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Brasil Análise litetrária

O que se pode esperar da literatura com a ascensão pungente dos chamados ‘bookishness’?

Análise e opinião

02/08/2021 18h59 Atualizada há 2 meses
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Por: Mhario Lincoln Fonte: MHL
Foto: Pintarest
Foto: Pintarest

BILBIOTECAS VIRTUAIS

*Mhario Lincoln

Não faz muito tempo, lá pelos anos de 2018/19, fui convidado para jantar na casa de uma pessoa bem influente por estas bandas. A mesa principal foi montada bem em frente a uma super biblioteca. Uma parede de aproximadamente 2 metros de altura por 5 de largura, cheia de prateleiras de madeira sólida e uma pequena escada pela qual se podia atingir o topo da estante, com trilhos.

Não conferi, mas se fizermos o cálculo, tomando como base a média do tamanho lombar de um livro de 2cm, facilmente se chega a um resultado aproximado de 2 mil livros naquele espaço. Porém, um detalhe me chamou mais atenção: as lombadas eram bem feitas como se os livros fossem novíssimos (e alguns tinham lombadas com nomes de obras antigas). Será que a maioria foi restaurada? Então essa biblioteca valeria algumas centenas de dólares. Curioso, tirei um dos livros: “A divina comédia”, um dos principais clássicos do mundo, escrito por Dante Alighieri no século XIV. Mas tomei um grande susto! Era um objeto de madeira bem leve, coberto por uma impressão igual à capa da obra de Alighieri.

Discretamente fui tateando por sobre os outros e nem precisou retirá-los para descobrir que todos eram livros de decoração, exceto uma bíblia original com a assinatura de João Paulo II.  Ou seja, livros para provar que ler não faz nenhuma diferença aos olhos, quando muito bem enfileirados e conservados.

E assim, com essa nova filosofia do ‘me engana que eu gosto’ que crescem incontrolavelmente a mania do ‘bookishness’, uma espécie de livros de mentirinha para ’bobo ver’.

E o pior:  algumas lojas virtuais estão tendo a cara de pau de oferecer a preços módicos, caixinhas de grandes obras para que o comprador possa expor em suas ‘lives’, como cenário. Outra rede comercial oferece uma estante virtual com ‘fakebooks’, para que o comprador possa se vangloriar e exibir seus troféus, ou seja, alguns dos mais respeitados livros universais, bem atrás dele.

Diante de uma crise sem precedentes em toda comunidade leitora do novo continente, fechamento de grandes redes literárias e a pouca procura por clássicos, nem mesmo a obrigação universitária de lê-los, em grades curriculares cada vez mais titubeantes, há de crer numa nova fase intelectual: a da encenação do ato de ler. Muito mais quando me deparo com resenhas e comentários de grandes clássicos cada vez mais superficiais, em função de alguns dos lançamentos (também superficiais) de autores que pouco leem ou leram grande nomes de sua área, para produzir livros cada vez mais simples e frágeis.

Um amigo meu que trabalhava numa grande livraria me confessou em 2020, por telefone, quando escrevia uma matéria sobre a falência de algumas delas: “Mhario, você pode imaginar que neste mês eu vendi muito mais camisetas, chaveiros, canetas, relógios, canecas e bonequinhos de super-heróis que livros? Vendi 8 livros. Todos eles, de ‘influenceres’, cujo conteúdo é um verdadeiro acinte a um bom leitor brasileiro. (...)”.

Na contramão disso, basta abrir o Facebook para ler uma poesia, um conto, um texto. E a maioria deles, se autodenominam poetas, escritores ou jornalistas. Houve, por esse lado, uma invasão sem igual de muita gente que “tirou seus originais da gaveta”, sem se preocupar com a base romântica, a base histórica, a base intelectiva da construção da prosa ou do poema, acreditando, como li certa vez em Julien Green: “São necessários anos de leitura atenta e inteligente para se apreciar a prosa e a poesia que fizeram a glória das nossas civilizações. A cultura não se improvisa”.

Desta forma, as livrarias poucas que sobraram se entulham de cópias americanas malfeitas de prosa e poesia – mecanicamente lançadas como produtos de descarte – e submergem na poeira da banalidade do literário, o que não deixa de ser uma vertente forte da “Banalidade do Mal”, criada por ‘Hannah Arendt.

E quanto à febre pelos ‘fakebooks’, essa, incentiva nada mais, nada menos, do que simplesmente um potencial rendoso do mercado decorativo; ou, para outros, a conquista de um possível respeito e um certo ‘capital simbólico’ em cima daqueles que nem mesmo sabem distinguir um livro real de um objeto de decoração.

Ou seja, vivemos uma época em que a forma é pungente. E o conteúdo, descartável.

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Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira

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