Quarta, 10 de Junho de 2026
11°C 18°C
Curitiba, PR
Publicidade

“Cem Anos de Solidão” chega aos 59 anos e prova que Macondo continua mais viva do que muitas histórias modernas, contadas por ai

Publicado em 1967, o romance de Gabriel García Márquez atravessa gerações, mantém força estética rara e reafirma seu lugar entre as obras mais influentes da literatura mundial.

01/04/2026 às 16h30 Atualizada em 01/04/2026 às 16h55
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editorias do Facetubes c/Mhario Lincoln
Compartilhe:
MHL
MHL

*Mhario Lincoln, poeta e jornalista.

Eu confesso que não tinha a minha ideia do que poderia a vir ser “Cem Anos de Solidão”. A única coisa que sabia era sobre seu lançamento, em 1967, e que o autor era Gabriel García Márquez. Lá pelos anos 90, então, passando por uma livraria paulista, o livro estava exposto na vitrine principal com uma tag: mais de 5 mil livros vendidos. Imediatamente (olha o merchandising funcionando) parei e decidi comprar. À princípio pensei: ”como a viagem é longa na volta para São Luís, o livro pode me fazer companhia e passar o tempo”. Para a minha surpresa, a obra acabou sendo muito mais que isso e quase perco o embarque porque minha leitura estava ávida pelo final do capítulo que lia, naquele momento.

 

Continua após a publicidade
 Edição 25ª, capa e ilustração do grande Carybé. 

Na verdade, logo às primeiras folhas, Márquez dá um verdadeiro show de composição fantástica quando começa o livro in medias res, (uma técnica-narrativa onde uma história começa diretamente no meio da trama, pulando introduções longas, sendo muito comum na literatura épica, como em Os Lusíadas). Detalhe: mas não no presente. Ele começa no futuro da morte possível — o pelotão de fuzilamento — e, no mesmo fôlego, recua à infância e ao assombro do gelo. Isso me prendeu tanto a atenção que nunca esqueço esse começo antológico porque é um movimento criador de uma anacronia poderosa, em que destino e memória nascem juntos. Logo depois, vem a descrição de Macondo como aldeia primordial, onde “muitas coisas careciam de nome”.

O LIVRO. A linha do tempo de Cem Anos de Solidão: 1967, publicação original do romance. A 1º edição brasileira é de abril de 1977, de acordo com o catálogo da própria editora. Em 2017 foi lançada uma edição especial comemorativa dos 50 anos da obra, pela própria Record.

 

Continua após a publicidade

Ora, mutatis mutandi, tal fato dá ao romance um tom de gênese, como se García Márquez estivesse fundando não só uma cidade, mas o próprio idioma do mundo narrado. Não satisfeito, na verdade, extremamente impactado com a linguagem de Márqez, procurei outros críticos para avaliarem a obra. São inúmeros. Contudo, muitos deles, prolixos e monótonos. Mas  um deles, Fredric Jameson (filósofo, crítico literário), me deu a luz que precisava ao dizer que Cem Anos de Solidão era, na verdade, “um raro momento de uma nova criação, livro marcado pela pureza inaugural de Macondo e pela força de um ponto de partida quase utópico”.

Mas, Márquez não está sozinho nessa concepção geo-imaginária. Ele se junta a Willian Faulkner, (escritor norte-americano, considerado um dos maiores romancistas do século XX) e Juan Carlos Onetti (romancista e contista uruguaio considerado não só o escritor mais importante que teve a literatura de seu país, mas um dos maiores criadores de ficção em espanhol do século XX). Os três, pertencem a uma mesma linhagem de romancistas que transformaram a cidade imaginária em muito mais do que cenário: fizeram dela uma máquina de memória, destino e visão de mundo.

Vale ainda entender (para ler Cem Anos de Solidão com entendimento e apreço) que Faulkner veio primeiro, ao pôr em circulação, em Sartoris (1929), o universo de Jefferson e do condado de Yoknapatawpha; Onetti veio depois, criando Santa María em La vida breve (1950). Sé então surge García Márquez criando Macondo em La hojarasca (1955), cidade que alcançaria consagração planetária em Cem Anos de Solidão (1967).

Continua após a publicidade

Acrescento, ainda, que a relação entre eles é reconhecida pela crítica porque o Nobel publicou (através de seus veículos de notícias, em matéria da época), que os grandes romances de García Márquez “lembram William Faulkner”, embora tenha ressaltado também que o colombiano criou “um mundo próprio” em torno de Macondo.

 

Pois bem! Voltando à abertura de Cem Anos de Solidão (que me impactou muito), essa, não é apenas lírica ou fabulosa, pois anuncia a tragédia histórica e humana que virá. É isso que a torna tão alta literariamente — a frase une infância, violência, mito, memória e história numa única respiração narrativa. Tanto que lí a crítica de Robert Kiely, no The New York Times, onde ele observa que Macondo “não é terra do nunca”, isto é, não é fuga vazia da realidade, mas “um mundo imaginário com densidade humana verdadeira”.

Com isso, lendo além do livro, além das páginas e pesquisando à volonté em dezenas de milhares de publicações na internet, ficou inevitável, também, não aplaudir Márquez, nessa obra, junto à crítica mundial porque li um romance que reuniu dez virtudes raras numa única arquitetura literária. Vou tentar debulhar aqui:

A primeira é a invenção de cenário, porque Macondo deixou de ser pano de fundo e passou a funcionar como organismo vivo. A segunda é a escala genealógica, já que os Buendía atravessam o tempo como uma linhagem quase bíblica. A terceira é o domínio do chamado realismo mágico, em que o insólito entra na narrativa com absoluta naturalidade. A quarta é o tratamento do tempo, não como linha reta, mas como círculo, retorno, profecia e repetição. E, por último, a quinta com o uso calculado da repetição de nomes e temperamentos, recurso que transforma herança familiar em destino moral.

As outras cinco razões completam o edifício. A sexta está na centralidade da memória, porque o romance mostra que lembrar e esquecer também moldam povos e famílias. A sétima é a presença da história política e social da América Latina sem cair em panfleto, convertendo violência, exploração, poder e apagamento em matéria de alta literatura. A oitava é a linguagem de García Márquez, exuberante, sensual e precisa, capaz de parecer oral e monumental ao mesmo tempo. A nona é justamente essa fusão entre tradição oral e grande romance moderno, o que dá ao livro acolhimento popular sem perda de sofisticação. E a décima está no desfecho, que não apenas encerra a narrativa, mas relê todo o romance sob a luz do destino e da revelação.

Continua após a publicidade

Por isso e por causa disso, o Nobel reconheceu em García Márquez a fusão entre “o fantástico e o realista” num mundo imaginativo que reflete “a vida e os conflitos” de um continente inteiro. Essa formulação ajuda a explicar por que o romance é tão aplaudido: ele não se limita a contar a saga de uma família, mas transforma a literatura em laboratório da história, da paixão, do poder, da solidão e da ruína. Por isso o livro segue sendo lido como obra-prima do realismo mágico e, mais do que isso, como uma das formas mais altas que o romance encontrou para pensar o destino humano.

E finalizo confessando algo importante. Debaixo do meu travesseiro, costumo guardar três obras que me alavancaram para sempre: Cem Anos de Solidão, (Márquez) O engenhoso fidalgo dom Quixote de la Mancha (Miguel de Cervantes) e Tambores de São Luís (Josué Montello). A partir daí me sentei na primeira fila de um bonde imaginário ou de um Expresso Polar, aquele mesmo, escrito por Chris Van Allsburg.

Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta e jornalista.

 

Continua após a publicidade
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Edomir OliveiraHá 3 meses MaPresidente da APB HOJE depois deste texto, passo a ler, "Cem Anos de Solidao" sobre outra ótica mesmo não gostando de temas que envolvam guerra. PARABENS.
Neves Azevedo Há 3 meses São Luís MA Uma obra do realismo mágico. Uma interpretação realista e sensacional. Bravo! Neves Azevedo.
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
11°
Tempo nublado

Mín. 11° Máx. 18°

11° Sensação
1.14km/h Vento
97% Umidade
100% (14.44mm) Chance de chuva
06h59 Nascer do sol
05h34 Pôr do sol
Qui 17° 13°
Sex 15° 12°
Sáb 20° 12°
Dom 13° 12°
Seg 12°
Atualizado às 04h01
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,18 +0,11%
Euro
R$ 5,97 +0,07%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 336,024,09 -0,85%
Ibovespa
169,813,16 pts 0.68%
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias