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Ensaísta João Batista do Lago explicita novos olhares sobre "O que Pode um Corpo III".

Análise fisolófica. Parte III

27/08/2021 10h06 Atualizada há 3 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: João Batista do Lago
JB do Lago
JB do Lago

O QUE PODE UM CORPO (Parte III)

De João Batista do Lago*

Inferi na segunda parte desta série de artigos que “(...) um corpo pode tudo (...)”. Tendo esta expressão como um axioma, intuo que um Corpo é (necessariamente) um corpo político. E como tal é, pois, capaz de aprender e apreender com os afectos que se lho acometem. Ainda na primeira parte discorri de maneira muito rasa sobre os caracteres, modos e atribudos do corpo, sempre partindo de uma perspectiva espinosana, muito embora haja capturado (superficialmente) o pernamento de outros filósofos como Nietzsche, Deleuze e Guattari, por exemplo. A partir de agora intento responder e demonstrar, sempre empiricamente, que um corpo é, sobretudo, um “aprendiz”, mas ao mesmo tempo é um “aluno” mediano, ou talvez mesmo um “corpo analfabeto”. O que estou querendo dizer é que, na sua maioria, os corpos (físicos ou metafóricos; privados ou públicos) não se dão conta da possibilidade e da potência de si. Há corpos que passam pela vida inteira sem, sequer, colocarem-se em processo de criticidade, isto é, não são capazes de entender os encontros com as causas e seus efeitos. São corpos muito mais reativos que ativos. São corpos muito mais tristes que alegres. São corpos muito mais sofredores que bem-aventurados. São corpos muito mais niilistas que vitalistas.

Considerando, pois, que um corpo pode tudo, ocorre-me imaginar que ele deve ser – fundamental e essencialmente – um “sujeito” involucrado de razões críticas. E isso é importante a partir do instante em que começamos a tomar consciência da corporeidade imanentista, existencialista, estruturalista etc. Isto quer dizer substancialmente que i) está contido na parte da experiência possível, fazendo com que a realidade seja percebida através da utilização dos sentidos; ii) diz respeito aos conceitos e/ou preceitos de teor cognitivo (kantismo); iii) se refere à comprovação empírica da realidade; iv) sugere atividade ou casualidde cujos efeitos não passam do agente; v) um “sujeito” que se identifica a outro “sujeito” (na filosofia espinosana Deus é imanente ao mundo). Todo esse invólucro é ao mesmo tempo causa, efeito, modo e atributo da corporalidade que se nos afecta.

Em maior ou menor grau todos os corpos, per si, são capazes ou têm a possibilidade de desenvolver um processo de criticidade. Aos meus olhos, e emprestando as palavras de Gilles Deleuze (1925 – 1995), “[...] o que define um corpo é a relação entre forças dominantes e forças domianadas [...]”, Ora, se isso constitui verdade, devo significar, isto é, criticar concretamente tanto a força dominante quanto a força dominada. Ambas são indissociáveis, indispensáveis e fundamentais e, portanto, a questão a ser perseguida é: qual a razão ou o por quê da existência de uma determinada força dominante? Ou qual a razão ou o por quê da existência de uma força dominada? É essa analítica que irá, por fim, parir uma nova consciência. Não me deterei sobre isto.

Devo assinalar, também, sem quaisquer fundamentos (e aprofundamentos) acadêmicos ou mesmo academicistas, mas fundamentado tão-só na minha esperiencialidade intelectual ou conhecimento empírico, que o corpo é constituinte da Metafísica, porque busca compreender e entender a realidade de modo ontológico, isto é, o corpo é uma referência do sujeito de si mesmo. E sendo, pois, essa referência do si mesmo é causa sui. Ou seja, o corpo é o senhor de si na imanência com a Natureza.

Como diz Zaratustra “[...] Detrás de teus pensamentos e sentimentos, meu irmão, há um amo mais poderoso, um guia desconhecido, que se chama “o próprio Ser”. Habita em teu corpo; é teu corpo [...]”. Seguidamente ele deduz: “[...] Há mais razão em teu corpo que em tua melhor sabedoria [,,,]”. Aos meus olhos isso significa precisamente que eu tenho que entender-me e compreender-me como único, uno, singular ou sui generis. E tudo isso dentro da pluralidade complexa que me habita. Mais ainda: ter consciência dos meus encontros (interiores e exteriores), dos meus afetos. Entender que os meus erros ou defeitos, virtudes ou desvirtudes, alegrias ou tristezas, são partes indispensáveis para a minha evolução.

(Penso intuitivamente que é exatamente no ambiente desse processamento cognitivo que se dá o que Antonin Artaud (1896 – 1948) definiu como um corpo sem órgão (CsO). Sobre CsO falarei posteriormente.)

Então, voltando ao cerne da questão deste texto, intuo que o corpo é um eterno aprendiz, mesmo na sua medianez ou no seu analfabetismo mórbido, tem capacidade de tornar-se agente da sua cartografia. Quero dizer com isso que eu – somente eu – sou o confeccionador dos meus mapas cerebrais; único responsável pela criação, produção e análise dos meus mapas gráfico-cerebrais. Toda impressão, assim como toda representação que se me ocorre somente acontece em mim. Entendido dessa forma, creio, todo e qualquer corpo está predisposto para relações de forças que se lhe vão acontecer e, muito mais que isso, potencializado – em maior ou menor grau – para experimentar um processo de extencionalidade expressiva da sua existência. Essa condição me fez lebrar de M. Marleau-Ponty (1908 – 1961) que, partindo do estudo da percepção conclui que o corpo humano não é apenas um objeto estudado pela ciência, ele é condição e base para a existência. De um corpo tanto depende a percepção de mundo quanto a própria criação desse mundo. Em sua fenomenologia Merleau-Ponty compreende a reflexão e a existência como presença do ser no mundo, cuja expressividade o corpo possibilita e inaugura. As dimensões do cogito, da temporalidade e da liberdade são vistas como possibilidades do ser no mundo, expressões existenciais do sujeito encarnado.

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João Batista do Lago é escritor, poeta, teatrólogo, articulista, ensaísta e jornalista.

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