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A saga da análise filosociológica de João Batista do Lago, parte II: "O que pode um Corpo?"

Estudos e análises

17/08/2021 17h50 Atualizada há 4 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: João Batista do Lago
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Link para ler o capítulo anterior: https://www.facetubes.com.br/noticia/1452/a-estreia-do-poeta-e-jornalista-imortal-da-apb-joao-batista-do-lago-qo-que-pode-um-corpo-q

O que pode um corpo? (Parte II)

De João Batista do Lago

1

Intuo empriricamente que foi a partir de Baruch Espinosa2 que a problemática do corpo se deu confessadamente uma questão filosófica (é claro, antes dele já se havia falado a respeito, porém, penso que é a partir de sua Ética que o tema ganha propulsão). Com ele aprendemos que o corpo não é pura e tão somente um amontoado de carne, músculo e osso. Um corpo é muito mais que isso. Um corpo é, sobretudo, potência que se relaciona com outras petências finitas e infinitas. Um corpo é um complexo de afectos3 e afecções4. Isto quer dizer que um corpo tanto pode ser afectado como afectar. Em outras palavras: o corpo é uma potência em ato; é a essência da existência de si; é o centro do divino; é o divino. Nada existe sem corpo, nem para além dele.

Ora, isto posto, devemos entender que não só o ser humano é corpo, mas, também, todas as outras “formas” de animais; assim como as árvores, as pedras, as rochas, os rios, os mares, a terra, o ar, o fogo, o sólido, o líquido, o tempo, o espaço... enfim, o universo. Mas é neste ponto que devemos fazer uma distinção clara, plena e absoluta: somente o ser humano é racional; somente o homem e a mulher têm uma mente pensante. Portanto, somente o hoem e a mulher têm a possibilidade de adquirir a imanência5 do corpo na natureza. Sendo assim, intuo que para Espinosa isso faz toda a diferença. E é exatamente aqui que ele consagra a unicidade mente-corpo. Aos meus olhos é exatamente aqui que ele estabelece o seu conceito originalíssimo de Natureza-naturante... de Deus... de Natureza-Deus ou Deus-Natureza. Noutras palavras, isto significa o seguinte: há perfeição em tudo, pois, tudo provém de Deus (Natureza). Portanto, para ele, a natureza é divina e perfeita. Dito isto, caros leitores e leitoras, rogo-vos – desde sempre – perdão por essas elucubrações empirísticas que em mim ruminam-se. Contudo, elas são parte desta minha experienciação existencial/intelectual e que latejam como um tumor purulento.

Então, o que pode um corpo (necessariamente)?

Seguindo a trilha deixada por Espinosa, e considerando apenas a minha intuição, intuo que um corpo pode tudo... Pode afectar e ser afectado, pois todo e qualquer corpo é feito de encontros6. De forças que se relacionam com outras forças. De potências que se relacionam com outras potências. De movimentos que se relacionam com outros movimentos. De repousos que se relacionam com outros repousos. De alegrias que se relacionam com outras alegrias. De tristezas que se relacionam com outras tristezas. Tudo isso são encontros categóricos indispensáveis para entender o que pode um corpo – seja na esfera científica, seja no plano físico ou metafísico; seja no escopo metafórico. Seja no campo privado; seja no campo público. Seja no âmbito da religião ou não. Seja no campo da Moral ou da Ética. Seja no campo; seja na cidade. Seja na ambiente social, político ou econômico. Não há como escapar de encontros! Eles são as nossas experiencias – conscientes ou inconscientes. Aos meus olhos, vivemos ad eternum de encontros. (E mesmo os desencontros são, necessariamente, encontros!). É exatamente isso que Espinosa enuncia como sendo a natureza (imanente) divina e perfeita (Deus) – penso eu.

E como acontecem esses encontros (necessariamente)?

Por intermédio dos afectos e das afecções (necessariamente).

Vejam o que infere Espinosa: “(...) Nada acontece na natureza que possa ser atribuído a um vício desta; a natureza, com efeito, é sempre a mesma; a sua virtude e a sua potência de agir são unas e por toda parte as mesmas, isto é, as leis e as regras da natureza, segundo as quais tudo acontece e passa de uma forma a outra, são sempre e por toda parte as mesmas; por consequência, a via reta para conhecer a natureza das coisas, quaisquer que elas sejam, deve ser também una e a mesma, isto é, sempre por meio das leis e das regras universais da natureza (…).” - (Ética, parte III, Da Origem da Natureza das Afecções, p. 175).

Ora, então por quê há corpos deprimidos, doentios, enfermos, tristes, acabrunhados?; outros alegres, satisfeitos, potencializados, saudáveis e prenhes de alegrias?

O próprio Espinosa nos responde dizendo: “O corpo (…) pode ser afetado de numerosas maneiras pelas quais a sua potência de agir é aumentda ou diminuida; e, ainda, por outras que não aumentam nem diminuem a sua potência de agir.” (…) “O corpo (…) pode sofrer numerosas transformações e conservar, todavia, as impressões ou vestígios dos objetos e, consequentemente, as imagens das coisas (...)”. (Ética, III, postulados I e II, p. 176). É aqui que a porca torce o rabo!

Ao inferir tal pensamento Espinosa quer dizer que tudo o que acontece a um corpo somente ocorre porque esse corpo foi afectado, isto é, teve sua potência aumentada ou diminuida durante o processo de um encontro qualquer. Essa afectação resulta de subjetividades apreendidas durante toda a existência e que são resgatadas ou coagidas no instante (aqui e agora) da ocorrência do afecto (encontro). Benedictus não está só nesse pensamento. Nietzsche, por exemplo, declara em uma carta de 1881 que sua filosofia7 e a de Espinosa partilham de uma “idêntica tendência geral”, resumida na fórmula: “fazer do conhecimento o afeto mais potente”. Vê-se, pois, aqui, que o corpo é um “senhor desconhecido”, mas que precisa ser absolutamente conhecido pelo “si” do corpo. Noutras palavras pode-se salientar que todo e qualquer encontro (afecto) – alegre ou triste – deve ser cristalinamente entendido pelo corpo afectado como “o afeto mais potente”.Novamente aqui a porca torce o rabo!

Aos meus olhos, todo “o afeto mais potente” (e aqui corro o risco da discordância pretensiosa de entender, seja o afeto (Nietzsche); seja o conhecimento (Espinosa)) – como “o afeto mais potente - é todo e qualquer um que se nos ocorra, que se nos atravessa, que se nos encontra; tanto faz se alegre ou triste. Ter a sensação do amor ou do ódio são, para mim, parte da imanência da natureza do ser e do si. Portanto devem ser existencializados (poetencializados) e não somente percebidos. Noutras palavras: sentir amor (paixão alegre) ou sentir ódio (paixão triste), não está fora da possibilidade do que pode um corpo. Aqui insiro a noção de gozo (prazer de...) ou de desprazer, aflição ou choque. Estes modos ou atributos estão em movimento contínuo. Permanentemente somos atravessados por eles, estejamos em movimento ou não, ou seja, em estádio de sonho (sono) ou de vigília. E isso ocorre necessariamente porque somos, inequivocamente, corpo-mente/mente-corpo. Contudo, a inexistência experiencial do conhecimento ou do afeto, ou seja, não ter a experienciação destes, não saber deles é, pois, a causalidade fundamental para que existam corpos alegres ou tristes, ou ainda, corpos sãos ou doentios. Assim sendo, pode-se dizer concretamente que os que passam pela vida resmungando – de tudo e de todos (e existem muitas pessoas assim) – são, necessariamente corpos doentes, infelizes, grosseiros, abjetos. E é exatamente daí que nascem os preconceitos, os rascismos, os ressentimentos... são reativos. Por outro lado, aqueles que se propõem um processo de constante alegria (e esses são muito poucos) são prazeros, felizes, cordatos, vitalistas, entusiasmados e entusiasmadores.. são ativos.

Exemplo

Na minha experiencialidade (pessoal e social) tive a possibilidade de “encontros” com corpos sãos e doentios! Até mesmo no núcleo familiar (e, principalmente nesse)! E devo admitir sobriamente que, mesmo eu, fui (necessariamente) um corpo doente, assim como um corpo são – tantas e quantas vezes. Contudo, diferentemente de pais, irmãs e irmãos, ou de companheira(s) ou filhos, tentei – e tento – sistematicamente ser tão somente um corpo sadio. Não é fácil! Administrar um processo de “alegria” permanente é algo consideravelmente difícil! Intuo que é mais possível (até!) viver em um processo de “tristeza”! A esse respeito vejam o que diz Espinosa: “Aquele que imagina aquilo que ama afetado de alegria ou de tristeza será igualmente afetado de alegria ou de tristeza; e ambas essas afecções serão maiores ou menores naquele que ama, conforme o forem na coisa amada” - (Ética III, prop. XXI, p. 188). Confesso que para mim foi e é (assim como será) extremamente difícil lidar com esse processo de verdadeira desconstrução de um sujeito que foi nascido e criado e educado no seio de uma família católica, cristã, preconceituosa, racista, homofóbica, falocêntrica...

Mas, sobre isto, falarei no artigo da próxima semana. Até lá.

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E-mail para correspondência: [email protected]

1 Jornalista, Escritor, poeta, teatrólogo, articulista, ensaista e pesquisador.

2 No dia 24 de novembro de 1632, em Amsterdam, nasceu Baruch (ou Bento em português, ou Benedictus em latim). Morreu em Haia em 21 de fevereiro de 1677.

3 Afeto (affectus ou adfectus em latim) é um conceito usado em filosofia por Espinosa, Deleuze e Guattari, o qual designa um estado da alma, um sentimento. De acordo com a Ética III, 3, definição 3, de Espinosa, um afeto é uma mudança ou uma modificação que ocorre simultaneamente no corpo e na mente.

4 Preferi esta grafia para, definitivamente, diferenciar o sentido desses vovábulos.

5 Característica do que faz parte da essência de alguma coisa em oposição à existência (real, imaginária ou fictícia).

6 Espinosa acredita ser possível entender os afetos, em sua produção interna e necessária, com seus vários graus de complexidade. Espinosa denomina de “bom-encontro” o momento onde nos tornamos mais próximos do mundo e de nós mesmos, ampliando a capacidade de afetar e ser afetado.

7 Em 30 de julho de 1881, Nietzsche envia carta ao amigo Franz Overbeck, Nessa carta o filósofo alemão infere: “Eu tenho um precursor! Eu estou muito espantado, arrebatado! Eu tenho um precursor! E que precursor! (…) Não é apenas que sua tendência global seja a mesma que a minha: fazer do conhecimento o afeto mais poderoso (...)”.

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