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Convidada Especial: O périplo narrativo de Susana Pinheiro e o "Destino do Quadro".

Entretenimento.

19/08/2021 09h44 Atualizada há 4 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Susana Pinheiro
Susana Pinheiro
Susana Pinheiro

O DESTINO DO QUADRO

*Susana Pinheiro

Andei pensando esses dias a respeito do assunto que iria abordar desta vez, e me lembrei de mais uma história que aconteceu na Rua Grande, na cidade de São Luís, Maranhão. Até aí, nada de mais, porém me veio à memória a quantidade de pessoas que já passaram nessa mesma rua. Quantas vidas, gerações, aventuras, negócios, trabalhos, encontros casuais, marcados e até os desencontros. Tudo naquela mesma rua que flui gente de todos os lados, que vai e que volta, que passa apressada e que anda como se o tempo não fizesse a mínima diferença. Dos vendedores de sorvete de lata, de quebra-queixo e do pirulito de cone. Fiquei imaginando essa rua, em que boa parte de minha vida de estudante esteve repleta de movimento. E de repente, por causa da pandemia da Covid-19, ficou completamente vazia, com as portas dos casarões coloniais que abrigavam lojas, fechadas como se o tempo estivesse em suspensão, pausado. Não cheguei a ver essa imagem, mas a desenho em minha cabeça, e é assim que ainda me sinto, em suspensão. 

Uma rua vazia, uma cidade vazia, um estado, um país...o mundo. Muitos corações vazios, sofridos, desolados, distanciados. Passamos assim o ano de 2020 inteirinho. 2021 chegou mais impreciso, sem réveillon, carnaval, escolas fechadas, lutando uma aqui outra ali, reabriram em forma híbrida, outras não funcionaram até hoje. Diferente de um outro tempo, onde o existir era cheio de movimentos de ir e vir. É desse tempo que quero agora lembrar, e que quero lhes contar, é sobre uma época em que se andava livremente e se abraçava sem medo. 

Época em que fervilhavam, exposições de arte, shows, movimentos literários na cidade. E eu também fui convidada para participar de uma mostra coletiva de arte. Cerca de 20 artistas ao todo, expondo simultaneamente na galeria de arte do Sesc, que se localizava na Praça Deodoro, centro da cidade, perto da Rua Grande. O convite era para criar uma obra inspirada no Haicai, também conhecido como haiku, um poema curto de origem japonesa que surgiu por volta do séc. XVII, criado por Matsuo Bashô, grande mestre nessa arte. O haicai fundamenta-se no princípio budista de que tudo o que há no mundo é passageiro e o homem pode transformar-se constantemente, assim como as estações do ano. No Brasil a arte de fazer haicai, ganhou força e muitos admiradores do estilo poético, como é o caso de Paulo Leminski de Curitiba e Benedita Azevedo, escritora maranhense radicada em Majé, no Rio de Janeiro, que coordena dois grêmios haicai. Os Haicais compõem-se de três versos, o primeiro tem cinco sílabas, o segundo sete sílabas e o terceiro cinco sílabas. Para exemplificar, deixo abaixo um poema de Benedita Azevedo que está em seu livro À Sombra do Ingazeiro, pag. 87: 

A lua nublada 

Desponta atrás das árvores 

Gritam os poetas 

A proposta da exposição era criar pinturas que correspondessem aos temas dos haicais que seriam entregues individualmente para cada artista. Lembro ainda que meu haicai tratava sobre sombra, vento e solidão. Mas não sei mais, como era, somente figura na memória a pintura que fiz:- uma árvore, folhas soltas voando e a sombra de uma pessoa. A exposição aconteceu no tempo e data certos. Ficou em cartaz por aproximadamente um mês, aos cuidados da curadoria que recebeu os trabalhos e se ocuparia das devoluções ao final do prazo estabelecido. Com o fim da exposição, fui à galeria buscar meu trabalho. Entrei no salão de exposições, já limpo, e me dirigi ao setor administrativo, me identifiquei e perguntei sobre minha tela. Soube naquele momento que minha pintura não estava mais lá, alguns dos trabalhos estavam com o curador, que dissera entrar em contato para devolvê-los aos seus donos. Achei estranho, porém resolvi aguardar. 

Desde aquele dia, passaram-se alguns meses e nenhum telefonema, aviso ou o que quer que fosse, a respeito da tela. Precisei então, ir à Rua Grande, havia marcado uma reunião com uma amiga, sobre um projeto de recital. Nos encontramos e acertamos tudo. Quando íamos embora, resolvemos entrar em uma esquina, lateral de uma loja, para comprar sorvete de côco com maracujá. Paramos em frente a um casarão morada inteira, cujo janelão estava aberto e dava vista para dentro da casa. Algo nesse instante, me chamava o olhar para o interior daquele casarão, desconhecia o motivo, mas devia olhar. Foi então que atravessamos a rua e pedi a minha amiga que esperasse, e fui até o janelão. A parede de frente repleta de quadros, grande e pequenos de todos os tipos. E entre eles, gritava lá de dentro meu quadro, isso mesmo minha tela. De quem era aquela casa? Quem teria levado meu quadro para lá? Ele estaria exposto ali, para vender? Ou já era a aquisição de alguém? Minha mente povoada de plúmbeos pensamentos, foi subitamente interpelada por barulho de vozes. Eram os moradores da casa. Veio então uma figura na janela que custei reconhecer. Precisei de uns minutos para identificar a pessoas, era o curador da exposição, ele mesmo. Falou comigo meio sem jeito, e sem entender o que eu fazia diante da janela dele. Expliquei que ia passando quando vi meu quadro, e fiquei esperando alguém aparecer para perguntar como o quadro teria ido parar ali. Depois disso, ele agora mais calmo, revelou a necessidade de levar as pinturas com ele, pois havia acabado o prazo na galeria, e quando foi desmontar a mostra, percebeu que não estava com os contatos dos artistas, por isso, resolveu levar tudo para a casa dele, e aos poucos iria entregar um por um. 

Combinamos então, eu e o curador, a entrega da pintura na galeria, no dia seguinte. Ao chegar lá, procurei o quadro na administração e o funcionário que me recebeu, não sabia onde estava, mas revelou que havia visto o quadro horas antes. Pronto, e agora? O quadro sumiu pela segunda vez na galeria, pensei. O que vou fazer? Eu a essa altura já estava “lubre” só de nervosa. O atendente pediu que eu esperasse um pouco, pois já estava findando o horário do almoço a diretora da galeria chegaria em breve. Sentei, levantei-me, andei para lá e para cá, sentei outra vez e nada. Depois de quase uma hora, o rapaz veio aflito, me chamar para acompanhá-lo, pois tinha notícias da pintura. Entrei na sala da administração da galeria, minutos depois, um rosto conhecido apareceu, era uma amiga que trabalhava por lá, a responsável pelo acervo do lugar. Me convidou para um café e uma caminhada pelos corredores do salão. Contou-me que um dos diretores ao passar pela sala administrativa, olhou o quadro, o pegou e levou para a sua sala, e pediu-lhe que me desse um recado. Falou que não poderia mais se separar daquela pintura, que havia ficado perfeita na parede da sala dele e que gostaria de comprá-la. Eu não sabia ao certo se aquilo estava realmente acontecendo, e agora? O quadro já havia sumido duas vezes, uma encontrei por acaso, não ia querer mais outra aventura dessas. O jeito foi fazer o negócio antes que esse quadro se perdesse e eu não mais soubesse de seu paradeiro. Afinal, a gente faz arte porque gosta, e se esse fazer alcança alguém, o nosso trabalho cumpriu seu destino. 

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Referência sobre Haicai em: 

https://brasilescola.uol.com.br/literatura/haicai-um-poema-origem-japonesa.htm 

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*Susana Pinheiro é artista visual e membro da Academia Poética Brasileira, seccional RIO

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