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Keila Marta: a escrita marginalizada de Carolina Maria de Jesus. Um texto muito forte

Prosa & Poesia

24/08/2021 09h06 Atualizada há 3 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Keila Marta
capa de uma das edições.
capa de uma das edições.

 

A escrita marginalizada: Palavras que descrevem as humilhações e sofrimentos vivenciados em um recorte do “Brasil grande” por Carolina Maria de Jesus que deram corpo a obra Quarto de Despejo: diário de uma favelada.

Ler, analisar e escrever sobre Quarto de despejo mesmo passados mais de 60 anos da primeira publicação, foi para mim angustiante, pois Carolina Maria de Jesus, consegue nessa obra de forma simples nos fazer perceber o quanto os problemas sociais e econômicos que a maior parte dos brasileiros enfrentam possuem raízes mais profundas do que conseguimos imaginar.

Keila Marta, APB/Maranhão

É bem sabido que tradicionalmente a literatura brasileira tem como referência primeira os modelos de escrita advindos da Europa, com todos os arcabouços históricos, sociais e culturais. Logo, o destaque se dava para a atuação de autores cultos, que faziam uso de linguagem rebuscada, consciente e em conformidade com as normas gramaticais e estruturação adequadas tanto para o texto em prosa quanto para o poema.

No entanto, pode-se encontrar no decorrer desse caminho trilhado pela literatura brasileira, um continuum que vai de uma escrita mais formal, elitizada a uma outra semiculta ou inculta.

Assim, em meio a autores tradicionais como Jorge Amado, Clarice Lispector, Manuel Bandeira e Rachel de Queiroz, surge Carolina, nome de significado bastante representativo, provavelmente de etimologia latina ou germânica, que remete a mulheres corajosas, fortes e independentes. Nascida em 1914 em Sacramento estado de Minas gerais, ainda bem jovem após sofrer sérias humilhações deixa suas raízes e vai em busca de novos horizontes até chegar à cidade de São Paulo onde veio a falecer em 1977.

Semianalfabeta, solteira, mãe de três filhos, atuou como doméstica e na maior parte do tempo viveu na favela do Canindé catando papel, ou entre uma correria e outra escrevendo em folhas avulsas relatos sobre os pontos sensíveis originados pela miséria: seja a fome, problemas de moradia, ausência de privacidade, inferioridade feminina, além do preconceito de cor, dos sonhos e anseios de quem se fazia presente na favela, mas não sentia parte dela.

É válido lembrar, que nos primeiros anos de Carolina no meio paulistano, ela trabalhou na casa do médico que realizou a primeira cirurgia de transplante de coração na América Latina, dr. Euryclides de Jesus Zerbini, época em que teve acesso a um vasto acervo literário, onde gozava das folgas, lendo.

Por sua vez, a obra Quarto de despejo: diário de uma favelada, chama atenção logo pelo título, pois permite a elaboração de certos questionamentos como, qual é o lugar de fala de uma favelada? O que tem a dizer? Que quarto de despejo é esse? É por essa linha que o prefaciador Audálio Dantas diz:

Repórter, fui encarregado de escrever uma matéria sobre uma favela que se expandia na beira do rio Tietê, no bairro do Canindé. Lá, no rebuliço favelado, encontrei a negra Carolina, que logo se colocou como alguém que tinha a dizer. E tinha! Tanto que, na hora, desisti de escrever a reportagem.

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Sendo assim, é possível continuar a folhear as primeiras páginas com muitas inquietações e sede de saber mais dessa história. O primeiro relato é de julho de 1955, nele dar para sentir em que espírito a obra fora criada:

Aniversario de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos generos alimenticios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar. (p. 11)

Logo, o pano de fundo que dar tonalidade a obra não é nada bonito, pois a fome tem seu destaque como segundo personagem principal, e é descrita como de cor amarela, e que tem duros efeitos sobre a disposição física de quem precisa trabalhar, como bem reforça a seguinte fala: [...] saí indisposta, com vontade de deitar. Mas, o pobre não repousa. Não tem o privilégio de gosar descanso”. (p. 12)

E nesse contexto de perambular em busca de alimento, a vontade de comer supera muitas vezes o medo de morrer, como na cena em que Carolina relata a morte de um negro após comer carne crua estragada,

Eu ontem comi aquele macarrão do lixo com receio de morrer, porque em 1953 eu vendia ferro lá no Zinho. Havia um pretinho bonitinho. Ele era jovem e dizia que quem deve catar papel são os velhos. Um dia eu ia vender ferro quando parei na Avenida Bom Jardim. No lixão, como é denominado o local. Os lixeiros haviam jogado carne no lixo. E ele escolhia uns pedaços: disse-me:

- Leva, Carolina. Dá para comer.

Deu-me uns pedaços. Para não maguá-lo aceitei. Procurei convencê-lo a não comer aquela carne. Para comer os pães duros ruidos pelos ratos. Ele disse-me que não. Que há dois dias não comia. Acendeu o fogo e assou a carne. A fome era tanta que ele não poude deixar assar a carne. Esquentou-a e comeu. Para não presenciar aquele quadro, saí pensando: faz de conta que eu não presenciei esta cena. Isto não pode ser real num paiz fertil igual ao meu. [...]

[...]

No outro dia encontraram o pretinho morto. Os dedos do seu pé abriram. Os dedos do seu pé abriram. O espaço era de vinte centímetros. Ele aumentou-se como se fosse borracha. (p. 39-40)

Ou quando ela e os filhos eram submetidos ao consumo de comida em estado de putrefação.

[...] Vejo as crianças abrir as latas de linguiça e exclamar satisfeitas:

- Hum! Tá gostosa!

A Dona Alice deu-me uma para experimentar. Mas a lata já está estufada. Já está podre. (p. 34)

Também em meio a esse caos, de insegurança alimentar, crianças e adolescentes sentem na pele a desproteção, assim como a exposição a cenas de violência e prostituição, ou melhor, no meio favelado a inocência termina muito antes da vida adulta dar seus primeiros sinais.

... E o pior na favela é que as crianças presenciam. Todas as crianças da favela sabem como é o corpo de uma mulher. Porque quando os casais que se embriagam brigam, a mulher, para não apanhar sai nua para a rua. [...]Tudo o que é obseno pornográfico o favelado aprende com rapidez. (p.45)

E, um outro ponto a ser salientado é quanto as condições de moradia em que Carolina compartilhava com os filhos, mesmo depois de ter tido uma certa notoriedade.

Cheguei na favela: eu não acho geito de dizer cheguei em casa. Casa é casa. Barracão é barracão. O barraco tanto no interior como no exterior estava sujo. E aquela desordem aborreceu-me. Fitei o quintal, o lixo exalava mau cheiro. Só aos domingos que eu tenho tempo de limpar. (p. 47)

Não obstante, é nessa realidade entre paredes mal estruturadas que se observa uma mistura entre a mulher sonhadora, com suas vulnerabilidades e bravuras, que tinha lugar de fala, mas por vezes se entristecia com a condição do próprio sexo, depoimento que consta no diário de dois de julho em que relata a visita do pai da filha Vera Eunice.

- É o pai da Vera

[...]

...Ele deu-me 120 cruzeiros e 20 para cada filho. Ele mandou os filhos comprar doces para nós ficarmos sozinhos. Tem hora que eu tenho desgosto de ser mulher. Dei graças a Deus quando ele despediu-se. (p. 178)

 

Além do mais, não pode esquecer que Carolina foi contemporânea em um período em que a mulher bem-vista socialmente era a moça virgem, a casada fiel ou a viúva que não mantinha parceiros sexuais. Então, ela viveu a experiência de ser julgada pelo fato de criar os filhos sozinha e pela vida amorosa que mantinha, e isso fica bem claro na situação em que passou na visita de Adelaide, cuja personagem se utiliza de um certo discurso que visava diminuir a pessoa de Carolina diante do namorado.

A Dona Adelaide veio trazer a minha blusa de lã e ficou admirada vendo o senhor Manoel dentro de casa. Ele é quieto. Fala baixinho e anda muito bem vestido. Ela me olhava e olhava ele. Ele com seus sapatos reluzentes. E eu suja parecendo uma marginal de rua. Ela ficou horrorizada por que eu durmo com ele. Ela me olhou com repugnância quando eu disse que ele vai me dar uma máquina de costura e um rádio. (p. 168-169)

Diante disso, a leitura permite perceber que a vida de solteira de Carolina não foi uma simples questão de escolha, há na fala dela um teor de justificativa e autoproteção, mesmo reconhecendo a dificuldade da ausência paterna no seio da família, ela reforça que até foi uma boa escolha não ter casado, pois os homens em que teve algumas ilusões, não tinha os mesmos interesses que os dela. Essas situações se observam nos seguintes diários:

2 de junho [...]

O senhor Manuel apareceu dizendo que quer casar-se comigo. Mas eu não quero porque já estou na maturidade. E depois, um homem não há de gostar de uma mulher que não pode passar sem ler. E que levanta para escrever. E que deita com lápis e papel debaixo do travesseiro. Por isso é que eu prefiro viver só para o meu ideal. (p. 49)

Em outro ponto que diz: “Não casei e não estou descontente. Os que preferiu me eram soezes e as condições que eles me impunham eram horriveis”. (p.17)

Já quase ao final do livro quando Manoel questiona se Carolina não o quer mais como parceiro, ela responde:

- Eu não tenho muito serviço. Não posso preocupar com homens. Meu ideal é comprar uma casa decente para os meus filhos. Eu nunca tive sorte com homens. Por isso não amei ninguem. Os homens que passaram na minha vida só arranjaram complicações para mim. Filhos para eu criá-los. (p. 189)

Assim, um outro ponto interessante, é que Carolina consegue manter uma forte esperança de um dia sair da favela, e literalmente ela vivia sonhando com uma casa e comida melhor, e além de que não encontra nessa realidade as boas referências de civilidade e costumes. Porque, Carolina foi uma artista que teve a falta de sorte de nascer pobre e talvez por isso suas necessidades foram além daquelas sentidas pelos demais favelados.

Portanto, Carolina desempenha um relevante papel como escritora, mesmo com as críticas que sofrera na época, sobretudo pela firmeza de convicção e imposição que estava escrevendo sobre a favela, e que as pessoas ali presentes com seus aborrecimentos, vícios e desvios de conduta serviram perfeitamente como personagens.

- Os meus filhos estão defendendo-me. Vocês são incultas não pode compreender. Vou escrever um livro referente a favela. Hei de citar tudo que se passa. E tudo que vocês me fazem. Eu quero escrever o livro, e vocês com estas cenas desagradaveis me fornece os argumentos. (p. 20)

Enfim, por ser um livro autobiográfico em que relata todo um contexto de diáspora entre o centro e a periferia, entre a sala de estar e o quarto de despejo com as disparidades sociais até hoje arraigadas fazem a escrita de Carolina transcender e a ser cada dia mais valorizada, sobretudo porque traça um retrato da marginalidade e a partir dele se tem uma maior compreensão de todo o processo de objetificação vivido por Carolina, onde a extinta favela do Canindé representa um recorte do Brasil grande¹ em que não há uma boa cobertura do estado, as leis simplesmente são desconhecidas ou negadas e por conta da situação de invisibilidade as regras são criadas ao acaso.

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Nota: A edição aqui analisada respeita fielmente a linguagem da autora, bem como as situações de escrita que em alguns momentos contrariam a gramática normativa.

REFERÊNCIAS

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. – 10 ed. – São Paulo: Ática, 2014.

¹ Termo citado pelo professor Tiago Pavinatto sobre o fenômeno do Brasil Grande. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ZMGSKY8ZkZE&t=1144s

 

 

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