Sexta, 12 de Junho de 2026
13°C 20°C
Curitiba, PR
Publicidade

Ensaísta João Batista do Lago explicita novos olhares sobre "O que Pode um Corpo III".

Análise fisolófica. Parte III

27/08/2021 às 10h06 Atualizada em 27/08/2021 às 16h14
Por: Mhario Lincoln Fonte: João Batista do Lago
Compartilhe:
JB do Lago
JB do Lago

O QUE PODE UM CORPO (Parte III)

De João Batista do Lago*

Inferi na segunda parte desta série de artigos que “(...) um corpo pode tudo (...)”. Tendo esta expressão como um axioma, intuo que um Corpo é (necessariamente) um corpo político. E como tal é, pois, capaz de aprender e apreender com os afectos que se lho acometem. Ainda na primeira parte discorri de maneira muito rasa sobre os caracteres, modos e atribudos do corpo, sempre partindo de uma perspectiva espinosana, muito embora haja capturado (superficialmente) o pernamento de outros filósofos como Nietzsche, Deleuze e Guattari, por exemplo. A partir de agora intento responder e demonstrar, sempre empiricamente, que um corpo é, sobretudo, um “aprendiz”, mas ao mesmo tempo é um “aluno” mediano, ou talvez mesmo um “corpo analfabeto”. O que estou querendo dizer é que, na sua maioria, os corpos (físicos ou metafóricos; privados ou públicos) não se dão conta da possibilidade e da potência de si. Há corpos que passam pela vida inteira sem, sequer, colocarem-se em processo de criticidade, isto é, não são capazes de entender os encontros com as causas e seus efeitos. São corpos muito mais reativos que ativos. São corpos muito mais tristes que alegres. São corpos muito mais sofredores que bem-aventurados. São corpos muito mais niilistas que vitalistas.

Continua após a publicidade

Considerando, pois, que um corpo pode tudo, ocorre-me imaginar que ele deve ser – fundamental e essencialmente – um “sujeito” involucrado de razões críticas. E isso é importante a partir do instante em que começamos a tomar consciência da corporeidade imanentista, existencialista, estruturalista etc. Isto quer dizer substancialmente que i) está contido na parte da experiência possível, fazendo com que a realidade seja percebida através da utilização dos sentidos; ii) diz respeito aos conceitos e/ou preceitos de teor cognitivo (kantismo); iii) se refere à comprovação empírica da realidade; iv) sugere atividade ou casualidde cujos efeitos não passam do agente; v) um “sujeito” que se identifica a outro “sujeito” (na filosofia espinosana Deus é imanente ao mundo). Todo esse invólucro é ao mesmo tempo causa, efeito, modo e atributo da corporalidade que se nos afecta.

Em maior ou menor grau todos os corpos, per si, são capazes ou têm a possibilidade de desenvolver um processo de criticidade. Aos meus olhos, e emprestando as palavras de Gilles Deleuze (1925 – 1995), “[...] o que define um corpo é a relação entre forças dominantes e forças domianadas [...]”, Ora, se isso constitui verdade, devo significar, isto é, criticar concretamente tanto a força dominante quanto a força dominada. Ambas são indissociáveis, indispensáveis e fundamentais e, portanto, a questão a ser perseguida é: qual a razão ou o por quê da existência de uma determinada força dominante? Ou qual a razão ou o por quê da existência de uma força dominada? É essa analítica que irá, por fim, parir uma nova consciência. Não me deterei sobre isto.

Devo assinalar, também, sem quaisquer fundamentos (e aprofundamentos) acadêmicos ou mesmo academicistas, mas fundamentado tão-só na minha esperiencialidade intelectual ou conhecimento empírico, que o corpo é constituinte da Metafísica, porque busca compreender e entender a realidade de modo ontológico, isto é, o corpo é uma referência do sujeito de si mesmo. E sendo, pois, essa referência do si mesmo é causa sui. Ou seja, o corpo é o senhor de si na imanência com a Natureza.

Como diz Zaratustra “[...] Detrás de teus pensamentos e sentimentos, meu irmão, há um amo mais poderoso, um guia desconhecido, que se chama “o próprio Ser”. Habita em teu corpo; é teu corpo [...]”. Seguidamente ele deduz: “[...] Há mais razão em teu corpo que em tua melhor sabedoria [,,,]”. Aos meus olhos isso significa precisamente que eu tenho que entender-me e compreender-me como único, uno, singular ou sui generis. E tudo isso dentro da pluralidade complexa que me habita. Mais ainda: ter consciência dos meus encontros (interiores e exteriores), dos meus afetos. Entender que os meus erros ou defeitos, virtudes ou desvirtudes, alegrias ou tristezas, são partes indispensáveis para a minha evolução.

(Penso intuitivamente que é exatamente no ambiente desse processamento cognitivo que se dá o que Antonin Artaud (1896 – 1948) definiu como um corpo sem órgão (CsO). Sobre CsO falarei posteriormente.)

Então, voltando ao cerne da questão deste texto, intuo que o corpo é um eterno aprendiz, mesmo na sua medianez ou no seu analfabetismo mórbido, tem capacidade de tornar-se agente da sua cartografia. Quero dizer com isso que eu – somente eu – sou o confeccionador dos meus mapas cerebrais; único responsável pela criação, produção e análise dos meus mapas gráfico-cerebrais. Toda impressão, assim como toda representação que se me ocorre somente acontece em mim. Entendido dessa forma, creio, todo e qualquer corpo está predisposto para relações de forças que se lhe vão acontecer e, muito mais que isso, potencializado – em maior ou menor grau – para experimentar um processo de extencionalidade expressiva da sua existência. Essa condição me fez lebrar de M. Marleau-Ponty (1908 – 1961) que, partindo do estudo da percepção conclui que o corpo humano não é apenas um objeto estudado pela ciência, ele é condição e base para a existência. De um corpo tanto depende a percepção de mundo quanto a própria criação desse mundo. Em sua fenomenologia Merleau-Ponty compreende a reflexão e a existência como presença do ser no mundo, cuja expressividade o corpo possibilita e inaugura. As dimensões do cogito, da temporalidade e da liberdade são vistas como possibilidades do ser no mundo, expressões existenciais do sujeito encarnado.

Continua após a publicidade

---------

João Batista do Lago é escritor, poeta, teatrólogo, articulista, ensaísta e jornalista.

E-mail: [email protected]

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Jean GoutierHá 5 anos Saint GermainProfesseur Jean-Baptiste. Sont des conditions nécessaires à cette réflexion: le déséquilibre entre elle surévaluation des aspects logiques rationnelles au détriment de pathos philosophique, nous devons sauver cette dimension déshabillé; à cette fin, une approche à problème (non dogmatisant) est imposée; ce qui nous place dans une pédagogie centrée subjectivité, qui sauve la dimension pathologique qu'implique dans le processus de formation.
Pe Gusmão de HungriaHá 5 anos Santuário de AparecidaOi, bom dia, amigos. Quero dizer que a vida de Sto Agostinho foi marcada por duas fases distintas (Aí que o corpo entra, mestre João Batista). A primeira foi uma procura pelas coisas do mundo, tais como honraria, riqueza e prazer. A segunda, marcada pela busca das coisas de Deus, mirando a parusia. Essa transformação gerou em Agostinho uma crise de consciência, principalmente na relação que teve com seu corpo, apresentada na obra "Confissões". Humildemente sugiro esta leitura. Obrigado.
(LU). Luana Santiago, da Feira do Poeta.Há 5 anos Curitiba ParanáPosso destacar uma parte importante nesse estudo, professor João? Pois aí está. (Eu sou todo corpo e nada além disso; a alma é somente uma palavra para alguma coisa do corpo; o corpo é uma grande razão, uma multiplicidade com um sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor. Instrumento do teu corpo é, também, a tua pequena razão, meu irmão, à qual chamas ‘espírito’, pequeno instrumento e brinquedo da tua grande razão (NIETZSCHE, [1992], p. 51).)
Arthur Ludwing Moses. Sou apenas um estudioso ZaratrustianoHá 5 anos Córdoba-Espanha. (Rio de Janeiro/BR).Para resumir tudo isso, caro João, vale refletir que no discurso dos desprezadores do corpo da obra "Assim falou Zaratustra" se centraliza a crítica nietzscheana à concepção de homem dos metafísicos. Desde Platão, a natureza humana é um composto de alma e corpo. Enquanto a alma foi tomada como eterna e pura, o corpo é perecível, causador de sofrimento aos homens. Portanto, todos esses argumentos visam livrar o corpo dos desejos, paixões e instintos. Simples assim, meu jovem.
Herculano Paz, sociólogo USPHá 5 anos São Paulo CapitalHá claras provas da doutrina espírita nessas citações: "o corpo é um eterno aprendiz, mesmo na sua medianez ou no seu analfabetismo mórbido". Veja: “Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, isto é, sem saber. A cada um deu determinada missão, com o fim de esclarecê-los e de os fazer chegar progressivamente à perfeição, pelo conhecimento da verdade, e para aproximá-los de si". (LIvro dos Espíritos). Uma lógica em outra lógica. Nada novo.
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
14°
Tempo nublado

Mín. 13° Máx. 20°

14° Sensação
1.66km/h Vento
97% Umidade
100% (4.7mm) Chance de chuva
06h59 Nascer do sol
05h34 Pôr do sol
Sáb 17°
Dom 15°
Seg 12° 11°
Ter 18° 10°
Qua ° °
Atualizado às 22h01
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,10 +0,01%
Euro
R$ 5,91 +0,14%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 342,942,15 +0,06%
Ibovespa
171,497,23 pts 1.71%
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias