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A estreia do poeta e jornalista, imortal da APB, João Batista do Lago: "O que Pode um Corpo?"

"Reputo o João Batista como um dos pensadores modernos mais expressivos do agora", Olinto Simões

10/08/2021 às 12h21
Por: Mhario Lincoln Fonte: João Batista do Lago
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João Batista do Lago
João Batista do Lago

O QUE PODE UM CORPO?

(O Corpo é o cárcere da alma ou é potência em ato?)

 João Batista do Lago

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INTRODUÇÃO

 O que sei sobre o corpo? Do que o corpo é capaz? Como pode o corpo ajudar no processo de evolução do ser humano? No modo de e-xistir? O que pode um corpo masculino? E um corpo feminino, o que pode? Todas essas questões são literalmente imbricadas às nossas e-xistencialidades, seja no campo fisiológico, seja no campo social, seja no campo econômico, seja no campo político. Isto posto, pode-se afirmar que um Corpo é um Logos de subjetividade[2] imanente do corpo de si. O corpo pode se dá de duas formas: individual (por exemplo: o ser humano), ou coletivo (por exemplo: a sociedade ludovicense). No primeiro caso temos o corpo real, no segundo caso temos o corpo metafórico.

Desde a Grécia Antiga a problemática do corpo sempre se apresentou como um dos mais significativos problemas filosóficos. Já em Heráclito de Éfeso (Século V a.C) encontramos este debate posto. Seguidamente vemos Platão e Aristóteles também se debruçarem sobre a problemática do corpo. Da mesma maneira os neoplatônicos, os sofistas, os místicos, os gnósticos, os teólogos, os cristãos, enfim... E não para por aí! Filósofos como Espinosa, Nietzsche, Kierkegaard, Foucault, Deleuze e Guattari, entre tantos outros, fizeram do corpo uma problemática para suas pesquisas, seus estudos, seus escritos. Ou seja, a problemática do corpo não sai da onda! Está em pleno ato de surfar... Vale destacar, ainda, que a Psicologia, a Antropologia, a Sociologia, a Psicanálise e a Esquizoanálise, também, se referem à problemática do corpo.

Ora, diante deste panorama (primário e superficial), vale resgatar e discutir – aqui e agora – essa problemática. Evidentemente que não se esgotará toda a questão, posto que, aos meus olhos, para além da complexidade inerente, a problemática do corpo é inesgotável. Quanto mais se avança nas pesquisas e estudos de diversas matizes, verificamos que sempre existe uma nova perspectiva de debate sobre a potência do corpo: seja do ponto de vista do corpo humano; seja do ponto de vista do corpo sócio-coletivo. O corpo é um complexo de forças que se relacionam infinitamente em sua singularidade ou em sua pluralidade.

HISTORICIDADE

Partindo de uma perspectiva histórica da Grécia pode-se inferir que fora Platão (428/7 a.C – 348/7 a.C) o primeiro pensador a discutir, racionalmente, a problemática do Corpo, ao criar para este, um corpo transcendente: a Alma. Para ele (Platão), esta (Alma) seria superior ao corpo humano, enquanto este (corpo humano) nada mais seria que uma prisão para aquela (Alma). Racionalmente, neste estágio, Platão propõe e instaura filosoficamente essa tipologia de dualismo que vai repassar por toda a sua obra literária (na qual ele promove um verdaeiro desprezo pelo corpo físico). No caso desse dualismo corpo-alma, por exemplo, essa dicussão se dá, fundamentalmente, nos diálogos FédonFedroO Banquete, e, sobretudo, em sua maior obra: A República.

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Por seu turno, Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C) - que fora o mais destacado discípulo de Platão – discorda literalmente do ateniense. Mesmo considerando o corpo como sendo um instrumento da alma, Aristóteles, assevera que o dualismo proposto por Platão não existe. O estagirita concebe corpo-alma como natureza única, ou seja: o corpo é matéria em ato de potência e, portanto, não tem substancialidade ou forma; isto quer dizer que não existe um corpo sem uma alma, nem uma alma sem o seu corpo. Em outras palavras: para Aristóteles não existe vida após a morte, ou seja: a morte do corpo é a morte da alma. Potanto, findado o corpo finda-se a potência em ato. Isto está claro em sua obra Sobre a Alma. Inclino-me a imaginar que este pensamento aristotélico esteja mais próximo da minha realidade, consequentemente, da contemporaneidade. 

O QUE É O CORPO?

Para falar sobre a problemática do corpo é quase impossível não iniciar por Platão (mesmo que se admita que já antes dele a problemática do corpo esava posta, contudo foi Platão que instituiu e metodizou a temática), para quem, o corpo era uma dimensão inferior e limitado. Segundo ele, o corpo, nada mais seria que o cárcere da alma. Esta tese, inclusive, vai abastecer o imaginário teológico – e teleológico - de todo o cristianismo. Platão (e consequentemente o seu Sócrates, em Fédon) era um desprezador do corpo. Penso que essa condição seja, talvez, um dos piores enunciados de todo o platonismo. "Aos que desprezam o corpo quero dizer-lhes a minha opinião. Não devem mudar de preceito, nem de doutrina, mas, simplesmente, desfazerem-se do corpo, o que lhes tornará mudos", diz Friedrich Nietzsche em Assim falava Zaratustra, no discurso Dos que desprezam o corpo (Ed. Vozes, 7ª ed. P. 51). Nesse mesmíssimo discurso, o filósofo alemão também infere: "Há mais razão em teu corpo que em tua melhor sabedoria. (...)". Vê-se, desde logo, que o Corpo em Platão é niilista; enquanto o Corpo em Nietzsche é vitalista (pura potência). E é exatamente isto que me interessa de fato: o Corpo como potência plena. Sou inclinado a pensar que nada existe além do corpo. Para eu não há uma Alma que vive, mas um Corpo que existe plenamente.

 Sob a perspectiva de Gilles Deleuze, que foi beber na fonte de Baruch Espinoza, pouquíssimo ou quase nada sabemos sobre o corpo: "(...) o fato é que ninguém determinou, até agora, o que pode o corpo, isto é, a experiência a ninguém ensinou, até agora, o que o corpo – exclusivamente pelas leis da natureza enquanto considerada apenas corporalmente, sem que seja determinado pela mente – pode e o que não pode fazer (...)" - (Espinoza - Ética III – Prop. 2). Deleuze, por sua vez, além de admitir o paralelismo psicofísico, coloca-o como um caso especial de outro paralelismo, o paralelismo epistemológico, o qual identifica uma ideia com um modo individualizado do pensamento e este, de sua parte, seria modo correspondente a um corpo. De qualquer forma, para Deleuze, o paralelismo entre corpo e mente caracteriza a dupla expressão simultânea própria do Deus spinozano: o paralelismo expressaria a imanência divina. Em sua obra "Nietzsche e a filosofia" (n-1 edições 2018), Gilles Deleuze nos propõe a seguinte questão:

O que é o corpo? (grifo nosso) Nós não o definimos dizendo que é um campo de forças, um meio nutridor disputado por uma pluralidade de forças, Com efeito, não há "meio", não há campo de forças ou de batalha. Não há quatidade de realidade; toda realidade já é quantidade de força. Nada mais do que quantidade de força "em relação de tensão" umas com as outras. Toda força está em relação com outras, quer para obedecer, quer para comandar. O que define um corpo é a relação entre forças dominantes e forças dominadas.Toda relação de forças constitui um corpo químico, biológico, social, político. Duas forças quaisquer, sendo desiguais, constituem um corpo desde que entrem em relação; por isso o corpo é sempre o fruto do acaso, no sentido nietzscheano, e aparece como a coisa mais "surpreendente", muito mais surpeendente, na verdade, do que a consciência e o espírito. Mas o acaso, relação da força com a força, é também a essência da força; Não se perguntará então como nasce um corpo vivo, uma vez que todo corpo é vivo como produto "arbitrário" das forças que o compõem. O corpo é fenômeno multiplo, sendo composto por uma pluralidade de forças irredutíveis, sua unidade é a de um fenômeno múltiplo, "unidade de dominação". Em um corpo, as forças superiores ou dominantes são ditas ativas, as forças inferiores ou dominadas são ditas reativas. Ativo e reativo são precisamente as qualidades originais que expressãm a relação da força com a força. As forças que entram em relação não têm uma quantidade sem que, ao mesmo tempo, cada uma tenha a qualidade que corresponde à sua diferença de quantidade como tal. Chamar-se-áde hierarquia a diferença das forças qualificadas conforme sua quantidade:forças ativas e reativas.

Isto posto pode-se dizer que o texto acima, por si, é autoexplicativo. Contudo resta-me salientar que o que soçobra do pensamento deleuziano – baseado em Espinoza e Nietzsche - é a ideia de que o corpo é um complexo singular e plural ao mesmo tempo, ou seja, é a pluralidade do singular infinito ou a infinitude na pluralidade do corpo. Sou, de fato, inclinado a pensar que o ser humano pouco e quase nada conhece sobre o seu corpo singular (físico), e muito menos sobre o seu corpo plural (social, econômico, político, etc). Neste sentido considero que Deleuze – associado à Félix Guattari -, em sua principal obra: O Anti-Édipo, bem como em Mil Platôs, infere o debate da problemática do corpo sob os olhares da filosofia e da psicanálise. Deleuze e Guattari vão resgatar a originalidade de Antonin Artaud, que desenvolvera o conceito de corpo sem órgãos. Vale dizer, desde sempre, que não se trata de um conceito de fácil entendimento. Artaud propõe o fim do julgamento de Deus (corpo transcendente), isto é, um corpo ausente da minha geografia corporífica e materialística. Diz Antonin Artaud: "Assim como o mundo tem uma geografia, também o homem interior tem sua geografia e esta é uma coisa material". Vejo aqui uma conexão, ou mesmo um diálogo, com Nietzsche, para quem "o desejo de atribuir a si mesmo toda a responsabilidade de seus próprios atos, desobrigando a Deus, o mundo, os antepassados, o acaso, a sociedade, (...) é apenas o desejo de ser causa sui e de levantar-se a si mesmo pelos cabelos" (Além do Bem e do Mal – Primeira parte §21, p.30, Ed Vozes). Aos meus olhos, Espinoza, Nietzsche, Deleuze e Guattari, e Antonin Artaud, surfam na mesma onda: é necessário e fundamental de-organizar o corpo, ou seja, eliminar todos os órgãos do ser humano, para que, assim, possa re-nascer o novo ser humano que habita o corpo. Somente um corpo totalmente de-organizado, isto é: um corpo sem órgãos, será capaz de construir, de fato, sua liberdade plena, posto que, perderá seus automatismos, determinismos, etc. E essa liberdade em ato se dará porque a realidade internalizada em uma mente cheia de maquinarias transformadoras possibilitará que este novo ser humano – este corpo sem órgãos - torne-se o verdadeiro corpo de si em ato... Em potência pura... Em vontade de potência. De certa maneira eu os coloco (Espinoza, Nietzsche, Deleuze, Guattari e Artaud) no mesmo altar dessa igreja revolucionária que pretende explodir o princípio, a moral, os fundamentos de um mundo moderno capturado pelo capitalismo desestruturante de todos os corpos.

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(ESTA É APENAS A PRIMEIRA PARTE DESTE ARTIGO. AGUARDEM AS PRÓXIMAS PARTES, NAS PRÓXIMAS SEMANAS).

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Dilercy Aragao AdlerHá 3 anos São LuísMeus Aplausos ????????????????
Edomir OliveiraHá 5 anos São Luis-MABelas análises! Estudo que nos ensina muito e manter viva a imagem de Socrates, Nietzsche, Espinosa e tantos outros filósofos. Obrigado dileto confrade. Vamos aguardar o prosseguimento dos textos proximos.
Keila MartaHá 5 anos São LuísParabéns, válida reflexão! É um ponto sensível que transcende a ideia do corpo físico...
Letícia Sobral, professora e sociólogaHá 5 anos Fortaleza CEMuito bom ler isso no meio de tanta canalhice na internet brasileira. Aproveito para parabenizar este espaço como sendo um dos mais completos e leais da internet nacional. Aos coordenadores, louvores. Vou continuar lendo.
Dr. Irineu Luiz ShubbertHá 5 anos Pelotas/Estudos Universitários/Rio GrandeApenas um adendo. O conhecimento, caracterizado na seção inicial do Fedon como posse das formas pela alma, é alcançável em condições especiais: a alma pura só pode encontrar os seres puros após a morte e, para que isso ocorra, é preciso que o verdadeiro filósofo se dedique à filosofia como uma iniciação. Muito analisar também, caro escritor, a relação entre a parte inicial do diálogo, - conhecimento obtido pela alma em condições favoráveis - e a associação mistérios e, ainda, alma e voz.
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