A carta da saudade
José de Oliveira Ramos*
Quando o Carteiro chegou ao número 30, em vez de tocar a campainha, preferiu bater palmas. Eu estudava para a prova do dia seguinte na universidade. Era ponto de honra realizar uma boa prova e garantir mais uma boa nota.
Minha mãe, que atendera o chamado, falou alto: "Filho, é para você"!
Parei de estudar e fui atender, pois precisava de assinatura para receber a correspondência. Carta simples, porém importante, que acabou sendo preponderante para a nossa relação iniciada havia pouco tempo.
Abri e passei a ler, atentamente:
"Há horas que a saudade me faz sangrar. É um sangue incolor, salgado, esfumaçado, doído, como se extraído a fórceps. Dói demais!
É uma saudade danada! Saudade de ti, de mim, de nós!
Saudade do que fui, sem querer ser. Saudade do que poderia ter sido, e não fui!
Saudade até de quando eu for!
Dói!
Saudade do vento, do amanhecer e do sol quente que me fazia suar e do suor que me fazia chorar, sentindo saudade de ti.
Dói muito!
Saudade daquela noite em que nos entregamos e das lágrimas que chorei por te perder no dia seguinte e por mais alguns dias!
Saudade do teu sorriso na manhã seguinte.
Saudade do ontem. Do hoje e do amanhã, que um dia será hoje e depois será ontem.
Saudade da menina que fui e da idosa que um dia serei. Saudade de mim, de ti, de nós!
Dói e corta fundo!
Saudade das nuvens que eram minhas. E daquelas que eu não tinha!
Saudade dos caminhos, das trilhas, das veredas e das estradas por onde andamos de mãos entrelaçadas.
Saudade da minha infância. Da amarelinha, do bambolê, da minha saia rodada que facilitava nossas carícias, e das estórias construídas e contadas em castelos de ventos e de areia.
Saudade de tudo. Do pôr do sol que víamos juntos, das rosas que me destes, dos beijos trocados e até de sentir ciúmes de ti. Parabéns saudade, pois estou com saudade de ti.
Saudade – (Pablo Neruda)
Saudade é amar
Um passado
Que ainda
Não passou.
É recusar
Um presente
Que nos machuca,
É não ver
O futuro
Que nos convida.
Saudade do futuro. Saudade de tudo e até do que eu nunca vi.
Saudade da paz que eu quero ter e daquela que eu nunca tive.
Saudade grande!
Dói!
Mas, a maior saudade é de ti. De mim. De nós!
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*Parte do meu livro pronto (e quase no prelo – como diziam os "antigos"): "Quarenta contos de réis" - JOR
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