
AS CORES DO SWING
Livro de Augusto Pellegrini
Capítulo 3 – A magia do swing – Parte 2
O swing é conhecido como a música das grandes orquestras, pois apesar de ser também interpretado por pequenos grupos – que costumavam destacar a seção rítmica (piano, contrabaixo e bateria) com o acréscimo de um ou dois outros instrumentos – na maioria das vezes apresentava uma formação robusta com dezesseis a dezoito instrumentos, incluindo um poderoso suporte dos naipes dos metais e das madeiras.
Os saxofones, musicalmente conhecidos como "reeds" ou madeiras, emprestavam uma grande importância ao som do swing pela variedade de timbre e pela diferente altura proporcionada pelos seus diversos tipos. Uma grande orquestra não podia prescindir do sax-alto, do sax-tenor e do sax-barítono.
Nas primeiras orquestras de swing o clarinete ocupava o lugar do sax-soprano, mas nas formações mais contemporâneas o sax-soprano conseguiu encontrar o seu lugar. A família dos saxofones foi a principal responsável pelo som vocalizado das orquestras porque o saxofone é o instrumento musical cujo timbre mais se aproxima da voz humana.
Se os saxofones tinham a responsabilidade de destacar a parte harmônica da música, a força e o brilho da interpretação ficavam por conta dos trompetes e trombones, também conhecidos como "brass" ou metais.
Nos pequenos conjuntos o som era suavizado, mas a expressão, o andamento e o ritmo eram mantidos da mesma forma quente e vigorosa.
Entre os pequenos grupos, vale a pena ressaltar o trio, quarteto e quinteto do clarinetista Benny Goodman, o sexteto do contrabaixista John Kirby, o Gramercy Five conduzido pelo clarinetista Artie Shaw e o Louis Jordan & His Tympany Five (este mais voltado para o rhythm & blue), assim como os combos comandados por Duke Ellington, Buster Bailey, Barney Bigard, Bunny Berigan, Chu Berry, Bud Freeman, Count Basie, Teddy Wilson, Red Norvo, Stuff Smith, Lionel Hampton, e muitos outros.
Entre as grandes orquestras, podemos citar Luis Russell, Earl Hines, Ben Pollack, Jimmie Lunceford, Kay Kyser, Tommy & Jimmy Dorsey, Bob Crosby, Erskine Hawkins, Cab Calloway, Isham Jones, Harlan Leonard, Claude Hopkins, Chick Webb, Don Redman, a Jeter-Pillars Orchestra, a Sunshine Serenaders, as bandas de Kansas City (Bennie Moten, Andy Kirk e Jay McShann), a Mills Blue Rhythm Band de Lucky Millinder, as orquestras de Benny Carter, Bunny Berigan, Charlie Barnet, Harry James, Glenn Miller, Woody Herman, Artie Shaw, Lionel Hampton e a Casa Loma de Glen Gray. E é impossível não mencionar os grupos comandados por Fletcher Henderson, Duke Ellington, Count Basie e Benny Goodman.
Nunca é demais fazer menção à importância que o swing teve com respeito à miscigenação de músicos dentro de uma única orquestra. Apesar de não ser inteiramente comum, era perfeitamente possível a presença de negros e brancos tocando dentro de um mesmo grupo de swing, o que raramente acontecia com o dixieland e jamais acontecia com as ditas orquestras europeizadas. Mesmo quando não podiam se apresentar juntos em locais públicos por força dos contratos ou do regulamento das casas, negros e brancos constantemente se juntavam para eventuais jam-sessions ou ensaios.
Assim, pode-se dizer que o swing ajudou a democratizar o jazz.
Já o jazz tradicional, com poucas e honrosas exceções, era dominado pelas bandas compostas por músicos negros. É claro que dentro deste etilo existiam excelentes bandas de músicos brancos, e entre as melhores podemos mencionar as já citadas The Wolverine Orchestra, de Bix Beiderbecke, a New Orleans Rhythm Kings, de Paul Mares e Elmer Schoebel, e a Original Dixieland Jass Band, de Nick LaRocca, que realmente rivalizavam em qualidade com as bandas "negras". Mesmo assim, o jazz tradicional ainda era, na sua essência, uma música negra tocada por músicos negros e voltada para um público negro, e não tinha muita aceitação dentro da juventude da classe média americana. Além disso, apesar de ter mudado de status ao subir o Mississipi, o jazz tradicional não deixava de ser um tipo de música de cabaré, mesmo quando tocado para plateias mais exigentes.
Com o surgimento do swing, o jazz virou música de salão – fato que inclusive contrariou muitos músicos negros – atingindo em cheio não apenas a classe média como também a antiga classe endinheirada que fizera dos anos 1920 o seu apogeu de festas e recepções.
Como foi mencionado no livro "Jazz – das Raízes ao Pós Bop", de minha autoria, "o swing alargou os horizontes do jazz, provocando uma maciça participação da classe média, incrementou o mundo das gravadoras, multiplicou o número de shows e trouxe fama e dinheiro para muitos artistas de jazz".
Historicamente, o swing uniu o povo americano em torno de uma música, e esta música era o jazz. Mais do que isso, o swing uniu o povo americano em torno de uma ideéia, que tinha muito a ver com orgulho nacional. Mesmo rotulado de "jazz comercial" e criticado por utilizar partituras além do que o músico improvisador desejaria, o swing cresceu e dominou o panorama musical do país durante cerca de trinta anos – de 1920 a 1950 – ajudando a formatar o estilo americano de viver, o chamado "American way of life".
Devido à sua natureza peculiar, o swing necessitava de três elementos essenciais para a sua existência e para o seu desenvolvimento.
O primeiro elemento era o maestro, chamado de bandleader, que preparava o repertório, conduzia as apresentações e era literalmente o dono da orquestra. Às vezes, o maestro se valia de um empresário para negociar contratos e apresentações, tratar da parte burocrática da orquestra e tomar para si a desagradável incumbência de demitir aqueles músicos que já não interessavam.
Em muitas orquestras, porém, era o próprio maestro quem cuidava desta parte, deixando para um gerente a supervisão logística do grupo, as providências a respeito da manutenção dos instrumentos, a preparação das viagens e estadas, e os detalhes referentes aos ensaios e apresentações. Às vezes este gerente era sócio do maestro no empreendimento, outras vezes ele era simplesmente uma pessoa contratada para a execução das tarefas.
O segundo elemento era o arranjador. O arranjador era muito importante, pois era ele o responsável pela produção do som que caracterizava a orquestra.
Às vezes o maestro era o próprio arranjador, mas geralmente ele se valia dos serviços de um especialista para aliviar a sua carga de trabalho e para traduzir nas partituras as idéias que ele – o maestro – tinha em mente.
Muitos arranjadores, mais cedo ou mais tarde se transformariam em donos de orquestra. A lista inclui Fletcher Henderson, Don Redman, Claude Hopkins, Benny Carter, Glenn Miller, Luis Russell, Mary Lou Williams, Sy Oliver, Ray Conniff, Jerry Gray e Billy May. Outros arranjadores, caso de Van Alexander, Andy Gibson, Ed Wilcox, Jimmy Mundy, Ernie Wilkins, Edgar Sampson, Nat Pierce, Neal Hefti e Billy Strayhorn preferiram se manter como grandes anônimos exercendo o seu nobre trabalho de parceiro nos arranjos e nas composições para maestros de renome e apenas excepcionalmente conduziram as suas próprias orquestras.
Billy Strayhorn, em especial, dedicou a Duke Ellington mais de vinte e cinco anos de sua carreira de arranjador e compositor, e sua cumplicidade era tamanha que às vezes ficava difícil separar o trabalho dele do trabalho de Ellington.
O terceiro elemento importante de uma orquestra de swing era o solista principal. Toda orquestra possuía um instrumentista diferenciado que ditava o seu estilo e servia como referência para o público. Em certas orquestras – caso de Cab Calloway, Billy Eckstine, Bob Crosby, Lucky Millinder, Noble Sissle, Ray Noble e Rudy Vallée – o solista principal não era um instrumentista, mas um cantor, "coincidentemente" eles próprios, os comandantes do grupo.
Vídeo Bônus: Benny Goodman Quartet - Avalon
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