras brincarão carnaval?

ou passaremos a usá-las como algo normal? 

O álcool em gel será esquecido ou fará  parte do nosso aroma preferido?

Depois  de um tempo,  a tosse que comumente sentimos, não será mais tormento?

E os alérgicos serão excluídos ou entendidos em seu sofrimento?

Dúvidas percorrem a mente, não dormem:

- Quando tudo acabar seremos diferentes?

Perceberemos  o que realmente importa?

Ou precisa que o vírus retorne e bata nossa porta?

Será que  haverá normalidade quando o vírus sumir?

E sairemos tranquilos como se nada tivesse acontecido,

brincando com o verbo existir? Será que não teremos  medo do ir e vir?

De todas as dúvidas resta uma certeza

a lição está sendo dada,

que possamos depois de tudo entender que

a ausência do outro também mata

E que nos tornemos 

HUMANOS, HUMANOS!

e mais nada.

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Sharlene Serra – de São Luís Maranhão, poeta, escritora. Graduada em desenho industrial, pedagogia e especialista em Ed. inclusiva, Participou de diversas antologias/coletâneas nacionais. Tem 7 livros publicados. Membro da Academia Poética Brasileira  , vice presidente da AJEB- Associação de Jornalista e Escritoras do Brasil, coordenadoria do Maranhão, membro da AILB - Academia Internacional de Literatura Brasileira

 

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