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O articulista João Batista do Lago traz a Parte IV de seu ensaio, "O que pode um corpo?"

Pensadores do Século XXI

05/09/2021 17h23 Atualizada há 5 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: JB do Lago
João Batista do Lago
João Batista do Lago

O que pode um corpo?

(E este corpo feminino, o que pode?)

De João Batista do Lago

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O presente artigo, desta série que me propus a escrever, aos meus olhos, é o mais difícil de todos. O mais complexo. O mais complicado, porém, o mais instigante. E por quê? Exatamente porquê o corpo feminino – este “sujeito” cultural, econômico, social, político etc. há sido estudado desde o Iluminismo (muito embora desde a antiguidade medieval e clássica vários autores já haviam problematizado o tema) com muita frequência e por dezenas de milhares de autores, o que torna impossível e mesmo inviável citá-los. Isto não impedirá, no entretanto, que alguns autores que fazem parte da minha pesquisa bibliográfica (mas sem uma metodologia definida) sejam mencionados. Mas quero destacar desde logo que somente aqueles que eu considere “mais importante”(NA) serão lembrados. Devo destacar, ainda, que estes artigos desde a origem não tiveram, não têm e não terão, o condão da cientificidade. Eles interessam muito mais à minha história de um saber pessoal que, necessariamente, às academias. Sendo assim, que me perdoem os críticos e os “doutos”. Por outro lado, não é demais inferir que, em verdade, “talvez” eu esteja aqui e agora revelando uma determinada cognição, a partir de um campo memorial – sobretudo da minha infanto-adolescência. Sem mais chorumelas vamos ao que se me interessa.

IV.I – Capitalismo, corpo feminino e pós-verdade 

“Talvezes” eu devesse começar este artigo partindo de um perspectivismo historicista sobre a problemática do corpo feminino. Mas não. Vou direto ao ponto. E mais direto ainda porque este tema não é de interesse exclusivo das mulheres (corpos femininos). Em verdade, interessa a toda a sociedade. E interessa a toda sociedade exatamente porque o corpo feminino foi o mais violentamente capturado pelo capitalismo. Isto, per se, explica todo o meu interesse pela problemática. Para a escritora italiana Sílvia Federeci, por exemplo, que durante trinta anos pesquisou a matéria, até compor o quadro sobre as circunstâncias históricas específicas em que se desenvolveu a perseguição às bruxas e as razões pelas quais o surgimento do capitalismo exigiu um ataque sistemático e brutal contra as mulheres (https://outraspalavras.net/), “Marx estudou esse período de uma perspectiva masculina. Ocupou-se somente da esfera produtiva, do trabalho assalariado, e ignorou toda a esfera reprodutiva da vida e da mão de obra: a gestação, aleitamento e cuidado com as crianças, a sexualidade, o cuidado com os velhos e os doentes, o alimento, a limpeza. O mesmo ocorreu com Foucault em sua história da sexualidade. Uma história de homens”. Traduzindo as palavras de Federeci ouso dizer que até mesmo Marx e Foucault, pelo menos nesses momentos tiveram seus “espasmos” de pensamentos machistas.

Não. Minha questão aqui não é a demonização dos corpos masculinos (homens). Não, pois isto não passaria de um reles reducionismo da questão. O que me incomoda de fato é ter aprendido e apreendido que o capitalismo (e o capitalista) é, por excelência, o deus macho todo poderoso. Então, assim sendo, como à época (e isto se dá até nos dias atuais) era corrente dizer-se que a mulher seria a parte frágil da relação entre esses corpos, capitalismo e capitalistas não tardaram subjugar e submeter o corpo feminino ao “suplício” da reprodução ou reprodudibilidade, encerrando o corpo feminino, ou seja, a mulher numa espécie de leprosário conjugal, onde a função era a de reproduzir braços fortes para a sustentação ou sustentabilidade do capitalismo nascente nos séculos XI, XV e XIX (principais fases).

O que vai mudar essa correlação de forças (entre tantos movimentos feministas individualizados anteriores), aos meus olhos, é o movimento de maio de 1968, em França. Esse choque de/da realidade despertou o mundo para um novo debate sobre o papel das mulheres, consequentemente sobre a problemática: o que pode um corpo feminino?

Há um longo caminho a percorrer, apesar de entendermos e sabermos dos mais diversificados “avanços” (mas não o bastante!) alcançados até aqui. Mas, ainda assim, o corpo feminino continua subsumido dentro de um estruturalismo machista-capitalista-falocêntrico-histriônico.

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Vejam o que nos relata a feminista, ativista e escritora italiana italiana Sílvia Federici: “O capitalismo precisa criar hierarquias: o que ganha mais, o que ganha menos, a que não ganha. O trabalho da mulher não é assalariado e portanto não é considerado trabalho. Racismo e sexismo são formas intrínsecas ao sistema, maneiras de dividir para controlar.” E o que ela fala sobre o Brasil: “A Inquisição foi estendida ao Novo Mundo, e no Brasil foram acusados também homens negros escravos, além das mulheres escravas. Espero que Calibã e a Bruxa inspire as jovens brasileiras a aprofundar os estudos sobre esse período“, (é o que também espero) disse Silvia às plateias que a assistiram quando ela palestrou por aqui, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Pois bem, ao finalizar esta quarta parte desta série de artigos quero retomar um pensamento que deixei voado acima, que bem sei é polêmico, contudo deve ser manifestado abertamente e conclamado para um debate mais amplo e producente, qual seja, a demonização do corpo masculino (homem) por parte de alguns setores ou coletivos, aos meus olhos, há que ser revista, posto que, a causa não existe no corpo masculino em si, mas no fetiche capitalista que intui na subjetividade da camada popular, dos trabalhadores, das trabalhadoras, dos homens, das mulheres, das comunidades negras, dos quilombolas, dos povos indígenas, dos empresários e empresárias, das diversas academias, dos colégios públicos e privados, e até mesmo na classe média e na da burguesia, além dos corpos políticos, econômicos, financeiros e culturais. E para finalizar: isto nada tem a ver com o fim do capitalismo ou dos capitalistas... Mas tem tudo a ver com um processo de conscientização da realidade realmente real que se nos afeta... que se nos atravessa. Sem isto, ouso dizer: nada vai mudar. E não se trata de quaisquer niilismos, mas da apreensão de uma realidade que se nos parece imanente, mas não é. Talvez seja um idealismo utópico da minha parte, mas creio que não porque em mim continuam os muitos “talvezes”. Até o próximo encontro.

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E-mail para correspondência: [email protected]

João Batista do Lago é maranhense de Itapecuru-Mirim, escritor, poeta, teatrólogo, pesquisador e jornalista.

1 - [Filosofia] Organização (movimento) que, centrado na intelectualidade, se baseia na utilização da Ciência e da Razão para indagar os preceitos filosóficos – de maneira empírica e racional – recusando quaisquer dogmas, principalmente os relacionados às doutrinas religiosas e/ou políticas; 2 – [Psiquiatria] Patologia acrescida de devaneios e visões de eventos sobrenaturais; 3 – [Religião] Doutrina de certos místicos, do súculo XVIII, que se baseava na crença de uma inspiração sobrenatural e de uma verdade religiosa intrínseca proveniente de Deus. Sem escala de valores

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Links dos textos anteriores:

PARTE III - (O que Pode um Corpo III.) - https://www.facetubes.com.br/noticia/1505/ensaista-joao-batista-do-lago-explicita-novos-olhares-sobre-qo-que-pode-um-corpo-iiiq

PARTE II - (A saga da análise filosociológica de João Batista do Lago, parte II: "O que pode um Corpo?") - https://www.facetubes.com.br/noticia/1477/a-saga-da-analise-filosociologica-de-joao-batista-do-lago-parte-ii-qo-que-pode-um-corpoq

PARTE I - (A estreia do poeta e jornalista, imortal da APB, João Batista do Lago: "O que Pode um Corpo?") - https://www.facetubes.com.br/noticia/1452/a-estreia-do-poeta-e-jornalista-imortal-da-apb-joao-batista-do-lago-qo-que-pode-um-corpo-q

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Lucinha VieiraHá 5 anos atrásSão PauloJá que o senhor tocou nesse assunto, digno cronista, o que Marx falaria de Artemis, Atena, Afrodite, Deméter, Hera, Perséfone, Pandora ou Gaia?
Madalena Hamilton Há 5 anos atrásSão Paulo USPCaro senhor. Seria bom se discutir, ainda, a seguinte premissa: como o corpo feminino transmuta-se por meio de um sujeito que não é o que a representa, mas sim outro sujeito: o sujeito masculino. Por que então, esse discurso é sempre evitado no campo filosófico?
Anastácia TimbergHá 5 anos atrásBuenos Aires, de Matinhos-PRMestre João, vou de Daniela Angeli,da Universidade Federal de Santa Catarina A obra "O corpo feminino em debate" busca desnaturalizar a experiência feminina, colocando-a sob o foco do seu aspecto relacional. Os seus textos reunidos abordam a problemática do corpo marcada em alguns períodos da história e perpassada por diversas perspectivas.A construção do corpo como produto de historicidade. Quanto ao aspecto mítico, (Pauline Schmitt-Pantel), o corpo feminino é "o mal do mundo", como em Pandora.
José JorgeHá 5 anos atrásUniversidade do Rio GrandeSimplesmente incrível. Mas difícil de ruminar.
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