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Especial Edmilson Sanches: Jean Abreu, 46 anos, um talento maranhense em Londres.

Entrevista Exclusiva

30/08/2021 09h41
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Edmilson Sanches
Jean Abreu
Jean Abreu

JEAN ABREU, 46 ANOS HOJE, 25 ANOS EM LONDRES: TALENTO MARANHENSE DE PROJEÇÃO ARTÍSTICA INTERNACIONAL

Neste 29 de agosto de 2021 Jean Abreu, maranhense de Imperatriz, faz 46 anos de idade. Também neste mês de agosto Jean completa 25 anos desde que foi morar, aprender, ensinar e encantar em Londres.

Quando ele completou 30 anos, em 2005, escrevi o artigo a seguir e fiz com ele a entrevista logo abaixo.

Sou amigo desse talentoso filho do casal amigo Francisca e José Antônio, que foram meus clientes nos velhos idos dos anos 1970 e 1980, em Imperatriz. Acompanho à distância o crescimento artístico-profissional de Jean Abreu e não há como não se orgulhar de ter em seu círculo de amizade conterrâneos assim, que, a despeito de reais obstáculos e distâncias aparentemente astronômicas  --  em especial do campo das Artes --, conseguiu superar impossibilidades e trazer para perto de si a realização dos próprios sonhos.

Parabéns, Jean.

EDMILSON SANCHES.

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JEAN ABREU, UM IMPERATRIZENSE EM LONDRES

Talento não tem mesmo idade. Jean Abreu tinha pouco mais de 20 anos quando começou a se destacar na Europa, após trocar, há quase dez anos, o calor imperatrizense de mais de 30 graus pelos cinco graus negativos de Londres -- era essa a temperatura quando o maranhense deixou recentemente a capital do Reino Unido para mais uma visita à família e amigos no sul do Maranhão. Seus pais, que moravam em Imperatriz, transferiram-se para a vizinha João Lisboa. 

Jean Abreu faz parte daquele seleto, sortudo e esforçado grupo de jovens que não são filhos de pais ricos e se tornam vencedores longe do Brasil. Exemplos, ainda bem, já são muitos. Citem-se, sem desmerecimento a nenhum outro, Josué Bezerra (ou Yehoshua Maor, como hoje se assina), que termina doutorado em Química Médica na Universidade de Jerusalém [já concluiu, há anos, o pós-doutorado em Harvard, EUA] e é cidadão de três países: Brasil, Israel e França. Também, o advogado João Alves Silva, ex-estagiário da agência do Banco do Nordeste em Imperatriz, fez mestrado e destacou-se como coordenador de projetos do curso de Direito na Universidade de Fortaleza (Unifor) e hoje faz doutorado [já concluído, há anos] na Universidade Nacional de Buenos Aires, na Argentina. E mais imperatrizenses, na França, na Suécia, na Espanha, na Itália, nos Estados Unidos... [Um dia, em um dezembro desses, convidei diversos desses imperatrizenses "exportados" (o chamado “brain drain”), que visitavam suas famílias, e os reuni na praça de alimentação de um "shopping center" e chamei a Imprensa, que pela primeira vez tomou conhecimento de tanta gente nossa se destacando no cenário internacional]. 

O espírito desses jovens guerreiros, homens e mulheres, é o espírito da cidade: Imperatriz, até na origem do nome, significa “esforçar-se para obter”, como está no principal elemento de formação da palavra, o verbo latino “paratum”.

Jean Abreu é coreógrafo e bailarino. Formou-se em dança em universidade da Inglaterra e é considerado um talento nessa arte. Seus trabalhos, embora classificados como contemporâneos, traz componentes da longa tradição cultural brasileira, com elementos que vão da Amazônia à África. Ano passado, foi um dos poucos vencedores do The Place Prize for Dance 2004. A revista "Veja", edição de São Paulo, comentando a mostra fotográfica “Brasileiros em Londres”, que se realizou no Centro Brasileiro Britânico, em São Paulo, anotou que a exposição tinha dezoito painéis, onde era “revelada a atuação de 60.000 brasileiros que vivem e trabalham em Londres”. No meio de tudo isso, a revista paulista observou: “Sete personagens ganham destaque por meio de fotos, como o bailarino Jean Abreu, a artista plástica Mariannita Luzzati e o escritor Jorge Fiori”.

Além da Veja São Paulo, jornais como os britânicos The Guardian e The Times têm feito elogios à performance do imperatrizense. Na Itália, Jean Abreu é tido como talento nascente della danza britannica. Tem nada não: arte e artista não têm fronteiras. Além do Reino Unido e da Itália, a França, a Holanda e a Bélgica já aplaudiram Jean Abreu. 

Dia 29 de agosto [2005] Jean Abreu completa 30 anos. Tem ainda muito chão e palcos pela frente. Em trabalho de observação e pesquisa, o artista imperatrizense segue na próxima semana para o interior do Mato Grosso e, depois, para o Rio de Janeiro. Também estuda capoeira e elementos indígenas, para incorporar ao seu trabalho -- é o que se chama de cross-culture, cruzamento de culturas. No final de fevereiro, o cidadão imperatrizense retorna para a city londrina. Antes, disso, em conversa pessoal e por "e-mail", ele deixou um pouco mais de sua história e de suas opiniões. A maior parte está transcrita na entrevista a seguir.

EDMILSON SANCHES ENTREVISTA JEAN ABREU

EDMILSON SANCHES (ES) - Quem são seus pais? O que fazem?

JEAN ABREU (JA) - José Antônio Abreu e Francisca de Assis Silva Abreu. Eles são proprietários de uma microempresa chamada Madeiras Nordeste, que trabalha com fabricação de portas, janelas, portais e aproveitamento de madeiras em geral.

E - Como foi sua infância em Imperatriz?

JA - Posso classificar minha infância como normal, de qualquer imperatrizense. Sempre tive muitos amigos, brinquei muito e tive uma infância razoavelmente sadia, embora em algumas partes eu lembro as dificuldades para a minha família; porém, meus pais fizeram de tudo para que eu tivesse de tudo que necessitasse. 

ES - Em que escolas estudou?

JA - Estudei na Escola Castelo Branco, Dorgival Pinheiro de Sousa, São Francisco de Assis, Graça Aranha e Escola Rui Barbosa.

ES - Quando você descobriu que queria ser coreógrafo e bailarino? Até aí, o que você pensava ser? Qual a reação inicial dos pais?

JA - Antes de tomar minha decisão de me tornar um bailarino profissional, pensava em ser médico, o que é natural em qualquer família no Brasil. Ainda prestei vestibulares em Belém do Pará e Rio de Janeiro, sem maiores resultados -- felizmente. Inicialmente, meus pais foram totalmente contra a minha decisão, naturalmente temendo as dificuldades que eu pudesse passar. Porém, eu, aos 17 anos, já tinha uma autoafirmação muito forte. Inspirado na própria determinação de meus pais, me recusei a mudar minha idéia e segui com os meus planos para mudar para o Rio de Janeiro e iniciar os meus estudos como profissional de dança.

ES - Como foi seu primeiro contato com o dançarino Carlinhos de Jesus?

JA - Carlinhos veio a Belém para dar uma de suas oficinas de dança e fazer uma apresentação. Lembro-me de que quando o conheci e vi o que podia fazer como dançarino fiquei completamente fascinado, o que me levou a uma dedicação incomum durante a oficina. Isso chamou a atenção de Carlinhos de Jesus, e daí a relação estava estabelecida. Seis meses depois me mudei para o Rio e iniciei um curso intensivo de dança de salão na academia de Carlinhos. Depois de um ano e meio me tornei instrutor de sua escola e passei a fazer “shows” e apresentações com sua companhia. Porém, depois de dois anos no Rio, ainda pensei que não era o suficiente e continuei a sentir a necessidade de expandir meus conhecimentos. 

ES - Você imaginava um dia estar em Londres e fazer sucesso na City?

JA - Quando decidi ir para Londres eu sequer imaginava o que significava sair do Brasil ou até mesmo que Londres era uma das capitais do mundo. Porém, tinha um objetivo muito fixo em minha cabeça, que era cursar uma universidade ou conservatório de dança, pois aqui no Brasil pensei que tal possibilidade seria e ainda é muito difícil.

ES - O que ocorreu para que você fosse para Londres?

JA - Eu acho que foi um saturamento de minhas possibilidades no Brasil e a falta de oportunidades que gostaria de ter para poder desenvolver-me como artista, além do apoio de forma geral. O Brasil, em relação às suas riquezas, ainda não presta o devido valor à dança – que, aqui, apesar de ser muito popular, ainda é vista como de muito pouca importância. Reconheço que há a necessidade de [serem resolvidos] muitos outros problemas primeiramente.

ES - Como foram seus primeiros momentos/dias/anos em Londres?

JA - Como todos podem imaginar, muito difíceis. Sozinho, sem família, não falando a língua e perdido em uma selva de concreto que é Londres e ingressando em uma instituição inglesa onde os valores culturais de certa forma são totalmente diferentes dos que conhecia.

ES - Quais os trabalhos desenvolvidos em Londres?

JA - Após o término de meus estudos, iniciei um trabalho com uma companhia, Protein Dance, onde trabalhei por quatro anos viajando pela Europa e Estados Unidos. Também desenvolvi trabalhos com danças latinas (salsa, lambada, samba). Trabalhei como professor em “workshops” em vários festivais de dança pela Inglaterra. Nos últimos dois anos tenho dado início ao meu trabalho como coreógrafo, o que tem sido uma fase totalmente nova para mim, como artista.

ES - Como é o dia-a-dia pessoal e profissional em Londres?

JA - Muito corrido e estressante. Tem três coisas que tem que se ter em mente quando uma pessoa muda para Londres e quer vencer: 1 - trabalho; 2 – trabalho; e 3 – trabalho. Aí se descansa e veem-se os amigos. 

ES - Quais os seus melhores (e os mais difíceis) momentos em Londres?

JA - Acho que melhores e piores momentos são sempre muito relativos. A vida é feita de piores e melhores, mas claro que sempre estou esperando por dias melhores. Em relação à minha vida em Londres, acho agora que meu trabalho, como artista independente, está sendo reconhecido pelas instituições artísticas de Londres. Piores foram os dias quando questionava se o que eu estava fazendo era realmente o melhor para mim (e posso dizer hoje em dia que esta questão já não me atormenta mais).

ES - Qual a impressão geral dos londrinos sobre seu trabalho?

JA - Londres é uma cidade muito cosmopolita, e a impressão que eles têm da cultura brasileira já é muito forte. Então, em relação ao que faço -- que é uma mistura dessas culturas (inglesa, latina, brasileira) --, penso que estão curiosos com o que pode acontecer. De forma geral, [os londrinos] são muito receptivos e [a reação é] de apoio.

ES - Quais os seus próximos desafios profissionais e pessoais?

JA - Acho que, no momento, é estabelecer o que construí nos últimos nove anos, e isso será mais um desafio, pois o sucesso pode ser muito passageiro. Porém, meu objetivo não é apenas sucesso e, sim, o meio de me comunicar com o meu público e poder, através de meus trabalhos, contribuir para modificar pensamentos e atitudes. 

ES - Que outros países já visitou ou nos quais já desenvolveu atividades profissionais?

JA - Holanda, França, Bélgica, Itália e Alemanha.

ES - Quais as diferenças entre o trabalho que você desenvolve em Londres e aquele que é desenvolvido no Brasil por outros bailarinos e coreógrafos?

JA - Acho que a fundamental diferença é o apoio e a infraestrutura oferecida, mas, em termos de talento de dança, o Brasil sempre estará à frente. Porém, acho que isso é muito individual.

ES - Quando se mudou para Londres?

JA - Em agosto de 1996.

ES - Quantas vezes esteve em Imperatriz depois dessa mudança?

JA - Mais ou menos cinco vezes.

ES - O que mais chama sua atenção em Imperatriz em relação a 

Londres?

JA - O senso constante de crescimento, que acho que tem muito a ver com grandes centros como Londres.

ES - Você visitou dançarinos / bailarinos / coreógrafos em Imperatriz? Qual a sua impressão?

JA – Infelizmente, desta vez não foi possível estabelecer nenhum contato, mas estarei aqui no próximo ano, com certeza.

ES - Você está estudando a cultura indígena. Você pretende utilizar algo em seu trabalho? O quê? Por quê?

JA - Estou tentado fazer um novo projeto, chamado “Raízes”, que irá abordar todas as influências em termos de dança na cultura brasileira e espero incluir os rituais indígenas.

ES - Você esteve em “shows” de artistas da terra e adquiriu CDs de música. Qual a sua impressão do material de que tomou conhecimento?

JA - A região de Imperatriz parece-me ter uma grande força em relação a artistas (música, teatro, escritores, artesanatos). Acho que tenho muito disso em meu trabalho; a diferença é que fui em busca de desenvolvimento. Espero que as pessoas aqui vejam esse potencial e valorizem os nossos artistas como se deve.

ES - O que você está lendo / ouvindo / vendo em Londres? E em Imperatriz, o que leu, viu ou ouviu?

JA – Recentemente estive lendo um livro de Antropologia a respeito de tribos da Indonésia e uma ficção de um escritor americano (de cujo nome não me recordo) chamado “O homem que se apaixonou pela Lua”, que fala a respeito dos índios da América do Norte. As últimas coisas que vi em Londres não me recordo exatamente, e aqui [em Imperatriz] não tive, desta vez, chance de apreciar.

ES - Há chance de você voltar a morar em Imperatriz? Sob que condições? Ou você pretende continuar em Londres ou em outro país da Europa, Ásia ou Estados Unidos?

JA - Acho que esta questão é muito cruel, mas vamos pôr desta forma: eu e meu trabalho somos inseparáveis; onde posso desenvolver meu trabalho é onde estarei. Porém, o futuro é sempre imprevisível, e assim é, a meu ver, o melhor motivo de viver.

ES - Conhece brasileiros em Londres? Algum do Maranhão ou de Imperatriz?

JA - Conheço uma família inteira de Imperatriz, com quem, inclusive, trabalhei.

ES - Qual a sua impressão geral de Imperatriz? Relacione algumas coisas que mais lhe chamaram a atenção.

JA - Imperatriz é dotada de um dom para o crescimento e isso é o que mais me chama a atenção. Porém, crescimento sem organização, desenvolvimento e Educação me preocupa, pois o que parece bom pode se tornar um desastre.

ES - Diga três coisas que você gostaria que o prefeito fizesse.

JA - Educação, Educação e Cultura.

ES - Você continua estudando em Londres? O quê?

JA - No momento, meus estudos se resumem a muita leitura e visitas a bibliotecas e museus de arte, o que para mim é uma das melhores formas de aprendizado. Também estou estudando espanhol e italiano.

ES - Que pessoas foram importantes no início de suas atividades e que outras também são importantes no seu atual estágio?

JA - Meu pais; e depois disso acho que é difícil relacionar, pois não gostaria de excluir ninguém: Drª Marioh North, a diretora do Laban Centre, que me deu a bolsa de estudos nesse conservatório de dança para realizar meus estudos; atualmente, o The Place, que é uma organização que está apostando tudo no meu desenvolvimento como coreógrafo.

ES - Qual a impressão dos londrinos sobre o Brasil? Que imagens eles têm de nós?

JA - Um povo aberto e cheio de energia que [os londrinos] respeitam muito.

ES - Sua mensagem final.

JA - Muito obrigado aos meus pais e à minha família por terem me dado toda a força e inspiração que tive. Sem os ensinamentos e o apoio deles, eu nada seria. Para mim, eles são o retrato de Imperatriz.

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O QUE DISSERAM DE JEAN ABREU

        ‘Hibrido… a highly physical yet mysteriously introspective journey, melding contemporary and Latin American dance forms… full of feline stealth and curiosity. Muscular but fluid, Abreu possesses the ease of an animal inside its own skin.’ (The Times, 2004) – (Física e misteriosamente introspectiva jornada que mistura dança contemporânea e dança latino-americana... Cheio de curiosidade felina, muscular mas maleável, Abreu possui um espírito de animal debaixo da própria pele.)

        ‘...a deeply sensitive solo… Abreu has a wonderfully sensuous movement style… The choreography is intelligent and sensitive…’ (The Dance Insider, 2004, referring to ‘O Lungo Drom’) (Tradução: Intenso e sensitivo solo.... Abreu tem um lindo movimento sensual de estilo... A coreografia é inteligente e sensitiva...)

        ’Harmonious and airy… Abreu has a panther-like intensity, his sinewy twists and weighty lunges drawing Natasha Gilmore into a dreamy duet of soft lifts and earthy rolls.’ (The Guardian, 2004)

        ‘..(Abreu) borrows…movements from capoeira and the lilting swing of Latin culture, blending them with restrained lyricism into a rounded dance duet’ (De Volkskrant, Amsterdam, 2003, referring to ‘Hibrido’) 

Edmilson Sanches

EDMILSON SANCHES.

[email protected]

Administração - Comunicação - Desenvolvimento - História – Literatura // PALESTRAS, CURSOS, CONSULTORIA

Foto: Jean Abreu, em seu trabalho "Blood" a primeira foto, em vermelho).

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