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Eloy Melonio, aplaudido poeta e escritor maranhense estreia com um conto perfeito

Prosa/Conto

29/07/2021 17h13 Atualizada há 5 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Eloy Melonio
Poeta e escritor
Poeta e escritor

JUGO E LIBERDADE

Eloy Melonio  

A São Silvestre — encravada no Nova Aurora, bairro de classe média — estava cheia de gente quando Jaime Guerra, seu mais novo morador, chegava de seu plantão. Eram 7h30, e movimentação deixou-o perplexo, porque a rua era pouco movimentada. Na feição das pessoas, uma comoção generalizada.

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Viaturas da PM e do IML ocupavam a rua. Policiais estendiam fitas amarelas para demarcar áreas restritas. Equipes de TV e jornais, fotógrafos e blogueiros buscavam o melhor ângulo e a informação mais precisa. Já sabiam do que acontecera na casa de dois andares, a mais bonita da rua. Mas, nem Dona Carmem, — fofoqueira por vocação — imaginava que o casal que jazia na sala tinha problemas de relacionamento. 

A São Silvestre não é um paraíso, pensou Jaime, olhando ao redor. E o mundo tá longe de ser “esse melhor lugar”, como sonhavam John Lennon e Michael Jackson. 

Em maio de 2004, aos 26 anos, o recém-formado enfermeiro Jaime Guerra assumia seu primeiro emprego no Hospital do Servidor Municipal. Um ano depois, casava-se com Ana Marinelli na igreja de N. Sra. da Paz, numa cerimônia simples, com familiares e amigos.

Jaime e Ana se conheceram em 2002 por ocasião do Festival de Música da universidade onde estudavam. Acadêmica de Serviço Social, ela ficou em segundo lugar na categoria “intérprete”, apesar dos efusivos aplausos da plateia, que — insatisfeita — criou uma musiquinha para protestar: Ana Marinelli, primeiro lugar. Esse júri é devagar! 

Jaime era um desses fãs entusiasmados, e fez questão de lhe dizer isso logo após o evento. Daí em diante, um relacionamento amoroso nasceu entre os dois. 

A vida conjugal ia muito bem, não fosse um pormenor: de vez em quando Ana era convidada para eventos artísticos. Nunca pensou em seguir carreira na música, mas gostava de cantar e tinha amigos cantores. E adoraria participar de alguma coisa. No entanto — sempre que convidada — esbarrava na recusa irrefutável do marido. Calava-se para evitar um clima de animosidade apesar de sentir certa frustração. 

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“Não é não, e c’est fini”, gritou Jaime certo dia, quando ela falou do convite de Clara Diaz, uma amiga da faculdade. Clara ia lançar uma música que versava sobre “amor e prazer”. Morena de olhos verde-claros e corpo escultural, Ana apareceria de biquini em alguns momentos num videoclipe a bordo de um catamarã. 

No dia seguinte Jaime pediu-lhe desculpas. E prometeu que esse tipo de destempero não se repetiria. Mas deixou claro que jamais diria “sim” a tais convites. Fez questão de frisar que se casou com uma mulher que se dispusesse a ser dona de casa e mãe. 

Ana nunca exerceu sua profissão. Formou-se e casou-se quase no mesmo ano. O salário de Jaime, agora com dois empregos, dava para levar uma vida tranquila: casa confortável, carro novo, duas ou três viagens por ano. De certa forma, Ana se acomodou com esse estilo de vida. Jaime decidiu ter logo um filho, talvez para consolidar a relação. Ana concordou, mas, — intimamente — não sentia a maternidade como uma vocação inata. 

Aos 9 anos, Anabela era uma menina esperta, conectada às redes sociais. E “viciada” em séries e videogames! Mas, nos estudos... Certo dia os pais foram convocados à escola para tratar de assuntos “disciplinares”, e de certa deficiência no desempenho escolar. 

Calado, Jaime acompanhava a esposa enquanto ela conversava com os coordenadores. Mas explodiu de insatisfação assim que entraram no carro:

— Bullying! Nossa filha envolvida com bullying! Não bastasse isso, as notas baixas!

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— É realmente muito triste. Não consigo acreditar.

— Isso é resposta, Ana Marinelli?! Isso é resposta?! 

À noite, repreendeu Anabela severamente, exigindo-lhe atitudes mais decentes e mais dedicação aos estudos. E ameaçou tirar-lhe o celular. Por causa de sua intensa carga de trabalho, Jaime não tinha tanto tempo para a família. Esperava que a esposa cuidasse de tudo. Afinal, isso não era nenhum bicho de sete cabeças, repetia em momentos de tensão. 

A partir desse episódio, a relação desandou. Qualquer descuido da esposa, Jaime aproveitava para apontar sua inaptidão para a função de mãe. Sabia que ela não era de alimentar discussões nem guardar rancor. E essa era a sua principal arma para, vez por outra, ressaltar seus pontos fracos. 

À beira de uma crise, Ana tentou entabular algumas DRs — expressão popular para “discutir a relação”. Sempre na ofensiva, Jaime buscava sufocá-la, acusando-a de coisas do presente e do passado — inclusive de sua duvidosa aproximação com Carla Diaz. 

Desesperada, Ana correu para os braços da mãe:

— O casamento não é uma travessia tranquila. Momentos turbulentos também estão nessa rota. E para preservar a família, temos de nos sacrificar. Paciência, filha!

— Paciência?! A minha já se esgotou há um bom tempo. 

Ana logo percebeu que estava no meio de um conflito. E conflitos se resolvem com orientação profissional. Chegou a essa conclusão depois de ler, por sugestão de uma amiga, “A difícil arte de conhecer o outro”, no site de Thiago Zanetti:

Desvendar os mistérios do recôndito da alma humana é uma tarefa difícil, que se faz por toda a vida. Desvendar o outro, conhecê-lo por dentro, tocar sua intimidade, exige esforço de quem quer conhecer; e demanda abertura de quem se deixa conhecer. 

Mais encorajada, decidiu perscrutar esse tal de “recôndito da alma”. Pensou em terapia de casal. Jaime descartou a ideia, dizendo que não havia necessidade desse tipo de intervenção. Aceitava “dialogar”, mas não se submeteria a um tratamento convencional. 

E sugeriu um fim de semana num balneário perto da cidade. Ana chegou a pensar que, num clima de praia, o encanto do mar poderia driblar o tédio da vida real. Voltaram antes do dia previsto. 

Mais próximas, mãe e filha conversavam sobre quase tudo. Aos 11 anos, Anabela já percebia a apatia entre os pais. Sabia que a mãe valorizava a paciência, o entendimento, as passo que o pai se desviava de sua função paterno-conjugal. Apesar da idade, parecia entrever o futuro dos pais. E passava a mão nos olhos para evitar que as lágrimas denunciassem sua apreensão. 

Se o que já estava ruim podia piorar, Jaime agora se demorava para chegar em casa. Desculpas não lhe faltavam. Ora um amigo o convidava para jantar; ou — já diretor do Hospital do Servidor — reunião com o secretário de saúde. E tudo geralmente terminando com umas “cervejinhas”. 

Certo dia, já quase duas da manhã, Ana encarou o marido à entrada da casa. Numa reação impulsiva, Jaime empurrou-a ao chão. Com luxação no ombro esquerdo, ela recusou sua ajuda, e recorreu à mãe para levá-la a um hospital. 

Dessa vez, sua mãe sugeriu-lhe buscar ajuda policial. Resoluta, Ana negava-se a recorrer à polícia ou a outro órgão de proteção à mulher. Não gostava de ouvir falar de “violência doméstica”, “Lei Maria da Penha”. Pensava na repercussão dessas demandas junto à filha, às amigas. E dizia a si mesma: — Não, isso não! 

Outras ocorrências contribuíram para a ruína do casal, principalmente a suspeita de uma amante:

— Como negar algo que está na sua cara, nas suas atitudes, nas suas roupas. Olha, Jaime, eu tolero tudo, menos traição. 

Diante das evidências, Jaime tentava se defender, e deixava implícita uma ameaça:

— Se você pensa assim, imagine eu, que sou homem. 

Pela primeira vez, sentiu-se acuado. Percebeu que Ana era uma nova mulher. Mais assertiva e menos submissa, já falava em separação. Jaime silenciou, deixando nítida a sua confissão. 

Se a vida pode nos levar a mares inimagináveis e nos deixar em algum porto no meio do oceano, foi o que aconteceu com Ana Marinelli Guerra. Rebaixada à condição de “traída”, — e já moralmente divorciada da relação conjugal — aceitou participar do novo clipe de Clara Diaz. 

Enfurecido, Jaime tentava restaurar o status de marido. Não tinham mais a intimidade de casal, mas doía-lhe imaginar um affair entre Ana e Clara. Era evidente que as duas se aproximavam cada vez mais. Certa noite, Carla reuniu amigos num restaurante para celebrar seu níver. E Ana foi a estrela da festa, cantando algumas canções de autoria de Clara. 

Conversaram sobre música como linguagem universal. Sobre o videoclipe, a emoção de cantar. E sobre a vida como “uma peça de teatro que não permite ensaios”. Enfim, um cenário que só mesmo um poeta da estirpe de Carlos Drummond de Andrade conseguiria descrever: O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar./ O mar é grande e cabe no colchão de amar./ O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar. 

Como numa ópera dramática, Ana e Clara flutuavam na confluência “mar-amor-amar”. Perdida no recôndito de sua própria alma, Ana acreditava que cabia ao tempo — cedo ou tarde — dizer o que a vida lhe reservava. Pensava na filha e no que Jaime seria capaz de fazer para tolher a liberdade que ela, a duras penas, estava conquistando.

O tempo passa incessante, e — para alguns — com “fúria cega e irresistível”, como se rompendo paredes. Os que ficam sentem seu ímpeto, e dos que se vão fica só a saudade.

Era a última noite do ano, e um corre-corre ocupava toda a São Silvestre. Dona Carmem, sempre atenta aos acontecimentos, gritava aos quatro cantos: Oh, Jesus! É o fim do mundo! Dona Ana, oh, meu Deus, não dá pra acreditar!

Conduzido por dois policiais, o enfermeiro Jaime Guerra foi jogado num camburão da PM. Sabia que acabara de escrever o último capítulo de sua biografia. Ofegante, dizia a si mesmo: Sorry, John, sorry, Michael. Este mundo jamais será o mundo dos seus sonhos.

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Eloy Melonio:

RESUMO BIOGRÁFIO (Atualizado em 28-7-2021)

Eloy Melonio é escritor, poeta e compositor. Natural de São Luís (MA) formou-se em Letras pela Faculdade Atenas Maranhense (FAMA) em 2007. Já publicou quatro livros, dois de cunho religioso e dois de poemas. É membro-fundador da AMEI (Associação Maranhense de Escritores Independentes) e da ATHEART (Academia Ateniense de Letras e Artes/2019). Em 2018, idealizou o “Dia Municipal da Poesia” (Lei 6.394, de 7-12-2018). Conquistou dois prêmios literários: terceiro lugar (poesia) no III FESTMACPU, da UEMA/2017, e teve três trabalhos selecionados no prêmio AMEI/2020 (conto, crônica e poesia). Prepara-se para o lançamento de seu segundo livro de poemas (TRAVESSIA) em setembro deste ano. Atualmente coordena o projeto Laços Poéticos, iniciado em 4-12-2020.

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Kalil Guimarães Há 5 anos atrásBrasília DFEloy és excelente. Sucesso para”TRAVESSIA”.
Ruberval SantiagoHá 5 anos atrásBrasília DFAtualíssimo conto contado de uma forma entendível. Gostei demais disso. espero ler outros. Como todo mês a gente esperava a revista SELEÇÕES para ler um bom conto. Lembra disso?
Marcinha LuzHá 5 anos atrásCohab-Maprofessor Eloy que bom ler seu conto aqui. Maravilhoso.
Beatriz RibeiroHá 5 anos atrásSão Luís/ MAParabéns grande poeta e escritor Eloy Melonio...
JORGE DE JESUS PASSINHO E SILVAHá 5 anos atrásPaço do LumiarCenas da vida ainda atual, perfeito.
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