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Crônica especial do professor Natalino Salgado Filho: "Reaprendendo a estar presente"

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09/07/2021 18h58 Atualizada há 2 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Natalino Salgado Filho
Natalino Salgado Fº
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Reaprendendo a estar presente

*Natalino Salgado Filho 

O mundo virtual passou a ser, com a pandemia, mais real do que nunca. O evento pandêmico acelerou um processo de velocidade vertiginosa, já iniciado. São inegáveis os benefícios econômicos, relacionais e práticos que os serviços virtuais proporcionam e todas as incríveis possibilidades que oferecem. Mas, como tudo na vida, eles têm seus efeitos colaterais. Vários estudos têm mostrado as consequências dessa presença em configuração, porque falta contato humano ocasionado pela virtualização da vida.

A revista Mente Saudável publicou um artigo da psicóloga Camila Cury, que defende, como forma de mitigar e até reenfrentar esta situação, o aprendizado do gerenciamento das emoções por conta do aumento da dependência e quase que pela total intermediação das tecnologias na vida cotidiana. Menciona várias pesquisas recentes que revelam o aumento da utilização dos meios virtuais de comunicação. Em 2019, duas, em cada três pessoas adultas, no Brasil, gastavam mais de três horas diárias com essa forma de comunicação. A autora do artigo de Mente Saudável advoga que a educação que fortalecer competências emocionais está no caminho certo para dar às pessoas algum tipo de resiliência.

A Deutsche Welle, emissora pública alemã em inglês, dedicou um documentário inteiro com alunos do ensino médio, na Alemanha, para discutir sobre as consequências do isolamento. É preocupante o que os jovens revelam. Pode-se perfeitamente pensar que a sociedade terá que lidar com as sequelas do confinamento. 

A Unicef mostrou que, no mundo, um em cada três jovens sofre bullying pelos meios virtuais. E ainda uma pesquisa de um site de psicologia, utilizando dados, entre 2016 e 2019, declarou que 86% dos brasileiros teriam algum tipo de transtorno mental. Os estudos revelam que há um tipo de erosão relacional em consequência da diminuição das relações humanas concretas. 

O ser humano é essencialmente um ser social, recorda a professora Belinda Mandelbaum, do Instituto de Psicologia da USP. Essa pesquisadora e psicóloga defende a ideia de que o corte brusco das relações sociais a que fomos submetidos pode gerar uma série de problemas que vão moldar a forma com que viveremos depois que tudo isso passar. Talvez nunca nos curemos. 

Para o bem ou para o mal, quer queiramos ou não, é um mundo novo. Chegou mais rápido do que imaginávamos. Nossa capacidade adaptativa está sendo posta à prova e ainda não sabemos lidar com o desafio. A questão é: usaremos os meios virtuais para cuidar ou adoecer?

Desde o início dos tempos, a razão básica para nosso sucesso foi a cooperação, a força do grupo e sua divisão de tarefas. Alguns até explicam que uma das causas de não termos neandertais entre nós é que eles não tinham a habilidade de cooperar. Seja como for, parece ser verdade incontestável que precisamos do contato humano real como fonte de nossa própria construção humana, como também fonte primitiva da formação pessoal. 

Isso tem a ver com falar olho no olho. Caminhar lado a lado. Estender a mão fisicamente e ter este contato tátil. Será que a ciência nos dará roupas hápticas, ultrassofisticadas, capazes de simular cada sensação possível e de substituir cada vez mais o contato humano direto e que nos acostumaremos com outras formas de presença? Será que a ciberdependência - um transtorno que atinge aqueles que não conseguem mais “desplugar”, “desconectar” - deixará de ser transtorno?

De qualquer forma, como lembra o poeta Tiago de Melo, novo não é o caminho, é a forma de caminhar. Aprender novas formas de interação – ainda que tenhamos que exercitar uma boa dose de paciência e resiliência – permite-nos não perder de vista os sentimentos. Estes sempre devem ser reais. Possibilidades de ser presença para o outro. A verdadeira motivação pela qual continuaremos a existir como humanidade.

*Natalino Salgado Filho. Médico Nefrologista, Reitor da UFMA, Titular da Academia Nacional de Medicina, Academia de Letras do MA e da Academia Maranhense de Medicina.

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